Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Desastre de Brumadinho traz à tona ressentimento e críticas contra a Vale

Entre os alvos estão o licenciamento das barragens e a falta de assistência para os atingidos

Rubens Valente
Brasília

Raiva e indignação são sentimentos predominantes entre moradores da região de Brumadinho (MG) sobre o comportamento da Vale tanto no desastre de sexta-feira (25) quanto nos últimos anos, quando insistiu em expandir suas atividades na região.

O rompimento da barragem desencadeou uma onda de críticas que vão do desdém de seus executivos, quando confrontados nos últimos tempos pela população, ao descaso pela ineficácia do sistema de emergência.

No sábado (26), a Folha acompanhou um grupo de 40 pessoas que protestavam com faixas e cartazes contra a empresa no bairro de Casa Branca. "Fora, Vale! Fora, Vale! A Vale é um horror, destrói a vida, a natureza e o amor", cantava o grupo de manifestantes, formado por acadêmicos, profissionais liberais e ativistas ambientais, que há tempos contestam as atividades mineradoras na região. Cartazes diziam que "não foi acidente, foi crime".

"Depois do que ocorreu com Mariana, não tem sentido isso acontecer. E de novo com a mesma empresa que ganha, no final do ano, bilhões de reais em lucros. É inacreditável. Sempre se fala do passivo ambiental, mas, além disso, tem a morte de tantas pessoas. E sempre fica por isso mesmo", disse a artista plástica e professora Maria Elisa Miranda.

A Vale é uma das controladoras da Samarco, dona da barragem de Fundão, em Mariana, com a BHP Billiton.

"O protesto que fizemos foi quase uma criação espontânea devido ao horror que isso significa para nós que estamos vivendo aqui em torno dessas minas. Como disse um representante do Ibama, nós temos uma bomba-relógio sobre nossas cabeças, barragens em situação de risco", disse Maria Elisa, em referência à ampliação das atividades da Vale na região.

O ativista ambiental e professor de francês Leonardo Babo reclamava das novas autorizações dadas pelo governo estadual. "Foi um licenciamento que eles chamam de 'express', eles usam essa expressão. Foi a toque de caixa, marcaram uma reunião atrás da outra, foi rapidíssimo."

Como a Folha relevou no sábado, a ampliação das atividades do complexo onde fica a barragem foi aprovada com um rito mais rápido do que seria o adequado, depois que a classificação de risco foi rebaixada, sem explicação.

A indignação com a empresa já era notada.

Na noite de sexta, horas depois do desastre, a reportagem encontrou o presidente da associação dos moradores do Córrego do Feijão, Luciano de Oliveira Lopes, 48, se dizendo perplexo com o não funcionamento do sistema de alerta.

Há cerca de dois meses, a Vale fez um treinamento com todos os moradores do bairro para o caso de desastre. A empresa chegou a soar a sirene e fez uma simulação de evacuação dos locais de risco. Na sexta-feira, nada funcionou.

"Você faz um simulado, você participa de várias reuniões dentro da própria empresa e ninguém sabe explicar por que não tocou a sirene. Como você investe num material que vale bilhões e não atendeu ninguém? Não atendeu nem os próprios funcionários da empresa, que morreram também, nem a comunidade. Olha a situação que a comunidade ficou?", disse Lopes. Ele estima ter "perdido mais cem conhecidos e companheiros".

O tratorista Vicente Antunes de Oliveira afirmou que foi acordado pela sirene na manhã deste domingo (27). "A Vale não veio aqui em casa até hoje. O que eles tinham que fazer? Pegar o pessoal e colocar num ônibus, levar para um lugar mais alto. A gente fica aí... Correr para onde? Quem tem carro sai fora. E quem não tem? Isso a culpada é a Vale mesmo", disse.

Oliveira se disse indignado com o comportamento de executivos que não procuraram os moradores para falar sobre o desastre.

"Ninguém veio falar com a gente. Eles passam aqui na rua de carrões bonitos, com ar-condicionado, não param nem para saber se eu tenho o que comer, o que beber. O armazém está fechado. Se uma criança quer um leite, não tem leite. Para comer, agora eu tenho que ir lá no centro comunitário para pedir um favor para eles. Eles que tinham que trazer as coisas aqui. Teria que ir de casa em casa. Eles que fizeram essa confusão toda", disse Oliveira.

O estudante de direito Jeferson Custódio Santos Vieira, 19, que tem como desaparecidas uma avó, Diomar Custódio, uma tia, Jussara Ferreira, e uma professora de direito civil, a coordenadora do curso de direito da Faculdade Asa de Brumadinho (MG), Sirlei de Brito Ribeiro, além de amigos de infância, disse que a Vale "iniciou um diálogo com a comunidade sobre um eventual acidente, mas acabou que não teve utilidade nenhuma".

Ele disse que há meses comentários circulam no povoado sobre risco de desabamento da barragem. "Os funcionários lá de dentro já comentavam. A empresa tinha algum conhecimento. Em 2018, fez um levantamento de valores e donos de terrenos e casas aqui na região. Qual o objetivo? O levantamento ocorreu justamente nas áreas atingidas pelo desastre", disse Vieira.

OUTRO LADO

Em nota enviada à reportagem a Vale afirma que devido à velocidade com que ocorreu o acidente, não foi possível acionar as sirenes relativas à barragem 1, mas que aquelas referentes às barragens 4 e 4A foram tocadas.

"Lamentamos profundamente o ocorrido. Trata-se de uma grande tragédia humana. Todas as barragens da Vale estão em conformidade com a legislação ambiental e seguem os mais altos padrões internacionais de segurança", afirma a empresa.

"As causas do rompimento estão sendo investigadas e serão comunicadas com transparência e a maior agilidade possível. Estamos trabalhando com toda a energia para dar uma resposta clara e efetiva à sociedade", disse a nota.

A companhia afirma que foram retiradas 1.000 pessoas de áreas próximas ao rio Paraopeba e levadas para uma área segura. Além disso, diz a nota, a empresa criou um comitê formado por assistentes sociais e psicólogos para auxiliar os atingidos. "A empresa colocou à disposição 40 ambulâncias e helicópteros para apoio ao resgate, além de um caminhão-pipa com água potável para a comunidade."

Segundo a nota, o alarme deste domingo (27) se deu porque foi detectada uma alteração nos níveis de água em um instrumento que monitora a barragem 6. "Preventivamente, avisamos às autoridades e as ações para evacuação da população foram tomadas."

Questionada sobre o fornecimento de informações aos familiares, a Vale afirma que até às 10h deste domingo (27), foram recebidas mais de 1.400 ligações nos dois canais telefônicos disponibilizados pela empresa (0800-285-7000 e 0800-821-5000).

"A Vale incentiva que a população continue utilizando esses canais para informar sobre desaparecidos ou para solicitar qualquer tipo de assistência emergencial e reparação."

Sobre o engajamento de seus executivos, a empresa afirma que no domingo o diretor-presidente Fabio Schvartsman esteve em Brumadinho (MG) para acompanhar o trabalho de apoio às pessoas impactadas pelo rompimento da barragem.

"O executivo foi ao Centro de Comando, na Faculdade ASA, e conversou com as equipes de funcionários da Vale, voluntários, Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Polícia Militar, além de autoridades locais."


Saiba mais sobre a mineradora Vale

A empresa Mineradora multinacional fundada em 1942 em Itabira (MG)

O produto Ferro, minério de manganês, carvão, níquel, cobre, cobalto e ouro

Bolsas  Listada na Bovespa em 1968, na Bolsa de Valores de Madri e na New York Stock Exchange em 2000, e na NYSE Euronext Paris em 2008

Composição acionária 47,7% de investimento estrangeiro13,2% de investimento nacionalLitel/Litela 10,9%Bradespar 1,6%Mitsui&Co 2%BNDESPar 4,4%

Balanço do último trimestre Receita: R$ 37,9 bilhões Lucro líquido: R$ 6,5 bilhões Ebitda (lucro antes de impostos, depreciação e amortização)R$ 17,4 bi —R$ 15,7 bi pela operação de minério 

Colaborou Julia Barbon

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