Dois PMs são afastados por dia por problema psiquiátrico em SP

Total mostra um aumento de 22% entre janeiro e setembro de 2018, em relação a 2017

William Cardoso
São Paulo

Dois policiais militares, em média, foram afastados do trabalho por transtornos psiquiátricos, por dia entre janeiro e setembro deste ano em São Paulo. Ao todo, foram retirados de serviço 555 PMs, ante 454 no mesmo período de 2017, um aumento de 22% em relação ao ano passado.

Os dados obtidos pela reportagem via Lei de Acesso à Informação mostram que se trata do maior número de PMs afastados por problemas mentais nos nove primeiros meses do ano desde 2016.

O afastamento dos policiais militares depende de junta médica da própria corporação ou, em casos específicos, é obtido por meio de determinação judicial.

Desde 2010, foram 11.126 afastamentos de policiais militares do serviço por causa de transtornos psiquiátricos, segundo informação da própria corporação. A Polícia Militar conta, atualmente, com pouco mais de 80 mil integrantes em seus quadros.

Diretor de relações internacionais da Anamt (Associação Nacional de Medicina do Trabalho), João Silvestre da Silva Júnior afirma que o número de policiais afastados apontam para uma situação preocupante.

“O episódio de afastamento é algo grave, de alguém que está passando por sofrimento intenso”, afirma.
Silva Júnior admite que o policial militar está sujeito a um ambiente de trabalho de bastante estresse, seja por lidar com a violência ou pela rotina do serviço, geralmente composta por plantões e longas jornadas, muitas vezes no período noturno.

Segundo o representante da Anamt, o fato de o país viver uma crise econômica afeta o policial militar tanto do ponto de vista pessoal, com dificuldades financeiras, quanto na questão social, com mais desemprego e aumento na criminalidade.

“É a tempestade perfeita. Se é uma pessoa com a predisposição individual, numa sociedade e numa organização estressante, ela não consegue controlar aquele desgaste que está sofrendo.”

Especialista em segurança pública, o professor da Fundação Getúlio Vargas Rafael Alcadipani afirma que o problema provocado por transtornos psiquiátricos em policiais militares é ainda maior do que os números mostram.​

De acordo com o docente, muitos policiais têm problemas, mas não chegam ao limite do afastamento.
“O sujeito quando chega ao ponto de ter que ser afastado é porque o caso é grave”, afirma. “Os dados da Ouvidoria mostram que morreram mais policiais vítimas de suicídio do que em confronto em São Paulo”, completa Alcadipani.

Segundo o especialista, a vida do policial militar é desgastante e isso interfere na sua saúde. “O nível de estresse do policial é muito grande, porque precisa cumprir horário na polícia e fazer bico. Não tem tempo para descansar e se reorganizar. O salário é baixo e ele precisa do bico no horário de folga”, afirma o professor.

Alcadipani fala também que a própria cultura da Polícia Militar acaba favorecendo o surgimento de problemas psiquiátricos. “É visto como feio ir ao psiquiatra, sentir dor. Ele [policial] tem que se mostrar forte o tempo inteiro”, diz o docente, que vê descaso das autoridades com o problema.

“A saúde mental dos nossos policiais é um problema grave que tem merecido pouca atenção tanto de chefias das policiais quanto do governo”, afirma.

APOSENTADORIA

A família de uma soldado luta há pelo menos quatro anos para conseguir a aposentadoria dela. Segundo os parentes, uma junta da PM não queria conceder nem mesmo o afastamento, apesar de a integrante da corporação passar por um tratamento baseado em remédios controlados e internações por surtos psiquiátricos.

“Eles não queriam dar o afastamento da minha mulher. Conseguimos uma liminar na Justiça para que ela fique em casa aguardando um parecer técnico. Ela não tem mais condições de trabalho”, diz o marido, um aposentado de 65 anos, que preferiu não se identificar.

Segundo o aposentado, não houve um episódio específico que tenha marcado o início dos transtornos. “A gente não sabe o motivo que desencadeou isso. Ela acordou um dia de manhã e disse que não poderia trabalhar”, afirma. “Ela sempre gostou, adora ser policial.”

Recentemente, a soldado passou por um episódio crítico, com internação. “Ela não tem mais condições de exercer a profissão. Por ela, iria, porque o sonho sempre foi ser policial. Mas não tem como”, diz o marido.

A Polícia Militar afirma que a quantidade de policiais afastados do serviço por problemas psiquiátricos apresenta “tendência significativa de redução nos últimos anos”. “Comparando-se os anos de 2014 e de 2017, registrou-se redução de 58,2%, indicando que o SiSMen (Sistema de Saúde Mental) da instituição vem apresentando resultados preventivos expressivos”, diz, em nota.

Segundo a PM, a atividade policial, por sua característica peculiar, como o risco inerente, exige da corporação uma atenção especial em relação à saúde mental de seus integrantes. “A estrutura de atendimento aos profissionais de polícia é um dos destaques positivos do processo de gestão dos recursos humanos. E, por isso, o comando da PM vem investindo continuamente na área de saúde mental”, diz.

A corporação diz que o SiSMen disponibiliza aos policiais serviços de atendimentos psicossociais realizados por psicólogos e assistentes sociais no Centro de Atenção Psicológica e Social, sediado na capital, bem como nas unidades que possuam Núcleos de Atenção Psicossocial. Segundo a PM, o sistema conta com 34 núcleos no estado. 

Agora

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.