Em limbo de gestão, ponte fechada em SP ficou sem dono nem manutenção

Prefeitura, concessionária e ministério debatem responsabilidade sobre alça que liga marginal à Dutra

Trânsito na marginal Tietê nesta quinta (24), após ponte que dá acesso à Dutra (esq.) ser interditada

Trânsito na marginal Tietê nesta quinta (24), após ponte que dá acesso à Dutra (esq.) ser interditada Bruno Santos/Folhapress

Fabrício Lobel Paulo Gomes
São Paulo

Vinte e quatro horas após ponte de acesso à rodovia Presidente Dutra, na marginal Tietê, ser interditada, o governo federal, a concessionária da rodovia e a Prefeitura de São Paulo ainda debatiam sobre a responsabilidade da manutenção e da reforma.

A indefinição deixou durante anos a ponte —agora interditada— num limbo de cuidados técnicos, o que, de acordo com especialistas ouvidos pela Folha, pode ter ajudado a depreciar a construção.

Para o engenheiro Wilson Lang, presidente do Ibape  (Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia), o poder público se esquece da infraestrutura. “Existem protocolos para se lidar com os problemas, mas não são cumpridos”, afirma.

De acordo com Sander Cardoso, professor de pontes no Instituto Mauá de Teconologia, as imagens indicam que houve um desgaste no material de neoprene —semelhante à borracha— que apoia a alça de concreto a sua base. 

“Essa peça tem vida útil, deve ser trocada num prazo de 20 a 30 anos. É uma operação cara, feita com o macaqueamento [elevação] da ponte. A gente vê que isso não acontece de forma adequada”, diz.​

A interdição ocorreu no início da noite da última quarta-feira (23). Técnicos que haviam acabado de ser contratados para vistoria recomendaram a imediata interdição assim que viram o suporte da ponte danificado.

O incidente ocorreu dois meses após um viaduto na marginal Pinheiros ceder, causando transtornos e alertando a prefeitura sobre a precariedade dessas estruturas.

O grande impasse agora no acesso à Dutra é saber quem é o responsável pela ponte, quem deveria ter feito a sua manutenção e quem pagará pelas obras.

Na noite de quarta, a CCR, concessionária da rodovia que liga São Paulo ao Rio de Janeiro, alegou que sua responsabilidade começa logo após a ponte. A informação foi confirmada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres.

A empresa disse ainda, em uma entrevista à rádio Bandnews, que desde 2017 enviava relatórios à Prefeitura de São Paulo sobre a fragilidade da alça ​que dá acesso à Dutra. Procurada, a concessionária não apresentou esses relatórios.

Na mesma entrevista, um representante da concessionária disse que conversava com a Prefeitura de São Paulo solicitando reparos menores, como de asfalto e sinalização.

Por sua vez, o prefeito Bruno Covas (PSDB) afirmou que a responsabilidade da ponte era do governo federal, especificamente do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes).

Na manhã desta quinta (24), Covas anunciou que a prefeitura faria a reforma da ponte e que só aguardava um aval do ministro. “A prefeitura, se for o caso, iniciará a obra de recuperação ainda hoje, assume essa responsabilidade e depois discute [o custeio]”, disse o tucano à imprensa.

Enquanto isso, em Brasília, o Dnit passou toda a quinta-feira buscando entre seus técnicos e arquivos quem soubesse responder se a ponte é ou não de sua responsabilidade. 

O problema, para o governo federal, é que a obra e a concessão da Dutra foram feitos pelo extinto DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem), substituído pelo Dnit a partir de 2001.

O aval para o início da obra só foi dado no início da noite pelo governo federal. A prefeitura já deu a ordem para uma empresa iniciar os trabalhos.

O Dnit ainda não sabia responder se a estrutura era sua ou não. O departamento também não informou se a via constava de seu plano de reforma de pontes e viadutos —em agosto, a Folha mostrou que 1 em cada 5 dessas estruturas sob responsabilidade federal no país necessita de intervenções.

O departamento é vinculado ao ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, ex-presidente do Dnit.
Covas disse que a prefeitura tem recursos disponíveis para os reparos, embora ainda não se saiba os custos da obra na marginal Tietê.

Segundo o Orçamento de 2019, aprovado pela Câmara Municipal, a prefeitura deverá ter neste ano apenas R$ 31 milhões para a manutenção de pontes e viadutos. O valor é menor do que o previsto para 2018, R$ 44,7 milhões. Além disso, só a reforma do viaduto da marginal Pinheiros foi estimada em R$ 30 milhões.

Para atacar o problema, Covas recorrerá a R$ 55,9 milhões do fundo de multas pagas por motoristas da capital. O Ministério Público já se opôs a medidas semelhantes na gestão Fernando Haddad (PT).

A ponte interditada na quarta-feira estava numa lista prioritária da prefeitura de oito estruturas viárias que necessitam passar por vistoria mais detalhada na capital paulista.

A gestão Covas diz que 73 pontes e viadutos deverão ser vistoriados na cidade.

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