Morto a tiro, ex-governador do ES propôs desarmamento há quase 20 anos

Arma do atirador, ex-assessor da vítima, era registrada, mas estava com a licença vencida

São Paulo

O ex-governador do Espírito Santo Gerson Camata (MDB) morreu em dezembro de 2018, aos 77 anos, após levar um tiro que o atingiu no pescoço. O crime aconteceu quase 20 anos após ele ter proposto, em 1999, mudança na legislação para desarmar civis em todo o país. Na época, como senador, Camata apresentou o projeto de lei 292/99, que deu origem mais tarde ao Estatuto do Desarmamento. 

Marcos Venicio Moreira Andrade, 66, foi o autor do disparo e confessou o crime. A arma utilizada por ele estava registrada em seu nome, mas com a licença vencida. Com as mudanças propostas pelo decreto assinado pelo presidente Jair Bolsonaro na terça (15), ele poderia ter a situação regularizada.

Ex-governador Gerson Camata, morto a tiro em Vitória em dezembro de 2018 - Tonico - 19.dez.2016/Ales

O documento publicado por Bolsonaro alterou o decreto que regulamenta o Estatuto do Desarmamento, lei federal aprovada em dezembro de 2003 que restringe a posse e o porte de armas no país. A medida assinada, no entanto, não muda essa lei, visto que alterações no estatuto precisam obrigatoriamente passar pelo Congresso. 

Quando defendeu a restrição das armas, Camata falava sobre uma possível mudança no sistema de segurança pública, que ocorreria ao longo do tempo como um processo natural.

A pesquisadora Rosana Alexandre dos Santos registrou em sua dissertação de mestrado, na Universidade de Brasília, trecho do discurso do ex-senador, na ocasião do início das discussões e votação sobre o desarmamento no país.

“É claro e é necessário que as pessoas que nos veem e nos ouvem saibam que, a partir do dia em que o presidente Lula sancionar o projeto, depois de aprovado pela Câmara, os crimes não vão diminuir no Brasil, mas os que portam armas com a intenção de praticar o crime vão começar a ser cerceados, como ocorreu na Itália. Devagar, eles irão perder as suas armas. Devagar, vão acabar na prisão. E, devagar, se diminui o número de armas em mãos da população e em mãos daqueles que usam a arma com a intenção de praticar delitos e de praticar crimes”, afirmou.

Antes da aprovação do desarmamento Camata chegou a ter que mudar sua rotina por episódio em que houve o uso indiscriminado de armas de fogo. No fim da campanha eleitoral em 2002, por exemplo, ele e o senador Paulo Hartung (PSB), que na época concorria ao governo, chegaram a desistir de ir a um comício em Cariacica (região metropolitana de Vitória), depois de uma troca de tiros no local que deixou duas pessoas feridas.

Os desentendimentos entre Andrade e Camata começaram quando o assessor, que trabalhou com o político por quase 20 anos, o denunciou por crimes de corrupção em 2009. Após romper com o padrinho político, Andrade acusou Camata de receber propinas de empreiteiras, ter fraudado prestações de contas eleitorais e de obrigar funcionários a pagar despesas pessoais dele com seus salários do Senado. 

Na época Gerson Camata se defendeu no plenário e negou as denúncias. Ele afirmou que o ex-assessor sofria de "distúrbios psiquiátricos" e que as denúncias são uma "falácia, calúnia".

O então senador não concorreu em novas eleições e deixou as funções políticas em 2010, mas posteriormente teria processado o ex-assessor, numa ação que chegou a bloquear R$ 60 mil em uma das contas bancárias de Andrade. Essa teria sido a motivação do encontro que resultou a morte do ex-governador.

Andrade disse, em depoimento, que foi tirar satisfações de Camata ao encontrá-lo em uma rua na Praia do Canto, bairro onde o agressor mora. Após uma discussão verbal, o ex-assessor sacou uma arma e disparou contra o ex-governador.

Em entrevista à imprensa, o secretário da segurança pública do Espírito Santo, Nylton Rodrigues, afirmou que Marcos Venício demonstrou ressentimento em relação ao ex-padrinho político. 

"Não acreditamos que tenha algo que não sido tenha sido premeditado. Até pela tranquilidade e pela calma com que Marcos Venicio confessou o crime", afirma.​​

Trajetória

Gerson Camata foi governador do Espírito Santo entre 1983 e 1986 pelo PMDB. Também exerceu três mandatos consecutivos no Senado, entre 1987 e 2011.

Formado em economia, Camata ganhou projeção como jornalista. Foi como apresentador da rádio Cidade de Vitória, onde comandava o programa Ronda da Cidade.

Começou a carreira política em 1967 como vereador em Vitória. Em 1971, assumiu uma cadeira de deputado estadual. Entre 1975 e 1983 foi deputado federal.

Na sua gestão frente ao governo do Espírito Santo ficou marcada pela construção de rodovias em cidades do interior do estado, o que lhe rendeu a alcunha de “governador das estradas”.

Camata era casado com a ex-deputada federal Rita Camata, que em 2002 foi candidata a vice-presidente na chapa de José Serra (PSDB).

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