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Troca política na Educação de Covas coloca em risco continuidade de ações

Por apoio político, prefeito Bruno Covas demite secretário da pasta desde 2017

Paulo Saldaña
Brasília

Não pega bem rifar a chefia da Secretaria de Educação no balcão das trocas políticas, como fez o prefeito Bruno Covas (PSDB). Mesmo que o tema nunca tenha recebido o protagonismo que exige, paira no imaginário coletivo o entendimento de que com educação não se arrisca, não se brinca.

Secretário desde 2017, Alexandre Schneider sai em meio ao movimento de Covas para fortalecer apoio político já de olho na reeleição do ano que vem. Não é troca técnica que consertaria os rumos da política educacional da cidade.

Covas e Schneider, em evento da Prefeitura de São Paulo em 2018 - Dario Oliveira/Folhapress

O recado que fica é claro (e negativo): vale mais os arranjos partidários do que a garantia de continuidade de um quadro técnico, reconhecido tanto pela rede educacional quanto por quem estuda educação no país.

A pasta da educação guarda alta complexidade. Há a necessidade de gestão diária de funcionamento das escolas, a relação com milhares de professores, o desenho de políticas de médio e longo prazo. 

Com a medida, o prefeito volta a encaixar São Paulo perfeitamente no cenário nacional em que a política não poupa a educação. Seis em cada dez dirigentes têm menos de dois anos no cargo, segundo pesquisa de 2017 da Undime (órgão que representa os secretários municipais de Educação). Chegam com o prefeito da vez e, em geral, em busca de sua marca própria na área.

O saldo de Schneider à frente da secretaria é positivo. Conseguiu ampliar as vagas de creche em meio à crise, liderou o desenvolvimento do currículo da cidade e manteve com a categoria docente a boa relação que já tinha quando ocupou o mesmo cargo na gestão Gilberto Kassab (PSD), entre 2006 e 2012.

Em duas ocasiões o jogo político quase o tirou da pasta nesses dois anos. Chegou a pedir as contas em abril de 2017 por não ter recebido respaldo do ex-prefeito João Doria (PSDB) após os ataques recebidos por simpatizantes do MBL (Movimento Brasil Livre). Acabou ficando.

Em outubro daquele ano, o agora governador paulista queria emplacar, como forma de combate à fome, a distribuição de um granulado feito com alimentos perto da data de validade que seriam descartados. Doria anunciou que a farinata estaria nas escolas e, mesmo contrariando normas, insistiu fortemente para que o secretário testasse essa farinha na merenda de algumas creches. 

O veto da secretaria de Educação à farinata na merenda causou novo racha na relação de Schneider e Doria. O tema acabou superado, mas na carta de despedida, divulgada em redes sociais, Schneider sequer cita Doria.

A relação entre o secretário e Covas mostrava-se mais amistosa. Mas coube ao tucano o troca-troca.

O novo titular de Educação da cidade, João Cury Neto, tem certa experiência na área. Foi secretário estadual de Educação de São Paulo sob o governo Márcio França (PSB), de abril a dezembro de 2018. Havia sido presidente da FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação), órgão responsável por viabilizar a execução de políticas educacionais, como obras de escolas, e prefeito de Botucatu.

Fica agora o desafio de mostrar se será mais útil para o arranjo político ou para a educação de 1 milhão de alunos.​

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