Covas demite secretários em troca de apoio político de olho na reeleição em 2020

Uma das mudanças do prefeito de SP foi Educação para agradar ex-governador Márcio França

Artur Rodrigues Guilherme Seto
São Paulo

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), demitiu secretários, já nomeou os seus substitutos e novos adjuntos e exonerou dezenas de assessores em cargos de confiança. O objetivo dessa reforma no primeiro escalão é fortalecer apoio político de diferentes partidos para o restante de sua gestão e também preparar terreno já de olho na campanha à reeleição do ano que vem.

Todas as trocas foram publicadas no Diário Oficial da cidade desta terça-feira (8). A reforma de Covas foi antecipada pela coluna Mônica Bergamo, da Folha.

A principal mudança está na Secretaria da Educação. Alexandre Schneider foi substituído pelo ex-secretário de Educação de Márcio França (PSB) no Governo de São Paulo, João Cury Neto, expulso do PSDB por aliados do atual governador João Doria (PSDB).

Em abril, Cury aceitou o cargo de secretário estadual de Educação da gestão França, o que foi entendido pelos tucanos ligados a Doria como apoio ao pessebista contra Doria na disputa eleitoral.

Covas e Schneider, em evento da Prefeitura de São Paulo em 2018
Covas e Schneider, em evento da Prefeitura de São Paulo em 2018 - Dario Oliveira/Folhapress

Reconhecido na área, Schneider conseguiu zerar a fila de pré-escola e superou a meta de colocar ao menos 50% das crianças em creches na atual gestão. Em mensagem na manhã desta terça-feira (8) nas redes sociais, o ex-secretário anunciou sua saída da vida pública e descreveu o período de dois anos no cargo como "tempos duros", de crise econômica, falta de 5.000 professores e orçamento apertado.

"Alcançamos com seis anos de antecedência as metas de matrículas em creche, com o dobro da cobertura do Brasil e do estado de São Paulo. Universalizamos a pré-escola. Reduzimos o número de alunos por sala no ensino fundamental. As crianças estão sendo alfabetizadas um ano mais cedo e já são 92% ao final do segundo ano", escreveu Schneider.

No texto, ele também dá indiretas em relação ao discurso adotado pelo então prefeito Doria, hoje governador, quando assumiu a gestão municipal. "Em nenhum momento lancei mão do surrado discurso da 'herança maldita'. Sempre reconheci a transição correta realizada pela gestão que nos antecedeu, que não escondeu nenhum problema que iríamos encontrar", escreveu.

O ex-secretário também agradece a Covas, que "sempre nos apoiou" e pela oportunidade de ter sido secretário. O texto não cita Doria, o prefeito que o nomeou em 2017.

Essa troca na Educação visa tanto já construir apoios para a reeleição de Covas quanto atrair Márcio França (PSB), virtual concorrente do prefeito na disputa. França tentou a reeleição ao governo no ano passado, mas foi derrotado por Doria em disputa acirrada de segundo turno.

Cury assume a prefeitura em momento que sua atuação como secretário da Educação no estado é alvejada por críticas do atual governador, que acusa a gestão França de não ter comprado os kits escolares. 

Nesta terça (8), após a nomeação de Cury para a pasta municipal, Doria postou sobre o assunto no Twitter. "Conforme a imprensa noticiou, assumimos a gestão sem contratos de compra de kits de material escolar para 2,6 milhões de alunos das escolas estaduais. Para tentar minimizar os danos para nossas crianças, agilizamos o processo e em uma semana foi possível firmar estes contratos", escreveu o governador. 

Covas, 38, começou a atual gestão paulistana como vice de Doriavirou prefeito da cidade em abril do ano passado, quando o então titular decidiu abandonar o cargo para disputar (e vencer) as eleições ao Governo de São Paulo.

Durante a última campanha eleitoral, Covas se manteve discreto. Não queria indicar nenhuma mudança de rumo na cidade enquanto o antecessor, também do PSDB, usava os 15 meses de gestão como vitrine. Agora já trata a prefeitura como sua, sem as amarras do antecessor.

Na semana passada, por exemplo, o prefeito fez uma série de nomeações políticas e até relançou regras sobre aplicativo de transporte, em acenos para aliados e também para contemplar membros de partidos que ajudaram na aprovação da reforma da previdência municipal no final do ano passado. 

O gesto principal foi a assinatura de um decreto que, na prática, apenas reafirma regras que já haviam sido anunciadas pela gestão tucana sobre o funcionamento de aplicativos de transporte na cidade, tais como Uber, 99 e Cabify.

O decreto foi assinado diante de uma plateia cheia de taxistas que comemoraram o texto e é resultado de uma costura política feita pelo vereador Adilson Amadeu (PTB), que votou a favor da reforma da previdência —principal projeto até aqui da gestão Covas.

Mudanças

Nesta terça-feira, entre outras mudanças na prefeitura, Aloisio Pinheiro, membro do PRB, assume a pasta da Habitação. Pinheiro foi advogado do PRB e secretário do Meio Ambiente de Suzano, cidade da Grande São Paulo. Fernando Chucre, atual titular da pasta, deixa a Habitação para assumir a Secretaria de Urbanismo e Licenciamento. Heloísa Proença, atual titular de Urbanismo e muito próxima do mercado imobiliário, sairá do governo.

Parte dos secretários será trocada em uma dança das cadeiras na prefeitura, entre secretários, adjuntos e secretários-executivos. Cesar Boffa de Azevedo, secretário de Gestão, será trocado por sua adjunta, Malde Vilas Bôas. Boffa vai ser adjunto da pasta de Urbanismo e Licenciamento. 

Affonso Massot foi exonerado do cargo de secretário das Relações Internacionais, e Luiz Alvaro Menezes assumirá o cargo temporariamente. Covas também exonerou ao menos 45 cargos comissionados.

Além dos arranjos com partidos para sua reeleição, Covas também prepara sua base para a votação de projetos importantes, como a operação urbana Jurubatuba, sem a qual a privatização do autódromo de Interlagos não deverá sair.

Na Câmara Municipal, o PRB, contemplado com a Secretaria de Habitação, é um dos partidos mais numerosos da base do prefeito, que conta com 43 de 55 vereadores. Com quatro vereadores, o PRB está atrás apenas de PT (9), PSDB (8) e DEM (5) em termos de representatividade na Câmara.

O PRB chegou a anunciar que deixaria a base aliada da gestão tucana em dezembro de 2017, quando Covas, então vice-prefeito e secretário da Casa Civil, decidiu exonerar funcionários da prefeitura que haviam sido indicados pelo partido. Segundo Covas, à época, o PRB estava dificultando a aprovação de projetos de privatização de equipamentos públicos.

A relação entre a gestão municipal e o PRB melhorou nos meses seguintes com a aprovação de projetos na Câmara e a reacomodação de quadros do partido em cargos na prefeitura. A nomeação de Aloisio Pinheiro agora, na prática, devolve a pasta de Habitação ao comando do partido.

O PSB, de França, também tem uma bancada forte no Legislativo paulistano, com quatro vereadores. No entanto, está prestes a perder um de seus membros: Camilo Cristófaro teve seu mandato cassado após ser denunciado por fraude eleitoral na captação de recursos de campanha e, caso nada mude, deixará o cargo antes de março.

Outro vereador do partido, Massataka Ota, protagonizou polêmica recentemente ao dizer a servidores públicos que perdeu 20 cargos na Prefeitura de São Paulo quando se posicionou contrariamente à aprovação do projeto de lei de reforma da previdência dos servidores municipais no primeiro semestre.

Oito meses de gestão Bruno Covas (PSDB)

Posse: Em 9 de abril, Bruno Covas (PSDB) assume a prefeitura no lugar de João Doria (PSDB), que sai para concorrer ao governo estadual. Parte do secretariado sai também

Incêndio: Em 1º de maio, prédio Wilton Paes de Almeida, no centro, pega fogo e desaba, matando ao menos sete pessoas. O gerenciamento da situação dos desabrigados, que ocuparam o largo do Paissandu, durou meses

Paralisação dos caminhoneiros: Em 21 de maio tem início a paralisação dos caminhoneiros, com transtornos para a cidade

Campanha: Em 16 de agosto, começa a campanha eleitoral. Covas coordena a campanha presidencial de Geraldo Alckmin (PSDB) no estado, onde o ex-governador sairia derrotado

Viaduto: Em 15 de novembro, viaduto na marginal Pinheiros cede. Reforma acabará só em maio de 2019. Covas é alvo de inquérito por falta de investimento na área e encampa bandeira de segurança em pontes e viadutos

PPP: Em 11 de dezembro, Tribunal de Justiça anula PPP de R$ 7 bilhões da iluminação, o que obrigará prefeitura a fazer novo processo

Metas para 2019

Aprovar mudanças na lei de uso e ocupação do solo: O projeto ainda precisa ser concluído pela prefeitura e enviado para votação na Câmara, o que Covas espera que aconteça ainda em 2019. Entre as principais propostas está a possibilidade de acabar com limite de altura de prédios em ruas pouco movimentadas. Atualmente, o limite é de 28 metros —o que corresponde a cerca de oito andares— em vias no miolo dos bairros e afastadas dos eixos de transporte público. A medida afetaria bairros de perfil mais horizontal, com predominância de casas, como a Vila Mariana e a Aclimação

Concluir concessões e privatizações: Nenhum projeto do pacote de concessões e privatizações anunciado por Doria foi concluído. Covas reagiu com tranquilidade a intervenções do governador Márcio França (PSB) e do Tribunal de Contas do Município em 2018 e projeta pelo menos as concessões do primeiro pacote de parques (que inclui o Ibirapuera), do estádio do Pacaembu, do mercado de Santo Amaro e do terminal Princesa Isabel no ano que vem, além das vendas do complexo do Anhembi e do autódromo de Interlagos

Criar marca própria da gestão: Tendo em vista a reeleição em 2020, o tucano busca identidade para que o eleitor se lembre dele. Para aliados, o prefeito deve se consolidar como aquele que deu estabilidade econômica à cidade com a reforma da previdência, mudanças na lei de zoneamento e concessões e vendas de equipamentos públicos

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