Morre ativista que ajudava mulheres que acusam João de Deus de abusos

Morte foi confirmada por seu filho e por presidente de ONG da qual Sabrina Bittencourt fazia parte

Júlia Zaremba Juliana Vines
São Paulo

A ativista social Sabrina de Campos Bittencourt, 38, que recebeu as primeiras denúncias de assédio sexual contra o médium João de Deus, 76, cometeu suicídio na noite de sábado (2).

A morte foi confirmada pelo grupo Vítimas Unidas, que apoia vítimas de violência sexual e do qual Sabrina fazia parte. Ela teria morrido por volta das 21h, em Barcelona, na Espanha, onde vivia. 

A notícia foi transmitida pelo ex-marido de Sabrina, Rafael Velasco, que vive na Europa.

“A luta de Sabrina jamais será esquecida e continuaremos, com a mesma garra, defendendo as minorias, principalmente as mulheres que são vítimas diárias do machismo”, afirma nota assinada pela presidente da Vítimas Unidas, Maria do Carmo Santos, e pela fundadora da organização, Vana Lopes. 

Não foram divulgadas informações sobre o velório. 

O consulado brasileiro em Barcelona afirmou no início da noite deste domingo (3) que não havia recebido informações de autoridades sobre a morte da ativista. 

A ativista social Sabrina Bittencourt
A ativista social Sabrina Bittencourt - Arquivo pessoal/Reprodução Facebook

No sábado, Sabrina publicou em uma rede social um texto dizendo que iria se unir à vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, assassinada em 14 de março de 2018. 

Segundo Maria do Carmo, Sabrina e sua família sofriam ameaças com frequência, um dos motivos que os mantinham longe do Brasil. Em entrevista à revista Marie Claire, em dezembro do ano passado, a ativista disse que se mudava de casa “a cada dez dias”.

Sabrina deixa três filhos. O mais velho escreveu em uma rede social na manhã deste domingo que “ela só se transformou em outra matéria”. “Nós seguiremos por ela. Foi isso que minha mãe me ensinou e ninguém vai poder tirar de mim. Não permitam que manchem o nome dela.” 

No mesmo relato à Marie Claire, a ativista afirmou que tratava um câncer no sistema linfático. Maria do Carmo afirma que Sabrina estava em tratamento contra a doença e que “não estava bem”.

Sabrina fazia parte do grupo que deu visibilidade, no ano passado, a uma série de denúncias de abuso sexual contra João de Deus por mulheres que buscavam atendimento espiritual em um centro de oração em Abadiânia, no interior de Goiás. 

Com as informações, o Ministério Público estadual instaurou uma força-tarefa que denunciou o médium por violação sexual mediante fraude, estupro de vulnerável e posse ilegal de arma de fogo. Ele teve a prisão preventiva decretada na Justiça e está detido desde 16 de dezembro. O médium nega todas as acusações.

No último sábado (2), um dos filhos de João de Deus, Sandro Teixeira de Oliveira, foi preso em Goiás sob suspeita de coação e corrupção de testemunhas.

Em janeiro, a ativista apresentou uma denúncia ao Ministério Público em São Paulo de que João de Deus estaria envolvido em um esquema de tráfico internacional de bebês e de escravização de mulheres. Foi ela ainda quem comunicou à imprensa, em dezembro, que uma das mulheres que acusam o médium de abuso teria cometido suicídio.

Uma das filhas do médium, Dalva Teixeira, que chegou a acusar o pai de tê-la molestado quando era menor de idade, também foi acompanhada por Sabrina. 

A ativista era porta-voz do Movimento Coame (Combate ao Abuso no Meio Espiritual), que reúne denúncias de violações sexuais cometidas por líderes religiosos. Além de João de Deus, ajudou vítimas do guru das celebridades Sri Prem Baba, 52. 

O engajamento na causa foi motivado por experiências traumáticas do passado: ela contou ter sido estuprada dos quatro anos até a adolescência por membros da comunidade mórmon na qual cresceu. 
Recentemente, havia participado da criação de uma rede internacional de apoio a exilados políticos —como artistas, professores e pesquisadores. Iniciativas nas áreas de educação e sustentabilidade também estão em seu currículo.

Ela detinha o título de doutora honoris causa da Universidad del Centro, no México por seu trabalho humanitário. 

Em dezembro do ano passado, Sabrina havia desmentido uma notícia falsa que circulou em redes sociais de que teria se suicidado. “Estou sendo alvo de gente louca, mas sigo na ativa”, disse na época.

Colaborou Patu Antunes, de Barcelona ​

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