Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Defensoria vê indícios de mutilações em operação da PM que deixou 13 mortos no Rio

Em conversa com o órgão, moradores relatam torturas e assassinato após rendição

Ana Luiza Albuquerque
Rio de Janeiro

Xingaram a gente de vagabunda e piranha. Disseram que mataram dez e que matariam mais vinte. Entraram na minha casa perguntando se eu era viciada. Não deixaram morador sair da comunidade para ir ao médico. Eles gritavam 'socorro', 'não me mata'.

Esses foram alguns dos relatos apresentados por moradores do morro do Fallet, no centro do Rio, palco de operação da Polícia Militar que deixou ao menos 13 suspeitos mortos na última sexta-feira (8).

Nesta terça (12), moradores e familiares dos assassinados participaram de uma roda de conversa com a Defensoria Pública do Estado, realizada em uma casa na comunidade. A Folha e outros veículos de imprensa acompanharam o encontro.

Eles voltaram a afirmar que as mortes aconteceram depois que os suspeitos já haviam se rendido. A Polícia Militar, no entanto, alega que houve confronto com os traficantes. 

Os moradores não negam que seus familiares tivessem envolvimento com o tráfico, mas defendem que eles deveriam ter sido presos, e não mortos. 

Pedro Strozenberg, ouvidor da Defensoria Pública, afirma que os indícios apontam para um cenário que poderia ter sido evitado. "É uma operação que tem muitas falhas. Um resultado duro para a comunidade e para a sociedade", diz. 

Strozenberg avalia que os depoimentos dos moradores são bastante contundentes quanto à ocorrência de mutilações nos corpos, que precisam ser apuradas. 

Nesta terça, os familiares deram mais detalhes sobre a forma que ocorreram os assassinatos, denunciando a prática de tortura. Um homem que não quis se identificar, tio de dois jovens mortos, um de 16 e outro de 18, afirmou que os policiais esfaquearam todos os suspeitos depois de atirar nas pernas, para impedir que fugissem.

Há relatos, ainda, de sinais de espancamento e traumatismo craniano. De acordo com os moradores, os agentes não deixaram que ninguém se aproximasse da casa onde ocorreram a maioria das mortes e tiraram os corpos às pressas.

Os policiais militares decidiram levar os suspeitos, já mortos, ao hospital municipal Souza Aguiar. Segundo os moradores, seria uma forma de inviabilizar a perícia dos corpos no local. A secretaria municipal de saúde confirmou que 13 chegaram ao hospital sem vida. 

A reportagem leu três certidões de óbito que apontavam como causa da morte lesão polivisceral, ferimento transfixante do crânio, tronco e membros e ação perfuro contundente. 

A Folha consultou um médico legista, que explicou que os termos apontam que a causa primária para a morte foi disparo por arma de fogo, atingindo a cabeça, o tronco e os membros.

No entanto, apenas a autópsia poderá esclarecer com detalhes o estado em que os corpos chegaram ao IML e se, de fato, houve tortura. A Defensoria informou que entrará com pedido para ter acesso a este documento. 

A reportagem teve acesso a um vídeo, gravado no IML, que mostra os corpos feridos e com buracos. Um deles aparece com o intestino completamente para fora do corpo. 

Em nota, a PM informou que os corpos foram encontrados em vias da comunidade. Há, no entanto, imagens da casa com a parede cravejada de balas, o chão ensanguentado e os homens, mortos, no chão.

O caso está sendo investigado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público.

A Divisão de Homicídios já ouviu os policiais envolvidos na ação, recolheu suas armas e as encaminhou à perícia. Agora, estão sendo escutados testemunhas e familiares.

No Ministério Público, a investigação está a cargo da 23ª Promotoria de Investigação Penal, auxiliada pelo Gaesp (Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública). Desde o dia da operação, o grupo vem recebendo informações, dados e imagens que podem auxiliar na apuração. 

O órgão informou que ouvirá nesta semana os comandantes dos batalhões de Choque, Bope (Batalhão de Operações Especiais) e Coe (Comando de Operações Especiais) que participaram da operação. 

Os corpos foram enterrados neste domingo (10), no cemitério São João Batista, em Botafogo. Moradores dizem que mais dois suspeitos foram encontrados mortos em uma mata no morro dos Prazeres, onde também ocorreu a ação. 

Vídeo que circula em grupos de WhatsApp de defensores dos direitos humanos mostra os moradores do morro carregando um corpo. Na gravação, uma voz feminina reclama: "Isso é um esculacho, moradores terem que descer com o menino morto (...) A Bope nem levar pode levar".

O governador do estado Wilson Witzel (PSC) vem prometendo, desde a campanha eleitoral, que autorizará o "abate" de criminosos portando armas pesadas. O ex-juiz federal já afirmou: “O correto é matar o bandido que está de fuzil. A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e... Fogo!”.

O deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL), que mantém bom trânsito com o governador, anunciou nesta terça que propôs homenagem ao Choque e ao Bope após a operação de sexta. 

"Eles mostraram aos marginais que a polícia do Rio de Janeiro tem que ser respeitada. Foram 13 CPFs cancelados nesta operação", escreveu nas redes sociais. 

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