Descrição de chapéu Alalaô

Olodum, 40, reafirma raiz do samba-reggae e mira futuro

Instituição do Carnaval baiano vai lançar documentário, livro e centro de memória digital

Integrante do Olodum, no Pelourinho, em Salvador Raul Spinassé/Folhapress

Salvador

“Acima dos orixás reina um deus supremo, Olodumaré, cuja etimologia é duvidosa. É um Deus distante, inacessível e indiferente às preces e ao destino dos homens. Está fora do alcance da compreensão humana”, definiu o etnólogo Pierre Verger.

Foi este orixá que serviu de inspiração para a criação do Olodum, cordão carnavalesco fundado em 1979 no então pobre e estigmatizado bairro Maciel-Pelourinho, e abriu os caminhos para uma trilha singular dentro e fora do Carnaval de Salvador.

“O Olodum é uma pequena experiência de pessoas que mudaram a história de um lugar”, resume o presidente do bloco, João Jorge Rodrigues, 63.

Aos 40 anos, que serão completados em abril, o Olodum reafirma sua essência fincada no orgulho negro, no combate ao racismo e na exaltação da cultura legada pela África. Hoje, mira o futuro apostando em abrir mais espaços, indo além de ser apenas um bloco de Carnaval.

Este caminho de quatro décadas foi construído passo a passo. No início, eram apenas sete homens – Zé Luiz, Gordo, Vô, Geraldão, Nego, Carlinhos e Bobô – e vontade de ter um lugar próprio no Carnaval, seguindo blocos afro antecessores como o Ilê Aiyê e o Badauê.

Com o tempo, diversificou suas atividades com escola, banda de música, escola de percussão, fábrica de instrumentos, companhia de dança e grupo de teatro. E, mais importante, tornou-se uma das entidades do movimento negro mais importantes do mundo e uma das marcas mais poderosas que o Brasil construiu internacionalmente.

Sua história prova isso: O Olodum realizou shows em 39 países, lançou 35 discos, dividiu gravações com artistas como Paul Simon, Jimmy Cliff e Michael Jackson e foi anfitrião de cinco personalidades que ganharam o Prêmio Nobel da Paz.

“O Olodum é, seguramente, a coisa mais importante que ocorreu na cultura da Bahia nos últimos 40 anos. É um marco cultural no sentido pleno da palavra”, afirma Zulu Araújo, ex-dirigente o Olodum e ex-presidente da Fundação Palmares.

Para ele, o Olodum conseguiu unir linguagem artística, inclusão socioeconômica e cidadania. E colocou o combate à discriminação racial como eixo fundamental de sua trajetória, mas de uma forma inclusiva: “O critério para fazer parte do Olodum não é ser preto, é ser antirracista”.

TAMBORES

Na música, o grupo ancorou-se em seus tambores, unindo a batida de Bob Marley aos sambas-de-roda do recôncavo. O resultado, sob a batuta do mestre de bateria Neguinho do Samba (1955-2009), foi samba-reggae, um ritmo que pulsa junto com o corpo e que, assim como Olumaré, não se compreende, se sente.

“Não é tanto a letra, não é tanto a filosofia discursiva. É como um soco no estômago. Bastam alguns minutos ouvindo a percussão e você começa pensar percussão. É uma espécie de transe, como no candomblé”, diz João Jorge.

No Carnaval, buscou aliar a festa com militância, fantasia com teoria. Desde os primeiros anos, seus compositores debruçavam-se sobre apostilas mimeografadas que contavam a história de países africanos ou rebeliões essencialmente negras como a Revolta dos Búzios.

Desta forma, o Olodum construiu um repertório de clássicos. Com “Faraó”, contou a saga dos faraós egípcios na perspectiva da Bahia negra [Em vez de cabelos trançados / Veremos turbantes / De Tutancâmon]. Com “Protesto Olodum”, inseriu temas como desigualdade e racismo  [Força e pudor / liberdade ao povo do Pelô].

No auge do sucesso, nos anos 1990, passou a ser rotulado em uma gaveta pasteurizada chamada axé music, na qual cabe do reggae aos ritmos latinos, do ijexá ao pagode baiano.

RAÍZES

Hoje, Olodum quer reafirmar sua raiz do samba-reggae e festejar sua história. Vai lançar documentário, um livro de fotografias e um centro de memória digital com toda sua história, música e iconografia nas últimas quatro décadas.

No Carnaval de 2019, em pleno momento de recrudescimento das disputas políticas no Brasil, o bloco vai para a avenida com um tema que remete à leveza das flores: “Perfume da Rosa”, que contará desde a história do sultão egípcio Saladino (1138/1193).

“O Olodum tem a sua face política, mas não podemos passar 100 anos só falando nisso. Por mais politizado que seja, o ambiente da música precisa ter uma aura de humanidade”, diz João Jorge.

Ele critica o ambiente político atual centrado em questões partidárias, que deixa à margem temas cruciais para o Olodum, como a rotina de assassinatos de jovens negros. “Não tem porque tomar lado. O PT da Bahia e Bolsonaro apoiam uma agenda de segurança cujo resultado será mais mortes de pessoas negras”.

O racismo, diz, também se reflete estrutura do Carnaval, que ainda nega apoio institucional e visibilidade dos blocos afros da Bahia. Cenário que considera inexplicável do ponto de vista mercadológico: os afros da Bahia são marcas poderosas, que carregam uma pauta positiva e possuem um extenso público de potenciais consumidores.

Mesmo com as dificuldades, João Jorge diz ver motivos para celebrar os 40 anos do bloco. Considera que Olodum, neste período, fez mais poderiam imaginar: demarcou seu lugar na luta política, no combate ao racismo, no Carnaval e no imaginário popular da Bahia.

Se em 1979, era impossível saber o que o Olodum se tornaria dentro de 40 anos, hoje é possível cravar um cenário para daqui a quatro décadas. Quando, uma voz qualquer mirar o público e puxar um singelo “eu falei Faraó-ó-ó”, a resposta da multidão virá em uníssono. Mesmo que não exista trio elétrico, mesmo que não exista Carnaval, mesmo que não exista Olodum.

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