Fóruns na dark web incitam violência e mortes e desafiam polícia

Massacre em Suzano foi comemorado em comunidades virtuais de criminosos

Voluntários dão abraço simbólico na escola Raul Brasil, em Suzano (Grande SP)
Voluntários dão abraço simbólico na escola Raul Brasil, em Suzano (Grande SP) - Ueslei Marcelino/Reuters
Artur Rodrigues
São Paulo

O massacre em uma escola pública em Suzano (Grande SP) na quarta-feira (13) insuflou fóruns que são ponto de encontro de criminosos na dark web (área não rastreável da internet) e desafiam a polícia a encontrar formas de coibir novas mortes. 

A comemoração do massacre nos fóruns da internet começou minutos depois de ser noticiado que Guilherme Taucci Monteiro, 17, e Luiz Henrique de Castro, 25, invadiram a escola Raul Brasil com um revólver e armas brancas, matando oito pessoas e ferindo 11. 

A Folha vem acompanhando a reação nestes fóruns desde quarta —eles ficam numa parte da internet em que é difícil rastrear os usuários, só acessível com um navegador que mascara seus dados, o Tor. Os chamados "chans" são como se fossem fóruns, onde os posts vão se somando em longas conversas que, em alguns casos, discorrem sobre assassinato, pedofilia, racismo e misoginia. 

"Homens de bem honrados", escreveu um usuário do fórum Dogolachan, abaixo da foto de Guilherme e Luiz Henrique mortos. "Temos os nossos primeiros atiradores sanctos formados no Dogola", completou outro. 

LAN House frequentada por Guilherme Taucci Monteiro e Luiz Henrique de Castro, atiradores de atentado em escola de Suzano (SP).
LAN House frequentada por Guilherme Taucci Monteiro e Luiz Henrique de Castro, atiradores de atentado em escola de Suzano (SP). - Fernanda Mena/Folhapress

Ainda é investigado pelo Ministério Público se os autores do massacre de fato frequentaram esse fórum específico, mas eles já foram incluídos na galeria de ídolos do Dogolachan, ao lado de outros antigos usuários assassinos ou criminosos.

Em uma espiral de ódio, o crime alimentou anúncios de novos crimes, batizados de actvm sanctvm (ato santo). 

Especialistas alertam para o despreparo de boa parte da polícia para coibir este tipo de crime, com exceção de núcleos isolados especializados.

"Não é só comprar viatura e arma. A polícia precisa dar formação. Quem é que consegue entrar na deep web e fazer uma investigação?", questiona a criminóloga e escritora Ilana Casoy. "Um policial que faz esse trabalho intelectual é tão importante quanto um atirador."

Ela afirma que a presença de um espaço onde fantasias criminosas são aplaudidas pode ser um dos fatores (sempre há mais de um) a engatilhar um atentado do tipo. "É um crime isso que fazem. O assassinato em massa é muito grave, mas é grave também incitar o suicídio, o estupro, como fazem".  

No ano passado, um dos frequentadores do fórum, André Garcia, 29, se despediu no site: "Vou quitar deste mundo". Recebeu a resposta: "Se for se matar, leve a escória junto". 

Em junho do ano passado, ele saiu de casa armado e atirou na nuca de uma mulher que jamais havia visto na vida, em Penápolis (a 425 km de São Paulo). Encurralado pela polícia, deu um tiro no próprio peito. A vítima morreu um mês depois.

Kyo, como Garcia era conhecido no fórum, virou um mito na dark web brasileira.

O ódio às mulheres é uma das características destes grupos, conhecidos como incels —homens que se dizem "celibatários involuntários". 

"Pautar a imprensa e a sociedade por um ato visto como glorioso por esses grupos é o objetivo deles, por isso, é preciso ser muito cauteloso nas abordagens", afirma Rodrigo Nejm, diretor da ONG Safernet, que recebeu mais de 130 mil denúncias de crimes na internet só em 2018. "Dependendo de como se divulga, é uma forma de dar escala a grupos de 10, 20, 100 pessoas desequilibradas". 

O Ministério Público paulista chegou a afirmar investigar a ligação dos autores do crime com organizações radicais que promovem crimes de ódio ao redor do mundo. Já os poucos policiais e promotores especializados são mais cautelosos. A reportagem procurou a delegacia especializada em crimes de ódio em São Paulo (Decradi) e uma procuradora do Ministério Público Federal que investigou o fundador do Dogolachan, e obteve respostas negativas sobre pedidos de entrevistas. 

A Secretaria da Segurança da gestão de João Doria (PSDB) emitiu nota afirmando apenas que os policiais têm conhecimento avançado e que não darão entrevistas para não atrapalhar as investigações. 

As dificuldades técnicas nessas apurações já são grandes mesmo em períodos de menor comoção.

Professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e especialista em tecnologia, Arthur Igreja diz que até mesmo a NSA (agência de segurança interna norte-americana) pena para investigar na dark web. "É como investigar uma quadrilha no passado, quando não havia rastreamento de IP, interceptação de ligações. Como era feito na época? Infiltrando alguém para poder entender. É isso que os investigadores estão fazendo." 

Ele diz que, apesar dos problemas de estrutura, há alguns "centros de excelência" no Brasil. "A Operação Lava Jato só aconteceu por causa de uma capacidade de apuração digital apurada."

Procuradores de Curitiba, berço da Lava Jato, colocaram na cadeia o criador do Dogolachan, Marcelo Valle Silveira Mello, o Psy. Em dezembro, ele foi condenado a 41 anos de prisão por associação criminosa, divulgação de imagens de pedofilia, racismo, coação, incitação a crimes e terrorismo. Hoje, é outro mitificado entre os que se definem como "homens sanctos".

Mello tem um longo histórico de crimes —chegou a ter contato pela internet com o autor do massacre do Realengo, Wellington Menezes de Oliveira, 23, que matou 12 alunos de uma escola na zona oeste do Rio, em 2011. Um ano depois, ele e outro futuro fundador do Dogolachan, Emerson Eduardo Rodrigues Setin, foram presos por suspeita de apologia da violência e discriminação contra mulheres, negros, nordestinos, homossexuais e judeus na internet. 

O Dogolachan foi criado um ano depois da prisão. Ali, os integrantes passaram a se referir uns aos outros como homens sanctos e fazer ameaças a diversas figuras públicas. Um deles foi o ex-deputado federal Jean Wyllis (PSOL), que renunciou ao mandato e se mudou para a Espanha. Entre os principais alvos de ameaças do grupo está a professora da Universidade Federal do Ceará Lola Aronovich, militante feminista e autora de uma série de denúncias contra Marcelo Valle que ajudaram a levá-lo para a prisão.

GLOSSÁRIO

Deep web

É toda a parte da World Wide Web que não é indexada pelos motores de busca

Dark web

Também chamada de Onion Web, é uma rede de sites e conteúdos acessíveis somente via software específico, como o Tor

Tor

The Onion Routing. Se refere tanto a um software que acessa a dark web quanto ao método: uma rede de computadores e roteadores ao redor do mundo que é usada como caminho para acessar a rede, tornando impossível desvendar a identidade do usuário

Chans

Fóruns de discussão que permitem postagens anônimas e têm pouca ou nenhuma moderação, o que os tornou ambientes seguros para racismo, vazamentos de imagens íntimas e troca de informações criminosas

Incel

Celibatários involuntários', homens com vida sexual pouco ativa ou inexistente, que culpam as mulheres pelo fato. Trocam informações e pregações misóginas por fóruns e redes sociais, como o Reddit

Chad

Homens sexualmente atraentes, catalogados numa escala de 1 a 10 

Stacy

Mulheres sexualmente ativas, que se relacionam com Chads por interesses econômicos ou sociais, hábito chamado de 'hipergamia' pelos incels

Troll

Internautas que usam fóruns e caixas de comentários para provocar usuários e incitar discussões


Fontes: Nota Técnica da Sociedade Civil para a CPI de Crimes Cibernéticos, Incels Wiki, NoFap.com, Pirate Dot London

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