Descrição de chapéu Folha Mulher

Sobreviventes relatam histórico de abusos em relacionamento

No total, foram registradas 2.159 tentativas de assassinatos de mulheres no ano passado

Fernanda Canofre Paula Sperb
Belo Horizonte e Porto Alegre

Carol levou um tiro do ex-namorado na coluna acabou em uma cadeira de rodas. Úrsula apanhou anos do marido que a obrigava a limpar as armas dele. Tânia mudou de estado e de nome para fugir do ex que continua ameaçando sua vida.

As três mulheres são sobreviventes de tentativas de feminicídio, um crime subnotificado —nem todas as agressões são denunciadas à polícia e quase metade dos estados não contabiliza as tentativas em suas estatísticas.

Com o revólver do pai, o ex-namorado atirou em Carol Santos, na época com 17 anos, e no novo companheiro dela. Carol ficou paraplégica. O namorado morreu. O ex tentou se suicidar e morreu no hospital, após ficar internado no mesmo quarto que ela.

O crime, que ocorreu em Viamão, na região metropolitana de Porto Alegre, em 2000, transformou Carol em uma voz feminista, integrante do Coletivo Feminino Plural e fundadora do grupo Inclusivass, que luta pelos direitos das mulheres com deficiência.

Carol Santos, paraplégica após o ex-namorado tentar matá-la a tiros, em sua casa, em Porto Alegre
Carol Santos, paraplégica após o ex-namorado tentar matá-la a tiros, em sua casa, em Porto Alegre - Leo Caobelli/Folhapress

"Infelizmente, meu caso é mais um. Não é história de superação. Superar o quê? A falta de política pública? Não sou heroína, sou vítima de violência como outras tantas."

O agressor de Carol controlava suas roupas, a vigiava e lhe enviou cem cartas em cinco meses. No início, ela achou que fosse uma demonstração de proteção, mas com o tempo se sentiu sufocada.

A história é parecida com a de Úrsula Ricardo Francisco, 48. Ela conheceu o marido em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, aos 18 anos. Policial militar, ele sempre foi reservado e ciumento. "Um dia ele me trancou em casa porque não queria que eu ficasse no portão. Ali eu falei: Opa, tem alguma coisa errada", conta.

Grávida de sete meses, ele colocou uma arma na boca dela e disse que ia matá-la. Com o nascimento do bebê, a violência virou rotina. Em uma quinta-feira em 2008, ele voltou para casa agitado e começou as agressões.

Quando ele foi ao banheiro buscar a arma, ela correu para pegar outra que estava no quarto e atirou antes. Em 2014, Úrsula foi absolvida pela Justiça —não chegou a ser presa. Sua história apareceu no documentário "Legítima Defesa" (2017), das diretoras Sara Stopazzolli e Susanna Lira.

"A mulher comete esse homicídio quando chega ao extremo, como eu. Desde o momento em que a mulher chega na delegacia arrebentada, tem que prender ele [o agressor], porque no final das contas, ela vai morrer", afirma ela à Folha.

Essa foi a conclusão a que Tânia, 36, chegou depois de oito anos e várias tentativas de sair de um relacionamento. Ela ficou com nódulos na garganta após ser estrangulada.

Hoje, vive em outro estado, com um nome diferente para não ser encontrada.

"Algumas mulheres acham que eles vão mudar, outras têm muitos filhos e não querem largar a casa, porque é um absurdo largar o que tu conquistou por causa de um homem. Mas não tem fim. Se você não largar tudo, pegar os filhos e sair, você morre", diz.

Em um levantamento feito pela reportagem com as secretarias de Segurança das 27 unidades federativas, 12 não responderam sobre estatísticas das tentativas de feminicídio para 2018.

No total, foram registradas 2.159 tentativas de assassinatos de mulheres no ano passado, uma média de seis por dia. Pela falta de registro específico sobre esse tipo de crime, o número real de casos deve ser bem maior.

Segundo o Ministério dos Direitos Humanos, entre janeiro e julho de 2018 o Ligue 180, canal telefônico de atendimento a mulheres em situação de violência, registrou 665 tentativas de assassinatos.

Para a diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, parte importante do debate seria a padronização das estatísticas. Sem um modelo federal, o tema acaba sem visibilidade.

"Temos que parar de olhar feminicídio como crime passional, porque essa violência estruturou a relação com o agressor", avalia ela.

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