Apontada por ministra como salvação, manga está longe de matar fome no país

Segundo especialistas, seriam necessárias 47 unidades para suprir necessidades de proteína diária

Ricardo Ampudia
São Paulo

Na última terça (9), a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina (DEM), afirmou que a fome não é um problema no país dada a grande quantidade de frutas nas ruas. “Nós não passamos muita fome porque temos manga nas nossas cidades”.

A frase caiu mal entre especialistas em alimentação que dizem que, além de se equivocar sobre as causas da fome no país, a ministra propõe uma dieta impossível.

Uma manga palmer de 300 g tem, em média, 216 calorias. Para atingir a quantidade diária recomendada pela Organização Mundial de Saúde, 2000 kcal, seriam necessárias nove mangas. Mas as calorias não são a única necessidade do ser humano. As proteínas exercem papel importante na construção e reparação dos músculos. 

Uma das espécies de manga - Fábio Braga/Folhapress

Nesse caso, para uma pessoa de 70 kg atingir a quantidade de proteínas recomendada —0,8g por quilo corporal— seriam necessárias 47 mangas diárias, 15 por refeição. Se optar pelo abacate, uma das frutas tropicais mais rica em proteínas, a dieta seria mais leve: 15 abacates e meio por dia.“Não é questão de fazer contas, mesmo com a quantidade adequada de calorias ou proteínas, seria uma dieta pobre em macro e micronutrientes.

É na diversidade de alimentos que se supre essa necessidade”, diz a professora Patricia Jaime, do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Para Neide Rigo, nutricionista e especialista em Plantas Alimentares Não-Convencionais (PANCs), ainda é preciso levar em conta a sazonalidade das frutas na cidade. “Me parece que a ministra da Agricultura não sabe, mas não temos manga o ano todo”. Ela ainda pondera nem toda fruta disponível pode ser consumida, a depender do nível de poluição e contaminação de onde a árvore está. “É um petisco, não é a base de uma alimentação”.

Outro ponto levantado é que a fome nas grandes cidades não tem relação apenas com a oferta de alimentos, mas o acesso a eles. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) estima que um terço da produção de alimentos no mundo vai parar no lixo.

A ministra da Agricultura Tereza Cristina - Pedro Ladeira/Folhapress

“Temos uma situação no país, e no mundo, em que um a parcela considerável da população sofre com a insegurança alimentar, ao mesmo tempo em que se produz mais do que o suficiente para alimentar a todos. Desperdiçamos muito”, afirma a coordenadora do Mesa Brasil em São Paulo, Luciana Corvello.

O programa, financiado pelo Sesc faz a logística entre empresas de alimentos que querem doar seus excedentes e entidades de assistência social. São arrecadados cerca de 450 toneladas de alimento por mês, das quais 80% são frutas, legumes e verduras.

A professora Patricia Jaime ainda explica que o maior equívoco da fala da ministra é tentar explicar a causa da fome somente como dificuldade de acesso ao alimento. Segundo ela, um conjunto de políticas públicas que trouxe a melhora no poder aquisitivo, por meio da geração de emprego e transferência de renda, é o que explica a saída do Brasil do Mapa da Fome —conjunto de países que tem mais de 5% da população ingerindo menos calorias do que o recomendado— em 2014.

“Temos vivenciado nos últimos anos uma inflexão destas políticas públicas, como o congelamento de verbas para saúde e agricultura familiar, que impactarão diretamente na mortalidade e desnutrição infantil. Não se pode pensar no fim da fome como uma solução única de acesso ao alimento”.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.