Moradores se mobilizam contra demolição de vila dos anos 1930

Conselho de patrimônio analisará pedido de tombamento que ficou 13 anos parado

Parte do conjunto de casas dos anos 1930 que moradores procuram preservar na Vila Mariana

Parte do conjunto de casas dos anos 1930 que moradores procuram preservar na Vila Mariana Bruno Santos/Folhapress

Francesca Angiolillo
São Paulo

Eles foram para o meio da rua apreciar a demolição. Ou isso pensavam.

Quando, por volta das 7h desta quinta (11), moradores da Vila Mariana (zona sul de São Paulo) começaram a se reunir na altura do número 289 da av. Conselheiro Rodrigues Alves, esperavam ver ruir um conjunto de casinhas construídas na década de 1930.

Até a conclusão desta reportagem, porém, a vila continua de pé. Derrubado foi somente o muro que a separa da r. Fabrício Vampré; atendendo a um chamado da escola infantil Miguilim, vizinha da propriedade, a Defesa Civil identificou risco de queda.

Ao ser derrubado, o muro segurou a destruição das nove casas, duas voltadas para a avenida, e outras sete, no interior arborizado da quadra.

Isso porque, segundo Fernando César Anastácio de Lima, diretor da divisão técnica da Defesa Civil, nada mais poderia ser demolido enquanto o risco não fosse eliminado —o que exigiria, entre outras medidas, erguer um novo muro para conter o terreno.

A história poderia nunca ter chegado a esse ponto se um pedido de abertura de processo de tombamento, encaminhado em 2006 pelos moradores da vila, tivesse sido considerado pelo Conpresp, o conselho municipal de patrimônio. Por motivos não esclarecidos até a publicação deste texto, isso nunca aconteceu.

Com as escavadeiras contidas pela intimação da Defesa Civil, os moradores correm para, 13 anos depois, ter a causa apreciada pelo conselho.

À Folha o Conpresp disse que “estudo inicial sobre o caso e as certidões imobiliárias dos imóveis já estão anexados no processo”. “O Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) está finalizando o parecer técnico para encaminhamento ao Conpresp nos próximos dias.”

Segundo os trâmites dos órgãos do patrimônio, os pareceres do DPH são levados ao conselho, que decide, em uma de suas reuniões, se abre o processo de tombamento.

Se a decisão for pela abertura do processo, a resolução é publicada no Diário Oficial da cidade, os proprietários são notificados, e o DPH segue com estudos de tombamento.

Um bem cuja preservação esteja sob avaliação não pode ser modificado sem a anuência do conselho até que se decida se deve ou não ser tombado. A próxima reunião do conselho ocorre na segunda (15).

Enquanto a vilinha se mantinha meio congelada no tempo, com quase 50 árvores, entre as quais uma amoreira cujos frutos renderam muita geleia aos moradores, ao redor a região se verticalizava.

Representados pela arquiteta Cíntia Padovan, que viveu no local por 29 anos, os moradores pediam, já em 2006, a preservação do conjunto, cujas características principais sobreviveram graças ao fato de nunca terem sido vendidas.

Pertenceram sempre à mesma família que as construiu e as alugava —até 2017.

Em junho daquele ano, os inquilinos das casas —seis delas sobradinhos iguais, de três quartos— receberam carta dizendo que deveriam deixar as residências em 90 dias.

Um casarão que compunha o conjunto já foi ao chão anos atrás; hoje há no local um estacionamento. Na face da vila que dá para a avenida, as casas de uso comercial foram descaracterizadas.

O terreno hoje pertence à ordem das Irmãs Concepcionistas, com sede no bairro.

Seu advogado, Fernando Martins, estava presente entre os moradores. Disse à Folha que não daria informação sobre a finalidade que as religiosas darão ao terreno e que poderia enviar uma nota.

A nota veio ao fim do dia e dizia que “os imóveis em questão foram adquiridos, estando livres e desimpedidos, nos termos constantes nas escrituras e registros, os quais são públicos e de acesso à sociedade”.

O documento dizia ainda que a derrubada do muro foi em resposta à Defesa Civil e que, para as demais demolições, “foram adotados os procedimentos legais e obtidas as devidas autorizações para a execução dos serviços, agindo, portanto, dentro da legalidade e do exercício do direito sobre a propriedade”.

As devotas da Imaculada Conceição vivem em clausura. O movimento Chácara das Jaboticabeiras, associação de moradores que visa preservar não só a vila mas seu entorno, entregou uma carta na sede da ordem e, sem ter resposta, postou uma versão ilustrada do texto com fotos da vila no Instagram. 

A atriz Ana Petta foi a última a sair das casinhas. Conseguiu prolongar sua estada até dezembro de 2017, argumentando que seus filhos frequentavam escolas na região e precisava esperar até o fim do ano letivo.

​Na última noite, Petta e os filhos, Maria e Pedro, hoje com 12 e 6 anos, acamparam no espaço arborizado entre as casas. Eles haviam nascido na casa cinco, para onde a mãe se mudara em 2003.

Desgostosa, Petta mudou-se para a Lapa, na zona oeste. Mas estava no local nesta quinta, com os filhos, para dizer adeus à casinha de porta azul onde cresceram.

Às 8h, deu-se a primeira movimentação da escavadeira que chegara ao local durante a noite. A intenção, antes da chegada da Defesa Civil, era demolir não só o muro mas parte das casas —suas portas já haviam sido levadas na véspera.

Alguns gritaram ao ouvir um ruído de serra (as irmãs têm, como dizia sua nota, alvarás para a demolição; mas não para cortar as árvores, as quais, por ora, seguem lá).

A polícia foi chamada, e o trabalho ficou parado até a chegada da Defesa Civil, por volta das 9h15. A demolição do muro, a marretadas, começou às 9h30.

Nem todos os que se reuniam ali eram ex-moradores das casas, que hoje ostentam recados de amor pintados pelos que tiveram de abandoná-las.

A maior parte é da região, muitos pais de alunos da Miguilim. Curiosos da vizinhança paravam e se indignavam ao ver a faixa pedindo ajuda, colocada no local pelo grupo.

Muitos passantes perguntavam se havia um abaixo-assinado —ainda não há, mas os organizadores do protesto prometiam um para breve.

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