Em obra sobre Tremembé, detento relata rotina com famosos

Ex-prefeito de Ferraz de Vasconcelos, Acir Filló entrevistou autores de crimes notórios

Rogério Pagnan
São Paulo

A pelada estava sendo organizada quando um dos presos sugeriu a escalação: “Estuprador de um lado, ladrão de outro. Depois o time dos políticos vai enfrentar o dos assassinos, e o árbitro vai ser o [Alexandre] Nardoni”.

Depois de alguns segundos de silêncio, os detentos romperam em risadas. O autor da sugestão era Ramiro, interno com problemas psiquiátricos.

Acir Filló, ex-prefeito de Ferraz de Vasconcelos (SP) e autor do livro sobre cotidiano de Tremembé
Acir Filló, ex-prefeito de Ferraz de Vasconcelos (SP) e autor do livro sobre cotidiano de Tremembé - Zanone Fraissat/Folhapress

A cena está no livro “Diário de Tremembé – O presídio dos Famosos”, do detento-repórter  Acir Filló, 47, ex-prefeito de Ferraz de Vasconcelos (SP) pelo PSDB, preso provisoriamente sob suspeita de corrupção —ele nega o crime.

Filló, que é jornalista, passou a registrar o dia a dia do presídio no interior de São Paulo desde que chegou ali, em abril de 2017, e a entrevistar celebridades do crime como as que disputavam a partida organizada por Ramiro.

Nas equipes estavam Guilherme Longo (suspeito de matar o enteado Joaquim, em 2013), Lindemberg Alves (condenado pelo assassinato da namorada Eloá, em 2008), Cristian Cravinhos (condenado pela morte dos pais de Suzane Richthofen, em 2002).

Na plateia, ficaram Mizael Bispo de Souza (condenado pela morte de Mércia Nakashima, em 2010), e o próprio Alexandre Nardoni, condenado pelo assassinato da filha, em 2008.

“Nardoni é o mais ‘notável’ entre os midiáticos que estiveram ou ainda cumprem pena no presídio mais famoso do país. Ele é o mais procurado e, ao mesmo tempo, o menos visto no IRT [presídio]. Discreto e introspectivo, foi o personagem mais difícil de entrevistar”, diz o livro.

Ao detento-repórter, Nardoni repetiu a versão que mantém desde março de 2008, segundo a obra: “Não matei minha filha, mas ninguém se interessa em descobrir a verdade”.

Condenado a 181 anos de prisão por 48 estupros de 37 mulheres, Roger Abdelmassih, outrora um dos mais famosos especialistas em reprodução assistida do país, também nega seus crimes. “Só comi as que quiseram me dar e pronto, disse-me Roger Abdelmassih, bastante agitado na ocasião em que o entrevistei”, narra Acir no livro. 

A história do médico ganhou o subtítulo “A fraude de Abdelmassih”, em alusão ao que diz Carlos Sussumu Hasegawa, 50, outro interno do local.

Segundo o gastroenterologista formado pela USP e preso por extorsão, ele teria ajudado Abdelmassih a enganar os médicos para conseguir prisão domiciliar. Para tanto, Hasegawa diz ter administrado no colega remédios que aumentaram a pressão arterial.

Já Cravinhos virou personagem por um “golpe de sorte”, segundo o autor, após infringir regras do regime semiaberto, tentar subornar policiais e voltar para Tremembé.

“Ela arquitetou a morte dos pais como um maestro, cuidou de cada detalhe, deu as ordens em cada passo do crime. A Suzane tem o dom da manipulação”, diz o condenado na entrevista ao autor.

Com o auxílio da mulher, Viviane, e da cunhada Lidiane, Acir narra ainda a própria experiência em Tremembé, longe da família e diante de uma nova língua para aprender.

Ri ao relatar a ocasião em que os presos o mandaram “fazer a luva”. O ex-prefeito vasculhava a cela até que um colega o interpelou: “E aí, Acir? Tá procurando o quê?”

“As luvas, não estou encontrando.” Os colegas riram: “Olha só, prefeito: fazer as luvas é lavar as mãos!”

E há momentos tristes, como a tentativa de adoçar a verdade para o filho Victor, 7, a quem Acir disse que aquilo era um hospital do Exército e que machucara a perna —um colega lhe emprestara muletas. 
Sem data em vista para o autor deixar o presídio, não haverá evento de lançamento.


“Diário de Tremembé — o presídio dos famosos” 
Autor: Acir Filló
Editora: Nova Brasil Esperança
Preço: 59,90 (360 págs.)

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