Promotoria de SP abre procedimento para investigar patrimônio de cabos

Folha revelou que PMs aposentados acumulam milhões apesar de salários baixos

Rogério Pagnan
São Paulo

O Ministério Púbico de São Paulo instaurou nesta quarta-feira (19) um procedimento investigatório para apurar eventual enriquecimento ilícito de cinco integrantes da cúpula da Associação de Cabos e Soldados paulista.

O procedimento tem como base reportagem publicada pela Folha nesta terça (18) que revelou a situação patrimonial desses dirigentes. O grupo acumula bens estimados em R$ 11 milhões, entre imóveis e veículos, mesmo recebendo aposentadorias líquidas que variam entre R$ 2.436,10 e R$ 5.678,62.

Entre os bens dos policiais estão sobrado na praia, apartamento de alto padrão, chácaras e veículos de luxo, inacessíveis à maioria dos cabos e soldados paulistas, que enfrentam dificuldades financeiras após anos sem reposição salarial.

O procedimento foi distribuído no final da tarde desta quarta à promotora Karyna Mori. Ela é uma das signatárias da ação de improbidade administrativa proposta em 2018 contra o ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD) por suposto recebimento R$ 21 milhões da Odebrecht via caixa 2.

A promotora analisará as circunstâncias do caso para decidir se abre um inquérito civil ou se arquiva o procedimento.

Caso o inquérito seja aberto, os policiais militares serão chamados a explicar como conseguiram acumular o patrimônio e apresentar a origem dos recursos.

Faz parte do grupo o presidente da associação desde 1995, Wilson de Oliveira Morais, 65, que tem patrimônio estimado em R$ 2 milhões e aposentadoria líquida de R$ 2.493,60. O cabo diz que ele e os colegas que os bens são resultado de anos de trabalho na PM e também em "bicos" fora da corporação, como segurança ou professor.

Além do cabo Wilson, a lista tem o diretor financeiro da entidade, Edmilson Aparecido da Silva; o presidente do conselho fiscal, Gilson Braga; o diretor jurídico Marcelo Aparecido Camargo; e o vice-presidente da entidade, Antônio Carlos do Amaral Duca, com patrimônios deles estimados entre R$ 1,5 milhão e R$ 2,9 milhões.

O levantamento dos bens foi realizado pela Folha nos últimos seis meses. Foram consultados cartórios de imóveis em 11 cidades de São Paulo e da Bahia. A reportagem também foi aos endereços que constam nos documentos.

A Associação de Cabos e Soldados é uma entidade sem fins lucrativos e por isso seus dirigentes não podem receber salários. Criada nos anos 1950 com objetivo de defender os interesses da categoria, tem atualmente cerca de 60 mil sócios que pagam mensalidade de R$ 66,92 —ou 4% do salário-base de um soldado.

O orçamento anual da associação é de cerca de R$ 50 milhões e o patrimônio da entidade supera R$ 150 milhões.

A entidade ajuda PMs vulneráveis; um dos trabalhos da associação é entregar cestas básicas a policiais e ajudar famílias sob risco de despejo por atraso no pagamento de aluguel.

Cabo Wilson diz que seu patrimônio é fruto do trabalho como policial e também dos quatro anos como deputado estadual. Ele nega irregularidades em suas gestões na associação.

O presidente da entidade diz ainda que os colegas de diretoria também trabalham e que ter carro novo não é sinal de riqueza. "Hoje todos os policiais fazem bico. Mesmo o salário estando baixo, você chega no pátio de um batalhão e vê os policiais com carro novo."

Sobre os outros integrantes da diretoria, cabo Wilson disse que todos têm outros recursos além do salário da polícia, provenientes de bicos.

Ele disse que Da Silva sempre fez bico de segurança, assim como Marcelo Aparecido Camargo. "Fazia um bico em uma farmácia. A esposa dele trabalha também." Segundo ele, Gilson Braga também fazia bicos. "Qual polícia não faz? Se quer ter padrão de vida melhor, tem que trabalhar."

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