Gestão Covas consulta só vereadores aliados sobre quais ciclovias eliminar em SP

Opositores e especialista veem a sondagem como antidemocrática e prejudicial ao debate público

Fabrício Lobel Guilherme Seto
São Paulo

A gestão Bruno Covas (PSDB) perguntou a alguns vereadores de sua base aliada quais trechos de ciclovia deveriam ser revistos ou eliminados da cidade de São Paulo. A consulta acontece às vésperas da apresentação do novo plano cicloviário da cidade de São Paulo. 

No último dia 16, o secretário da Casa Civil da administração municipal, João Jorge (PSDB), enviou uma mensagem via WhatsApp a um grupo seleto de vereadores da base aliada pedindo que eles enviassem no prazo de três dias sugestões de trechos de ciclovias a serem retirados da cidade (a prefeitura nega ter selecionado os vereadores). João Jorge diz que técnicos da prefeitura estudariam a melhor solução. No mesmo texto, João diz que sugestões de instalação de ciclovias também seriam bem-vindas. 

"Por determinação do prefeito Bruno Covas a prefeitura está elaborando um novo plano cicloviário. Se alguém tiver alguma ciclovia ou ciclofaixa que deseja revisão ou eliminação, por favor me passe. Os técnicos estudarão a melhor solução. Sugestões de novos trechos para instalação de ciclovias/ciclofaixas também são bem-vindas. Mande até a próxima segunda-feira, 12h, pra mim ou para meu adjunto Dedê", diz a mensagem.

Desde julho, a Prefeitura de São Paulo está em fase final do novo Plano Cicloviário da cidade que prevê a construção de 173 kms de novos trechos e requalificar outros 310 kms até 2020. 

Ciclistas reclamam que a convocação de Covas aos vereadores aliados atropela o processo de audiências públicas que serviu de base para o novo plano cicloviário. Desde maio foram feitas 10 audiências públicas para discussão do tema. Segundo cicloativistas, em nenhuma delas foi discutida a remoção de trechos de ciclovias. Recentemente, Covas disse que a cidade poderia sim ter cortes de trajetos de ciclovias.

Procurados pela Folha, os vereadores de oposição, de partidos como PT e PSOL, disseram não ter sido consultados. Outros vereadores que se consideram independentes, que apoiam a gestão municipal em algumas causas e se opõem em outras, também se queixaram de não ter sido ouvidos.

"É um absurdo. Não há transparência. Em vez de ouvir todos os vereadores, já que somos todos representantes do povo, a prefeitura preferiu juntar um petit comitê para tomar decisões sobre a cidade como um todo. Isso não é fazer política pública", diz o vereador Celso Giannazi, do PSOL.

O vereador Police Neto, do PSD, afirma que se sente feliz por não fazer parte do grupo que recebeu a mensagem enviada pela gestão Covas.

"A mensagem não foi enviada para ampliar o debate, chamando os vereadores para participar de audiências públicas realizadas. O João Jorge chamou esse grupo seleto para excluir ciclofaixas apenas. Fico feliz por não estar na lista porque eu seria um crítico de tudo isso. Tanto do procedimento, que está errado e é antidemocrático, como da retirada de estruturas que protegem a vida", afirma Police Neto, que algumas vezes apoia a prefeitura em suas medidas e, em outras, opõe-se a ela.

"Quem sugere a retirada de uma estrutura cicloviária é porque tem desprezo pela vida daqueles que circulam pela cidade de bicicleta e que ajudam todos a viver melhor, reduzindo gases do efeito estufa e os congestionamentos", completa Police.

Marco Antonio Teixeira, professor de administração pública na FGV, afirma que a deliberação por meio de WhatsApp com um grupo reduzido de vereadores "representa uma visão minimalista e míope da democracia."

"Negociar com a Câmara Municipal e tomar decisões em negociação com os vereadores é algo normal numa democracia e precisa ser feita de forma aberta e republicana. A mensagem do secretário não deixa essa impressão. Parece, pelo tom da intimidade que a redação indica, que o texto foi enviado a um grupo seleto, o que reduz bastante a amplitude do debate para um tema essencial para a política de mobilidade numa cidade conturbada como São Paulo", diz Teixeira.

"O encaminhamento é ruim, o tema das ciclovias é de interesse geral e possui um movimento extremamente organizado e qualificado que pode colaborar com o planejamento da política pública. Reduzir o debate a um grupo restrito de vereadores que podem ajudar na decisão da exclusão de ciclovias é antidemocrático e pouco republicano", completa.

Nesta quinta-feira (29), o jornal Agora, do Grupo Folha, publicou reportagem que mostra que a prefeitura tem removido ciclovias sem aviso prévio.

Questionada pela Folha, a gestão Covas disse que encaminhou a mensagem a todos os vereadores. Disse ainda que solicitou a colaboração dos vereadores, representantes legítimos da população, para formular o novo plano cicloviário da cidade.

Em relação à remoção de trechos, a gestão Covas diz que mesmo que a cidade perca alguns trajetos de ciclovia, o saldo final será positivo com novos 170 km de vias exclusivas às bicicletas. Segundo a prefeitura, o plano deve ser apresentado em setembro. 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.