Maconha medicinal atrai fiéis de todos os credos para igreja na zona leste de SP

Curso de padre Ticão reúne quase 200 pessoas semanalmente em salão paroquial

Palestra de doutorando da Unifesp no curso de Cannabis medicinal de padre Ticão  Marlene Bergamo/Folhapress

Emilio Sant'Anna
São Paulo

“Na minha casa pode faltar arroz e feijão, mas não vai faltar Cannabis.” Andreia Rodrigues, 43, está pouco ligando se alguém torcer o nariz —mesmo que seja o ministro ou o presidente. Sentada em frente a um quadro de São Bento que toma a parede de cima a baixo, ela tem mais com o que se preocupar.

Mãe das gêmeas Isadora e Isabela, 6, ela —que até este ano nunca havia tido qualquer contato com a maconha— espera pelo dia em que possa ter sua plantação. Seria um passo gigantesco para melhorar a vida das meninas, diz.
 
Isabela tem paralisia cerebral. Isadora, autismo severo e epilepsia. Há cinco meses, não sem espanto, a dona de casa evangélica ouviu falar sobre um óleo extraído da planta.
 
Também há cinco meses, pela primeira vez desde que nasceram, as irmãs tiveram uma noite inteira de sono após tomarem as primeiras gotas do remédio, um extrato de canabidiol —substância presente na maconha com efeitos terapêuticos e não psicoativa, ou seja, não dá “barato”.
 
Mais importante do que isso: ela saca o celular da bolsa e abre um vídeo em que Isabela, cadeirante, começa a ensaiar alguns passos pela casa. Isadora tem cada vez menos convulsões. “Até abril, minha filha não conseguia tomar água, não deglutia, sabe o que é isso? Chamo de santa Cannabis”, diz. 

Andreia é uma entre as quase 200 pessoas no salão da igreja São Francisco de Assis, em Ermelino Matarazzo, no extremo leste paulistano. Elas chegaram até ali, bem em frente a uma base da Polícia Militar, sob os 15º C da noite de terça-feira (13), vindas dos mais diferentes lugares.

A mãe das gêmeas saiu de tarde de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo. Outros tantos levaram horas de trem e de ônibus para ouvir o que tem a dizer Antônio Luís Marchioni, 67, o padre Ticão.
 
O irrequieto pároco, que há 37 anos comanda a igreja, criou um curso sobre o uso medicinal da Cannabis. Dividido em dois módulos de seis meses, as aulas semanais atraem cada vez mais interessados.

“É um curso de saúde preventiva. A pessoa aprende a plantar e orientamos a entrar na Justiça para obter o direito do cultivo”, diz o padre, que ressalta ter o apoio da Igreja.
 
Conhecido por suas opiniões fortes, Ticão já atraiu a fúria de parte dos fiéis ao propor discussões nem sempre bem aceitas. Foi assim no sábado (10), ao convidar para uma palestra membros do grupo Católicas pelo Direito de Decidir —apontado como pró-aborto.

O curso também já causou discussões. O plantio de Cannabis é vetado no Brasil. Desde 2006, porém, a lei 11.343 prevê a possibilidade de a União autorizar o cultivo “para fins medicinais e científicos, em local e prazo predeterminados, mediante fiscalização”.

E, desde 2015, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autoriza pedidos para importação de óleos e medicamentos à base principalmente de canabidiol —a substância que Andreia diz ter mudado a vida das meninas. 

Algumas fileiras de cadeiras brancas de plástico à frente dela está Maria Alcinda Castor de Melo, 48. Espírita, ela espera há quatro meses pelo habeas corpus que a permita manter sem medo uma plantação

A seu lado, o filho Gabriel, 22, tem o olhar distante. Pernas cruzadas, o corpo franzino, segura na mão esquerda um palhacinho de pano surrado que não para de balançar. Também diagnosticado com autismo severo, desde 2017 toma sete gotas do óleo duas vezes ao dia. 

Antes disso, diz Alcinda, era impossível sair de casa com ele, que se tornava agressivo de uma hora para outra. “Já não conseguia segurar. Ele é um homem, não tem como conter.”
 
A mãe, que tem autorização da Anvisa para importar o medicamento, não tem como pagar os quase R$ 2.000 pelo frasco do óleo importado com 70 ml. “Comecei a dar o ‘clandestino’. Tem gente que vende por R$ 400, R$ 500”, diz. 

Para padre Ticão isto é resultado da distorção nas regras impostas pela Anvisa. “A agência não pode ficar negociando a dor desse povo”, diz.

CULTIVO CASEIRO

O que a maioria das pessoas ali defende é a liberação do cultivo associativo caseiro, em grupo, o que não está em discussão pelo governo. 

Alcinda confia que irá se juntar às cerca de 40 pessoas que conseguiram habeas corpus preventivos no país.

São casos como o da mãe do professor de Raul Thame, Gizele Thame, 61, que tem câncer. O filho mantém na casa dela cinco pés de maconha e 30 mudas —o que nem sempre basta para a extração do óleo e para garantir que ela tome o composto. 

Os benefícios, diz, se revelaram nos primeiros meses, discurso que se repete entre pacientes e familiares.

Há ali também quem nunca tenha usado a erva com propósito medicinal. Caderno aberto e anotando tudo o que é dito na palestra, Kátia de Sousa trabalha com remédios naturais e segue a religião rastafári, mas foi o chamado do padre que a fez atentar para um possível alívio para seu pai, que se recupera de um AVC.

No fundo do salão, atrás de uma mesa de plástico onde estão à venda quadros de Bob Marley, o evangélico Kleber Pereira, 42, balança a cabeça negativamente quando perguntado se não há exageros nos benefícios atribuídos à Cannabis. 

“Tomava 25 remédios por dia, fui internado quatro vezes porque achavam que era alguma doença mental, mas o que eu tinha era epilepsia de difícil controle. Eram até 35 convulsões por dia”, diz. “Não conseguia mais sair da cama. Foram nove anos assim, dependendo dos outros.”

Com uma blusa com a imagem de uma folha de maconha e uma cruz médica em que se lê: “Tire seu preconceito do meu remédio”, ele mostra as marcas pelo corpo dos anos convivendo com as crises. Há nove meses recebeu a primeira dose do óleo, que recebe de doações. “Hoje, a gente depende de uns santos que produzem por aí”, diz.

Para a psiquiatra e professora da Unifesp Ana Cecília Marques, esse é apenas um dos problemas. “Como isso é produzido? [O canabidiol e o THC] são substâncias muito difíceis de separar, e o THC já sabemos que causa problemas como a dependência”, diz. 

Membro do conselho da Abead (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas) e do comitê de drogas da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), ela afirma que o que se sabe sobre os benefícios do canabidiol —e não da maconha, ressalta—é resultado de estudos de caso, melhoras isoladas e não checadas por pesquisas que permitam transformar o composto em medicamento. 

“Não sou contra a pesquisa. Vamos pesquisar, mas a questão é: não há evidencias científicas suficientes para ser a favor [do uso do óleo]”, afirma. 

ANVISA X MINISTRO

 
Kléber diz acreditar que algum dia seja possível plantar em casa - Marlene Bergamo/Folhapress

Se para Andreia, Alcina, Raul, Gizele, Kátia e Kleber o extrato de canabidiol é motivo de alguma esperança, para o ministro da Cidadania Osmar Terra e para o presidente Jair Bolsonaro pode ser caso de fechar a Anvisa.

Em junho, a agência colocou em consulta pública, com prazo até segunda-feira (19), a proposta sobre o cultivo de maconha para fins medicinais.  

Na ocasião, o presidente do órgão, William Dib, afirmou: “Precisa ficar claro o seguinte: não estamos liberando a Cannabis, mas liberando medicamentos à base de Cannabis”.

O que a agência propõe é que, assim que for aprovado, o plantio de maconha ocorra em locais fechados, com acesso controlado e com uso de biometria. Empresas interessadas em produzir terão que apresentar planos de segurança para evitar desvios e serão alvo de inspeções regularmente. Não se fala em liberar o plantio para uso recreativo.

Ainda assim, ao site Jota, Terra disse: “Pode ter ação judicial. Pode até acabar a Anvisa. A agência está enfrentando o governo. É um órgão do governo enfrentando o governo. Não tem sentido”.

À rádio CBN, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, disse na última sexta (16) que o governo pretende simplificar e acelerar a entrada de medicamentos à base de canabidiol no país, o que incluiria acabar com taxas de importação. Contudo, afirmou, o governo vai aguardar o fim da fase de consulta pública da Anvisa para tomar medidas. 

Bolsonaro citou a “família tradicional brasileira”. “A nova direção do Brasil é um presidente que quer tirar o estado de cima de quem produz, é o presidente que respeita a família tradicional brasileira, é um presidente que respeita a inocência da criança na sala de aula e diz não ao processo de legalização de drogas”, disse.

A família de Andreia, evangélica e conservadora, não se enquadra no grupo de famílias a serem protegidas. Ao menos não dessa forma, diz.

A de Alcinda, Raul e Kleber também não. “Não importa o que o governo diz. Não tem como proibir ou reverter esse processo por um motivo: porque está salvando nossos filhos”, diz a mãe das gêmeas.

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