Polícia investiga servidor suspeito de usar igreja para receber propina na máfia das creches

Homem atuava em diretoria de educação e foi exonerado; polícia também investiga homem por vender ONGs

São Paulo

Em nova fase de operação que investiga a máfia das creches, a Polícia Civil de São Paulo localizou um servidor municipal suspeito de ajudar entidades conveniadas a fraudar documentos para desviar verbas. Outro homem investigado é apontado como corretor de gestoras de unidades educacionais, criadas para revenda. 

De acordo com a Secretaria da Segurança Pública, os investigadores fizeram busca e apreensão nos endereços ligados aos dois homens na tarde desta sexta-feira (11). 

A investigação apura irregularidades nas creches conveniadas, geridas por organizações sociais, responsáveis pela maioria das vagas de ensino infantil municipal em São Paulo. Os membros de organizações sociais são suspeitos de desviar alimentos, verba municipal e direitos trabalhistas como FGTS e INSS de funcionários, ao emitir guias falsas. 

A nova fase da operação Misantropia, tocada por policiais do 10º DP (Penha) chefiados pela delegada Ana Lucia Souza, surgiu a partir de documentos apreendidos com outros suspeitos no dia 12, em ação revelada pela Folha. O Ministério Público também se juntou aos trabalhos e o promotor José Carlos Blat investiga as conexões políticas das entidades. 

Segundo apontam as investigações, um servidor da Diretoria Regional de Educação de Guaianases (zona leste de SP), responsável por área que audita as gestoras das creches, atuaria como consultor no esquema. Ele é suspeito de, dentro da prefeitura, ajudar membros da quadrilha ao corrigir erros no preenchimentos de documentos de prestação de contas para encobrir irregularidades. 

Ainda segundo as apurações, em troca, o homem, também pastor evangélico, receberia depósitos na conta da sua igreja e até por meio de pagamentos de uma viagem de sua mulher para Maceió. 

Em nota, a prefeitura afirma que exonerou o servidor Joel de Alcamin Rodrigues "após investigações apontarem envolvimento com desvio de pagamento para as entidades parceiras que administram os Centros de Educação Infantil da região de Guaianases".

"A Secretaria de Educação está colaborando integralmente com as investigações. Cabe lembrar que quatro entidades já foram descredenciadas pela pasta, que também conduz investigações internas", diz o comunicado da prefeitura.

A reportagem não localizou o servidor até a publicação desta reportagem.  

Já o outro investigado é proprietário de um escritório de contabilidade e presidente de duas organizações sociais que atuam em creches, mas não teve o nome divulgado. Ele atuaria como uma espécie de corretor no ramo, vendendo as entidades para interessados em atuar na área. 

Tanto a atuação da polícia quanto a do Ministério Público usam entre suas bases reportagens da Folha sobre influência de políticos e problemas em creches municipais, como aluguéis inflados. 

 

MÁFIA DAS CRECHES

De acordo com a polícia, há "fortes indícios de que há formação de uma organização criminosa, voltada a constituição de empresas de fachada para o fim de desviar e apropriar de verbas públicas, especialmente as destinadas ao custeio de creches conveniadas à PMSP [prefeitura] e pagamento dos respectivos encargos". 

A peça narra ainda que as entidades "passaram não somente a desviar recursos públicos em espécie mas também prestam-se a desviar gêneros alimentícios enviados pela PMSP em detrimento aos cuidados das crianças". 

A operação começou após uma denúncia de desvios de valores de FGTS e INSS de funcionários e de falsificação de guias entregues à prefeitura. Os casos viraram diversos processos trabalhistas, em que a prefeitura pode acabar sendo responsabilizada e sofrendo prejuízo pelo rombo. 

O acúmulo de processos com dívidas de centenas de milhares de reais chamou a atenção da polícia, que passou a ouvir ex-funcionários das empresas que processaram as entidades e acabou encontrando indícios da ação de uma quadrilha suspeita de cometer vários outros crimes. 

Em um dos casos, por exemplo, uma funcionária relatou desvio de alimentos de uma unidade. A comida era colocada em sacos pretos levados em um veículo, "fazendo assim a subtração desses alimentos destinados à creche". 

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