Polícia já foi responsável por outras chacinas que marcaram o país; relembre

Na madrugada desta quarta, a PM amazonense matou 17 pessoas em Manaus

São Paulo

A madrugada desta quarta (30) foi marcada por uma sangrenta chacina, que deixou 17 pessoas mortas pela Polícia Militar amazonense, no bairro Crespo, na zona sul de Manaus.

De acordo com a versão oficial, os agentes interceptaram traficantes que se preparavam para tomar uma boca de fumo. Eles teriam reagido a tiros à abordagem. 

“Infelizmente eles quiseram ir pro confronto e nós saímos vitoriosos”, afirmou o comandante-geral da corporação no estado, Ayrton Norte. Moradores da região negam que tenha havido confronto. Nenhum policial se feriu e as viaturas não foram atingidas.

Entre 2016 e 2018, a imprensa reportou a ocorrência de 242 chacinas no Brasil, com 1.175 vítimas fatais. Em pelo menos 21,1% dos casos relatados —ou um em cada cinco— há suspeita de participação de policiais, segundo a pesquisa “Chacinas e Politização das Mortes no Brasil”, da Fundação Perseu Abramo.

O ranking é liderado por São Paulo, Ceará e Rio de Janeiro. Na maioria dos casos, os policiais estavam de serviço, em operações. 

Nos últimos 30 anos, o país viu ao menos 13 grandes chacinas realizadas por policiais e agentes da segurança pública, como bombeiro e guarda-civil, que geraram forte repercussão, inclusive internacional. Relembre:

Guararema (SP) - abr.2019

Em abril deste ano, 11 pessoas foram mortas pela Polícia Militar após explodirem duas agências bancárias, por volta das 3h, no centro de Guararema, cidade da Grande SP. Outros três suspeitos foram presos. Nenhuma quantia em dinheiro foi levada das agências. Essa foi uma das ações mais letais da história da PM paulista. 

Os agentes souberam do plano para roubar bancos da região após o Ministério Público interceptar conversas telefônicas entre os criminosos. A data foi informada à Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar), que ficou de prontidão para agir.

A operação foi elogiada pelo governador João Doria (PSDB), que condecorou os policiais envolvidos no Palácio dos Bandeirantes. Já um relatório da Ouvidoria da Polícia paulista considera que houve excesso dos agentes. O órgão diz haver fortes indícios de que as mortes ocorreram com os suspeitos já rendidos, ou seja, “sem resistência por parte das vítimas”.

Em São Paulo, a polícia é responsável por uma a cada três mortes violentas.

Morro do Fallet (RJ) - fev.2019

No Rio, policiais militares mataram 15 pessoas em operações nos morros do Fallet-Fogueteiro, Coroa e Prazeres, região central da cidade. 

A corporação afirmou que todos foram mortos em confronto —não há informação de agentes mortos ou feridos. Os moradores da favela dizem que os policiais atiraram mesmo após a rendição dos suspeitos e acusam os agentes de execução. Entre os mortos, estavam dois adolescentes de cerca de 15 anos. 

A ação ocorreu dois dias após confrontos intensos entre as facções Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro, conhecidas pelas siglas CV e TCP.

O Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar o caso chegou a conclusão de que os agentes envolvidos não cometeram crime nem transgressão. Paralelamente, seguem as investigações da Polícia Civil e do Ministério Público estadual.

A polícia do Rio é a que mais mata e a que mais morre no país.

Grande Messejana (CE) - nov.2015

Em novembro de 2015, Fortaleza testemunhava a maior chacina já registrada na história da capital, em ruas dos bairros Curió, Alagadiço Novo e São Miguel, na Grande Messejana.

Ao menos 38 policiais militares mataram 11 pessoas em quatro horas durante a madrugada, segundo investigações. Outras sete pessoas ficaram feridas. A ação ficou conhecida como "chacina de Messejana".

Uma das hipóteses levantadas pela polícia é de que as mortes tenham sido uma represália pelo assassinato de um policial. Os 38 agentes foram indiciados por participação no crime.

Osasco (SP) - ago.2015

A noite de 13 de agosto de 2015 terminou com ao menos 17 pessoas mortas a tiros em Osasco e Barueri (cidades da Grande SP), a maioria sem antecedentes criminais. Outras seis pessoas foram mortas em cidades próximas no que ficou conhecido como "pré-chacina". 

Essa é considerada a maior chacina do estado.

As suspeitas recaíram sobre as forças de segurança porque, dias antes, um PM e um guarda municipal foram mortos por criminosos durante assaltos em Osasco e Barueri.

A Justiça condenou os policiais militares Fabrício Eleutério a 255 nos de prisão, Thiago Henklain a 247 anos e Victor Cristilder dos Santos a 119 anos. O GCM Sérgio Manhanhã recebeu pena de 100 anos.

O Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), no entanto, decidiu anular a sentença e mandar refazer o Tribunal do Júri do ex-cabo Cristilder e do guarda civil Manhanhã. 

Quase quatro anos após o caso, o Comando-Geral da PM determinou a expulsão dos policiais da corporação.

Pavilhão Nove (SP) - abr.2015

Na Ponte dos Remédios, zona oeste de São Paulo, oito corintianos da torcida Pavilhão Nove foram mortos a tiros em 18 de abril de 2015, na sede da organizada. 

De acordo com as investigações, três pessoas (dois PMs e um ex-PM) teriam invadido o local e matado com tiros na nuca as vítimas, de idades entre 19 e 38 anos.  

Segundo a Justiça, a ordem teria partido do ex-PM Rodney Dias dos Santos. Ele tinha desavenças com uma das vítimas por causa do controle de drogas na região. Santos foi condenado a 149 anos de prisão pelo crime. 

Baixada Fluminense (RJ) - mar.2015

Em 30 de março de 2005, uma chacina que começou na cidade de Nova Iguaçu e continuou em Queimados, ambas na Baixada Fluminense, deixou 29 mortos. É a maior do estado do Rio.

Segundo testemunhas, nas duas cidades, os atiradores desceram de um carro e não tinham alvo definido. Entre as vítimas, havia crianças, adolescentes, mulheres e homens.

Por suspeita de envolvimento na chacina, 11 policiais foram presos. Eles estariam intimidados pela investigação de envolvimento de agentes em crimes na região. 

Dias antes do massacre, dois homens foram degolados, supostamente por PMs, e uma das cabeças foi jogada no pátio de um quartel em Duque de Caxias.

Massacre da Sé (SP) - ago.2004

Sete moradores de rua foram mortos com golpes de ferro e pauladas na cabeça no centro da capital paulista em agosto de 2004. O caso também teve repercussão mundial e ficou conhecido como o “Massacre da Sé”. Uma testemunha presenciou os crimes e iria depor contra policiais militares suspeitos de participação no crime, mas foi morta.

Os PMs acusados de matar a testemunha foram presos e processados pela Justiça. No entanto, eles alegaram que a jovem havia roubado o celular de um deles. Outros cinco policiais militares acusados de envolvimento na chacina foram denunciados, mas acabaram soltos por falta de provas. O crime segue impune.

Castelinho (SP) - mar.2002

Em 5 de março de 2002, policiais militares mataram 12 supostos integrantes do PCC na rodovia Senador José Ermírio de Moraes, a Castelinho. 

Os mortos foram supostamente convencidos pelos PMs a roubar um avião-pagador que jamais existiu, em Sorocaba, e emboscados na praça de pedágio.

A investigação à época apontou que os policiais deram um fim às fitas do circuito de segurança que gravaram a ação. A Justiça, no entanto, entendeu que os agentes agiram no estrito cumprimento do dever e, por isso, decidiu não levá-los a júri.

Baixada Santista (SP) - nov.1999

Na cidade de São Vicente, na Baixada Santista, oito adolescentes com idades entre 12 e 16 anos foram mortos com tiros na cabeça em 18 de novembro de 1999. 

O ex-policiais militares Wagner Ferreira da Costa e José Sebastião Teles de Almeida foram condenados a 108 anos de prisão. O Tribunal do Júri absolveu um policial militar por falta de provas. 

Francisco Morato (SP) - jun.1998

Os mais de 90 tiros disparados de cinco tipos diferentes de armas na madrugada de 16 de junho de 1998 mataram 12 pessoas no bar Ponto de Encontro, em Francisco Morato, região metropolitana de São Paulo. Outras quatro ficaram feridas.

O local fica a cerca de 250 metros da delegacia da cidade. 

A Polícia Civil apurou na época que a chacina foi motivada porque uma das vítimas no bar iria depor contra policiais militares envolvidos em um assassinato. 

Dois PMs foram presos e levados a júri popular. Peritos apuraram que os projéteis retirados dos corpos das vítimas foram disparados pela mesma arma apreendida com um dos policiais militares. Mesmo assim, os jurados entenderam que não havia provas contra os acusados e absolveram os dois agentes. 

Vigário Geral (RJ) - ago.1993

Há 26 anos, na madrugada de 30 de agosto de 1993, um grupo de mais de 50 PMs invadiu a favela de Vigário Geral, na zona norte do Rio, para vingar a morte de quatro colegas, assassinados em uma cilada montada pelo traficante Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, do CV (Comando Vermelho).

Foram assassinados 21 moradores —sem antecedentes criminais. Entre as vítimas, oito eram de uma família de evangélicos e foram assassinados dentro de casa diante de cinco crianças. Sete pessoas morreram quando conversavam em um bar e outras seis em ruas da favela.

Pelo crime, o Ministério Público denunciou 52 homens —​a maioria policial—, mas 45 foram absolvidos. Sete réus foram condenados no primeiro julgamento. No segundo, três deles acabaram absolvidos. Só um permanece preso. Até hoje, apenas quatro famílias foram indenizadas.

O caso chegou a ser julgado na Organização dos Estados Americanos (OEA) como crime contra os direitos humanos.

Igreja da Candelária (RJ) - jul.1993

Oito jovens, com idades entre 11 e 19 anos, dormiam na praça da Igreja da Candelária, no centro do Rio, quando foram executados a tiros por homens que chegaram ao local em dois Chevettes, em julho de 1993.

Pelos crimes, foram condenados três policiais militares. As motivações ainda são desconhecidas, porém, uma das teses apontadas pela investigação é vingança.

Meninos de rua teriam apedrejado um carro da polícia, um dia antes, após a prisão de um traficante que vendia cola de sapateiro. Outra causa possível foi o atropelamento da mulher de um policial que fugia de um arrastão cometido por menores.

Sete anos depois, um dos sobreviventes da chacina, Sandro do Nascimento, sequestrou um ônibus da linha 174, no Rio, e manteve reféns os passageiros do coletivo por mais de quatro horas.

No desfecho, a polícia disparou na direção de Sandro, mas acertou a mulher que era feita de escudo pelo sequestrador. Na ação, ele também baleou Geilsa Firmo Gonçalves, que morreu no hospital. Sandro foi morto asfixiado por policiais dentro de uma viatura.​

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