Livro resgata memória do Quilombo do Leblon

Chácara das Camélias, no bairro carioca, reuniu abolicionistas brancos e negros no século 19

 Na ilustração da Revista Illustrada, de 1888, José de Seixas Magalhães entrega camélias para a princesa Isabel
Na ilustração da Revista Illustrada, de 1888, José de Seixas Magalhães entrega camélias para a princesa Isabel - Reprodução
São Paulo

"As camélias do quilombo do Leblon/ Nas lapelas”, cantaram Gilberto Gil e Caetano Veloso em uma recente composição da dupla, de 2015. Camélias nas lapelas se refere ao símbolo do movimento abolicionista, quando os antiescravagistas cariocas do século 19 colocavam as flores em seus paletós para demonstrar de que lado estavam.

Já o quilombo do Leblon tem uma história menos conhecida, apesar de seu papel na abolição da escravatura, em 13 de maio de 1888. É curioso o fato de o bairro que hoje tem o metro quadrado mais caro do Rio de Janeiro tenha abrigado, há 140 anos, um centro progressista como esse.

Esse quilombo, no entanto, era “diferente daquela modalidade mais conhecida pela sua índole guerreira e que atuava como foco de resistência. Abrigava escravos fugidos, mas também reuniões, discussões e ações sobre o fim da escravidão no Brasil.

Dentre os visitantes, figuravam Joaquim Nabuco, André Rebouças e Rui Barbosa”, aponta o livro “Leblon”, organizados pelos urbanistas Augusto Ivan de Freitas Pinheiro e sua mulher Eliane Canedo (Andrea Jakobsson Estúdio, R$ 120, 240 págs.).

“Eles escondiam escravos, compravam sua liberdade e discutiam a abolição. Chamava-se quilombo também pelas manifestações da cultura negra que estavam muito presentes”, diz Augusto Ivan.

O quilombo era parte da Chácara das Camélias, a maior que existia no bairro no século 19. Hoje a chácara se transformou no Alto Leblon, uma área de casas e mansões que sobe a encosta do morro Dois Irmãos. Segundo Augusto, o quilombo funcionava onde agora está encravado o Clube Federal.

O dono da chácara era o comerciante português José de Seixas Magalhães. Ele fabricava e vendia malas e sacos de viagem no centro da cidade. Era avançado: suas malas eram feitas por máquinas e se tornaram famosas na Europa.

“Além de sua fábrica a vapor, o Seixas cultivava flores [em sua chácara] com o auxílio de escravos fugidos. Seixas ajudava os fugitivos e os escondia com a cumplicidade dos principais abolicionistas da capital do Império, muitos deles membros proeminentes da Confederação Abolicionista”, conta Eduardo Silva no texto “As Camélias do Leblon e a Abolição da Escravatura” (site da Fundação Casa Ruy Barbosa).

“O imigrante Seixas era um homem muito bem relacionado”, continua Silva. “Além da cumplicidade que tinha com os grupos abolicionistas do Rio, contava com a proteção da própria princesa Isabel. Pelo menos o homem fornecia suas camélias, em bases regulares, ao Palácio das Laranjeiras, então residência da princesa e hoje sede do governo do Estado. As camélias do Leblon enfeitavam não apenas a mesa de trabalho da princesa, como ainda sua capela particular, onde se apegava a deus e fazia suas orações.”

Parte do simbolismo capturado pelos abolicionistas, que viam na extinção da escravatura uma prova incontestável de civilidade, estava no fato de as camélias serem flores sofisticadas e identificadas com o progresso. Haviam sido introduzidas no Brasil no início do século 19.

 
Retrato a óleo do engenheiro André Rebouças, negro, usando traje social
André Rebouças era adepto de uma reforma agrária que concedesse terras para os ex-escravos - Museu Afro Brasil

“A camélia não era uma flor dessas comuns, naturais da terra e encontradiças soltas na natureza.  Era, pelo contrário, uma flor especial, estrangeira, cheia de melindres com o sol, que requeria know-how, ambiente, mão de obra, relações de produção, técnicas de cultivo e cuidados muitíssimo especiais.”

A antropóloga Alba Zaluar, que também assina texto no livro “Leblon”, chama a atenção para o aparente paradoxo do quilombo do Leblon.

“(...) Após novas vendas e outros proprietários, as terras chegaram ao português José de Guimarães Seixas, que simplesmente criou ali um quilombo abolicionista. Ou seja, um burguês industrial e comerciante bem-sucedido participava ativamente do maior movimento social ocorrido no Brasil: o movimento abolicionista do século 19, que reunia brancos, mulatos e pretos, pobres e ricos.”

“O quilombo também se via como marca da civilização, do cuidado com o mais fraco, da modernidade. Talvez tenha sido, senão a melhor hora do Leblon, um dos episódios mais notáveis de sua história”, afirma Alba.

À reportagem, a antropóloga lamentou a situação de “o movimento negro de hoje querer diminuir o abolicionismo”. “O movimento negro agora acha que aquele movimento, que foi o maior do país, tinha muito branco. Na minha opinião, você não vai diminuir o racismo opondo brancos a negros, e sim unindo-os”, disse.

De fato, se Rui Barbosa e Joaquim Nabuco eram brancos, o terceiro abolicionista citado pelos autores não era. André Rebouças era neto de uma escrava e de um português. Além de abolicionista, foi um famoso engenheiro em seu tempo.

Trabalhou no problema de desabastecimento de água na capital federal e na direção das docas da Alfândega. Monarquista e conhecido de dom Pedro 2º e da princesa Isabel, André Rebouças acabou exilado do país com a chegada da república, em novembro de 1889, um ano e meio após o fim da escravidão

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