Descrição de chapéu Alalaô

Aos 82, mais velho maestro de frevo ainda surpreende público

José Bezerra da Silva, o Lessa, é conhecido por orquestra afinada, repertório extenso e imprevisibilidade

Recife

José Bezerra da Silva, 82, o Lessa, é pedaço histórico e pulsante do Carnaval do Recife e de Olinda. Com 64 anos dedicados à música, o maestro de frevo mais velho em atividade em Pernambuco, puxando troças e blocos na rua, tem fôlego de menino.

É uma espécie de motor do frevo. Não para. No comando de orquestras com até 30 músicos, chega a tocar 12 horas por dia no meio da multidão e do sobe e desce das ladeiras.

O ex-pedreiro e ex-guarda municipal aprendeu a tocar trombone aos 18 em Nazaré da Mata, na zona da mata norte de Pernambuco, região conhecida pela presença tradicional do maracatu de baque solto.
Chegou ao Recife em 1960 e se sustenta do frevo até hoje. Diz que, enquanto Deus não levá-lo, vai fazer Carnaval. 

Não teme doença, só “dinheiro pouco”. Costuma dizer que nunca teve dor de cabeça nem pegou resfriado. “O segredo é a minha saúde. Durmo cedo, não bebo muito e não fumo.”

 

Vez por outra, aceita um gole de cerveja que um folião oferece. Nos quatro dias de folia, puxa dez troças e blocos. Durante os percursos, é sempre assediado para selfies. 

O nome artístico vem da época de goleiro nas peladas. “O goleiro do América se chamava Lessa. Pegou.”
Para cumprir o cronograma, é preciso se multiplicar e ter, além de disciplina, sensibilidade para encaixar a música certa na hora certa. 

Na segunda-feira de Carnaval, a maratona começa às 10h, na ladeira da Misericórdia, uma das mais íngremes de Olinda. É o bloco México Peru. O sol forte quase sempre aparece. Para se proteger, usa apenas um pequeno chapéu preto durante os desfiles, sua marca.

Às 14h, corre para o Amantes de Glória, na rua da Guia, no centro do Recife. O desfile começa às 16h e só acaba às 20h, no pátio do Livramento.

Pertinho de lá, Lessa ainda toca em um palco montado na praça da Independência, também no centro. No domingo de manhã, recomeça tudo.

Conhecido pelo humor instável e uma super sinceridade, refuta o carimbo de maestro. “Coloque aí que nem maestro sou. Tem muita gente melhor do que eu por aí.”

Quem o contrata sabe das suas virtudes e também da conhecida imprevisibilidade. No ano passado, após desentender-se com os organizadores da Pitombeira dos Quatro Cantos, troça das mais tradicionais de Olinda, deixou o comando da orquestra. 

Já no comando do Tá Maluco, em setembro de 2019, fez a tradicional parada diante da casa dos fundadores da Pitombeira, quando se toca o famoso hino da troça em reverência à agremiação, no desfile pré-carnaval. Ordenou então, para constrangimento geral, que a orquestra executasse o hino do Elefante, por muitos anos rival da Pitombeira.

Mas as surpresas do maestro muitas vezes são boas. 

“Lessa tem um vigor impressionante. Não apenas físico. Ele sempre se reinventa. Neste ano, meteu, sem ninguém esperar, “Anunciação”, de Alceu Valença, quando chegamos aos Quatro Cantos. Ele nunca tinha tocado. Todo mundo se emocionou”, diz Juliano Cavalcanti, um dos organizadores da troça.

Cavalcanti entende a força de ter Lessa à frente do Tá Maluco. “É aquele maestro que não descansa. Brincamos que ele não tem tarol [instrumento musical], que segura o ritmo enquanto os músicos param de tocar um pouco”, comenta.

Paulo Aguiar, um dos fundadores do Amantes de Glória, lembra que nunca precisou assinar um contrato com Lessa. “É tudo de boca. Nunca assinou um pedaço de papel.”

Paulinho Rei, como é conhecido na agremiação, elogia o maestro. “Ele chama muita gente para o bloco porque as pessoas sabem que vão escutar um frevo afinado. Ele ensaia. É uma orquestra de rua que executa tão bem o frevo que é como se estivessem tocando em um teatro.”

Na rua, a dificuldade cresce em razão da quantidade de pessoas. O empurra-empurra é grande. O barulho também dificulta o trabalho. Lessa tem 15 músicos de sua confiança que ele leva a todo lugar. 

Um deles é José Antônio da Silva, o Zé da Tuba, que completou 80 anos há uma semana.

“Pela experiência que tem, o repertório dele é muito vasto. Conhece muito frevo. No ano passado, fiz uma lista com 40 frevos e entreguei a ele apenas como sugestão. Lessa virou para mim e disse: ‘desses aí, só não ensaiei dois”, diverte-se.

O maestro Spok, aclamado em Pernambuco e fora do país, enxerga no maestro a alma do Carnaval. “A importância de Lessa é incalculável. Representa o autêntico frevo de rua, o autêntico Carnaval. Tem uma dimensão gigantesca.”

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