Famílias perdem tudo em favelas ao lado dos rios Pinheiros e Tietê, em SP

Idosa recém-operada precisou ser resgatada de casa inundada; há 46 anos, moradores vivem sucessão de tragédias

São Paulo

Gaúcha, como é conhecida Maria José Machado, 61, ainda está com os pontos da última cirurgia que fez para tratamento de um câncer e dá passos lentos. Quando a água começou a subir em São Paulo no fim da madrugada desta segunda-feira (10), os vizinhos correram.

Primeiro, a colocaram em cima de uma cômoda. Mas quando viram as gavetas começarem a boiar, formaram uma força-tarefa de dez homens para tirá-la dali, improvisando uma espécie de maca com uma escada de ferro. A enchente lamacenta passava da cintura. 

“Eu só implorava a Deus para abaixar a chuva”, diz Maria José, que vive na favela da Linha, ao lado da favela do Nove.

As duas comunidades, na Vila Leopoldina, zona oeste da capital paulista, foram fortemente atingidas pelo temporal. Elas ficam ao lado do Cebolão, complexo viário no local onde se encontram os rios Tietê e Pinheiros. Este último, em três horas de chuva, atingiu o maior volume desde que o governo começou a monitorar o sistema, em 1967.

A inundação invadiu os becos estreitos e ao menos 270 famílias perderam tudo, segundo a associação dos moradores. Outras ainda calculam os estragos nesta terça-feira (11), em meio ao cheiro forte de esgoto. Elas vão colocando para fora de casa os móveis, aos pedaços, eletrodomésticos, brinquedos, documentos, para serem recolhidos por um mutirão que arregaçou as mangas —primeiro para empurrar a água, agora para levar o lixo.

Dona Maria José chora ao ver suas almofadas recém-compradas sujas de lama. “Não bota fora minhas panelas”, grita ela.

Antônia Milta, 72, estava dormindo quando percebeu a água já na cama. Eram 5h30. Com a renda do Bolsa Família, ela vive em um barraco de um cômodo na favela do Nove. “Essa água é suja, lá do rio. Não tenho condição de salvar nada. Não sei como vou fazer agora… Vou esperar a ajuda das pessoas, porque da prefeitura eu não espero mais”, afirma.

Sem ter onde cozinhar, Antônia conseguiu jantar uma sopa feita coletivamente por quem se safou dos estragos —aqueles que moram no segundo andar das construções.

Já Vera Lúcia dos Reis, 49, vestiu uma blusa escrita "Fé" para continuar a limpeza da casa. "É só o que a gente tem agora. Quando vi a quantidade de água, peguei o documento e minha filha e corri."

Ela ainda não teve a coragem de ligar a geladeira para ver se funciona, mas já precisou bater ponto no trabalho como auxiliar de limpeza na Ceagesp, que também ficou alagada com o temporal. "A patroa disse que se eu não for, perco o emprego.” Ganha R$ 1.200 mensais.

Vera chora quando lembra que perdeu até a prótese dentária. "Eu costumo tirar porque aperta, dói um pouco, mas aí deixei cair na água suja.”

Sentada do lado de fora, Ciça Conceição, 68, não sabe por onde começar. Ela e o neto vivem sem renda desde que o governo federal cortou o Bolsa Família que recebiam. “Eu já não tinha nada, agora o que eu tinha se acabou.”

A casa de dois cômodos ainda está cheia de lama. Ciça perdeu inclusive os alimentos: arroz, feijão, açúcar, macarrão. Com artrose nas pernas, não aguentou correr para salvar nada da inundação.

Evangélica, ela conta ter sentido que algo ia acontecer. “Eu disse para minha vizinha: dona Maria, nós vamos passar por uma grande luta hoje.”

Maria das Virgens, 36, saiu "jogando as coisas pra cima, televisão, roupa, o que deu. Colocamos a geladeira e o sofá em cima de cadeiras, mas os móveis... estragou tudo."

Há mais de duas décadas vivendo na comunidade, ela conta nunca ter visto uma enchente do tipo. “Em 2002 encheu também, mas foi rápido e com bem menos água."

As favelas da Linha e do Nove já passaram por sete incêndios e três grandes enchentes. 

Há 46 anos, as comunidades de construções improvisadas ocupam os arredores da Ceagesp —maior central de abastecimento de frutas, legumes, verduras e flores da América Latina— sem qualquer plano concreto de remoção para um local menos precário.

Juntas, as 1.395 famílias ocupam uma área de cerca de 14 mil m2.

As duas favelas fazem parte do Projeto de Intervenção Urbana (PIU) Vila Leopoldina-Villa Lobos. A modalidade, criada por decreto em 2016 com base em premissas estabelecidas pelo Plano Diretor da cidade de 2014, tem como finalidade ordenar regiões específicas da capital. O projeto de lei, no entanto, está parado na Câmara Municipal de São Paulo.

O PIU prevê que o Grupo Votorantim, um dos maiores conglomerados industriais latino-americanos, crie um novo bairro na região, e construa numa área duas vezes maior do que o regulamento municipal permite. Em contrapartida, a empresa deverá investir R$ 80 milhões em moradias populares e equipamentos públicos para quem vive na Linha e no Nove, além de revitalizar o conjunto habitacional colado nas duas favelas, o Cingapura Madeirite.  

O projeto não agrada os moradores do entorno, formado por prédios de classe média alta.

“O que existe é um preconceito do pessoal lá em cima [da área nobre]“, diz Alexandre Beraldo, o Xandão, líder comunitário. "Ontem queriam doar 100 kg de macarrão para quem ficou sem comida e hoje fazem manifesto contra nossa possibilidade de moradia digna.”

As doações estão concentradas na Associação dos Moradores do Ceasa, que reúne quem vive nas duas favelas. O endereço é av. Manuel Bandeira, 145, Vila Leopoldina. A necessidade mais urgente é de água mineral, colchões e produtos de higiene e de limpeza, além de mantimentos como feijão, açúcar, arroz, macarrão, leite em pó, molho de tomate etc.

Doações financeiras podem ser feitas na conta bancária da Associação MCVLAMC: Itaú, agência 1011, conta corrente 16076-7, CNPJ 34.726.479/0001-60.

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