Descrição de chapéu Alalaô

Fio de cabelo (sintético)

Enquanto os dois se aproximaram, teve alguém que jura ter ouvido: 'Eu tenho medo de te dar meu coração'

Rolava um dilema na ladeira Porto Geral: só Aninha não queria ter um diminutivo na sua fantasia. A turma da Odonto 2007 já tinha se ajeitado: a Má ia de enfermeirinha; Fê ia de fadinha; e a Lu ia de Chapeuzinho Vermelho, que já era diminutivo no original.

Mas Aninha sentiu um repique no estômago quando se viu cercada por aquelas fantasias de dois palmos de paetês. Ela já tinha o diminutivo no nome o ano inteiro. Desde que saíra de Rio Claro era Aninha, porque na sala da faculdade já tinha uma Ana, com mais de 1,50 m. Fazia dez anos que tinha perdido o direito a um nome de tamanho mediano.

Ela, que diria "credo!" se alguém a chamasse de feminista, não queria ser uma versão diminuída de fantasia só porque era mulher. Queria uma fantasia inteira.

Aninha andou até os fundos da loja Só Folia & Alegria. Encontrou no canto, numa pilha em saldão, umas fantasias abandonadas há muitos carnavais. Um macacão de palhaço, clássico e assustador. Uma máscara de pinguim de um desenho infantil que não pegou no Brasil. E algo que brilhava sob as outras. Um pedaço de peruca preta como a asa da graúna.

Ela pegou a peruca pelo cabelo. Puxou. Olhou a fantasia na altura do seu rosto e riu. 

Ilustração colorida de pessoas no Carnaval. Na cena, garota observa as costas de outro folião. Outra pessoa olha para a cena segurando uma garrafa
Fio de Cabelo - Bruna Barros

As amigas já estava pegando as sacolas no guichê de pacote. Aninha pagou ("Só aceita dinheiro, moça") e saiu da 25 de Março para o consultório com um segredo dentro de uma sacola de plástico branca. 
No dia do bloco do Alok, a ideia era se encontrar para um esquenta no apartamento da Má --"Moema até o Ibira é um pulinho". A fadinha, a enfermeirinha e a Chapeuzinho Vermelho que veste a mesma capa desde os 11 anos de idade ficaram impacientes.

"Amiga, já são 10h30! O bloquinho começava às 10h", mandaram no grupo de zap, para a única que não chegara. "Vão indo, encontro vocês lá."

E quando elas chegaram, Aninha já estava esperando. Não que elas tenham reconhecido. Ela era outra. O cabelo loiro tinha sido coberto por fios sintéticos pretos, grossos e lisos como arame. O decote da Aninha tinha sido aniquilado por uma camisa de flanela xadrez. Ela estava de salto? Não dava pra ver com essa calça jeans.

Aninha ia pular Carnaval fantasiada de Xororó. Ou era de Chitãozinho? Aquele menorzinho, que canta fino e que não é pai da Sandy. Ou é? Aquele que tem o cabelo compridinho atrás. 

"É mullets que chama", explicou a Aninha às amigas atônitas, gritando contra a batida eletrônica. Má quis protestar. Lu quis abrir os cinco primeiros botões da camisa. Fê queria mandar a amiga embora. Mas não tinha jeito, o Carnaval havia chegado. Era a fantasia que tinha para hoje.

Um índio loiro e politicamente incorreto se aproximou do grupo, com o arco na mão. Crivou a camisa de flanela de Aninha com a flecha do seu olhar. 

"É gringa a sua amiga, acha que tá no Halloween?", ele quis saber da Má, a enfermeirinha. Antes que houvesse uma resposta, houve um beijo que impediu a resposta. 

E, como um batalhão na pior das guerras, a turma do diminutivo foi perdendo integrantes. O exército inimigo era feroz: Fê caiu nas garras de um dos irmãos Petralha, e Lu abateu um surfista que poderia estar sem fantasia não fosse pelos dois traços de protetor solar do lado do nariz.

Aninha se viu sozinha. Sozinha, segurando a cerveja com uma mão e tapando o bocal da lata com a outra, para proteger de espuma e de coisas piores. E Aninha se viu livre. Ela sentia o petróleo transformado em cabelo ferver na cuca. 

Mas ela não sentia o peso dos olhares que a acompanharam a vida toda. O olhar nunca encomendado dos homens.

Até que, no meio de fantasias masculinas, de tamanho real mas de imaginação diminuta, Aninha viu algo reluzir ao sol. No meio do bloco, ela viu um mullet. Um rabicho de cabelo sintético na cor asa da graúna. E Aninha parou, enquanto a música continuou.

Numa cena que passaria em câmera lenta no cinema, mas aconteceu em velocidade natural para Aninha, o dono da peruca se virou na sua direção. 

Era um Chitãozinho. Ou outro Xororó? Que difícil saber quem é quem. Enfim, era a mesma fantasia que a dela. Sob os mullets estava um homem, franzino, com a cara de passarinho. Como a dela.
Os dois se aproximaram. O trio do Alok tocava uma música eletrônica com letra em inglês que as pessoas repetiam sem entender. 

Enquanto os dois se aproximaram, teve alguém que jura ter ouvido: "Eu tenho medo de te dar meu coração".

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