Temporal provoca alagamentos, interdições e caos no transporte em São Paulo

Trechos das marginais Pinheiros e Tietê foram interditadas; rodízio está suspenso; cidade tem previsão de novos temporais

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Chuva causa alagamento na região da Ponte da Casa Verde em São Paulo (SP), nesta manhã de segunda-feira (10) Romerito Pontes/Futura Press/Folhapress

São Paulo

A cidade de São Paulo viveu um dia de caos nesta segunda-feira (10) após receber o segundo maior volume de chuvas para o mês de fevereiro em 77 anos.

Os rios Pinheiros e Tietê transbordaram, ruas foram alagadas, moradores ficaram ilhados, escolas suspenderam aulas e transportes e serviços públicos foram interrompidos. As autoridades chegaram a recomendar a quem pudesse que evitasse sair de casa.

A chuva também atingiu a região metropolitana e o interior. Em Botucatu, uma pessoa morreu e duas estão desaparecidas.

 

Apenas na Grande São Paulo, os bombeiros receberam mais de 7.650 chamados da meia-noite às 15h.

No final da tarde, a corporação registrava 915 ocorrências de enchentes, 163 de desabamentos ou desmoronamentos e 170 relacionadas a quedas de árvores. 

Os agentes fizeram ainda quatro resgates de pessoas ilhadas e três deslocamentos para transportar pacientes de hemodiálise.

As precipitações ganharam força na primeira hora do dia e continuaram ao longo de todo o dia. No final da tarde, já havia chovido em dez dias na capital paulista 96% do esperado para todo o mês.

Em três horas, o volume do rio Pinheiros atingiu o maior nível desde que o governo começou a monitorar o sistema, em 1967, segundo a Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado. O transbordamento do Pinheiros e do Tietê em diversos trechos contribuiu para travar a circulação na cidade. 

Os bairros que receberam maior volume de precipitações foram a Lapa, na zona oeste, Tremembé, na zona norte, e São Miguel Paulista, na leste, mas todas as regiões foram atingidas.

Na Vila Itaim, no extremo leste, moradores já acostumados a enchentes voltaram a ver a água subir em alguns casos até o telhado e perderam móveis e eletrodomésticos.

Na Barra Funda, na zona oeste, condôminos ficaram ilhados em prédios e assistiram, sem poder sair de casa, a resgates em botes e à subida do nível da água, que entrou na garagem de alguns dos edifícios.

No estádio do Morumbi, a água invadiu toda a área social, inclusive a piscina.

O centro expandido paulistano ficou vazio, porque poucos conseguiam chegar a ele. O trânsito fluía em avenidas como Angélica, Rebouças, Brasil, Faria Lima, Nove de Julho e Consolação, em geral entupidas.

Diversos serviços foram interrompidos. O Tribunal de Justiça cancelou expediente nas unidades da Grande São Paulo e das comarcas de Botucatu, Cubatão, Mongaguá, Praia Grande e São Vicente. Na Lapa, a Superintendência da Polícia Federal suspendeu a emissão de passaportes.

Principal entreposto de abastecimento da cidade, a Ceagesp foi também inundada. Alimentos foram perdidos e, ilhados no entorno, caminhões de transporte ficaram parados por horas.

Os alagamentos afetaram até a alimentação de 8.203 detentos e 484 jovens menores de idade em medida socioeducativa. Ao menos nove unidades da Fundação Casa e seis Centros de Detenção Provisória ficaram sem receber almoço entre a manhã e a tarde desta segunda-feira.

No Complexo Vila Maria da Fundação Casa, próximo à marginal Tietê, refeições só chegaram de helicóptero, com auxílio da Polícia Militar.

Os pontos de alagamento afetaram gravemente o transporte dentro da cidade e também nas entradas e saídas. 

Ônibus deixaram de circular pelo menos em algum momento por 13 vias da cidade, como as marginais e as avenidas Braz Leme, Chucri Zaidan, Francisco Morato, Interlagos, Marquês de São Vicente e Santo Amaro.

Devido a alagamentos, os trens da linha 9-Esmeralda da CPTM circularam apenas entre as estações Grajaú e Santo Amaro a partir das 4h. O mesmo ocorreu em parte da extensão da linha 8-Diamante até as 9h. Por volta das 9h20, houve interferências nos fios da rede elétrica que alimentam os trens da linha 7-Rubi entre as estações Jaraguá e Vila Aurora, que passaram a circular em menor velocidade.

No Terminal Rodoviário do Tietê, mais de 350 partidas de ônibus foram canceladas. Na rodoviária da Barra Funda, foram ao menos 90.

Diversas rodovias tiveram trechos bloqueados pelos estragos causados pela chuva, como a Castello Branco, a Ayrton Senna e Anhanguera. O trânsito na Bandeirantes fez passageiros de ônibus desistirem da viagem e seguirem o caminho a pé. O sistema de transporte intermunicipal na região metropolitana também foi afetado.

O rodízio municipal de veículos foi suspenso.

Os aeroportos ficaram abertos, mas muitos passageiros e tripulantes não conseguiram chegar a tempo de viajar. 

Até as 18h30, 28 voos haviam sido cancelados em Cumbica, e 40 tinham atrasado. Já Congonhas registrou 23 atrasos e 9 cancelamentos.

Conforme a Folha mostrou, a cidade de São Paulo tem ao menos 17 obras de drenagem, a maioria delas atrasada. A administração afirma que, até o momento, inaugurou oito piscinões, cinco deles no último ano.

Outros municípios do estado também foram gravemente afetados pelos temporais. Em Botucatu (a 238 km da capital), o motorista de um caminhão morreu ao cair com o veículo na cratera que se abriu na rodovia Marechal Rondon. O corpo foi encontrado às margens de um córrego em local de difícil acesso. 

Um casal levado pela enxurrada na estrada do Capivara desapareceu. O carro foi localizado. O prefeito Mário Pardini (PSDB) decretou estado de emergência e calamidade pública na cidade.

Em Osasco, na Grande SP, um deslizamento de terra no morro do Socó deixou famílias desabrigadas e chegou a soterrar um menino de sete anos de idade. Ele teve uma parada cardíaca, mas foi resgatado com vida, reanimado pela equipe de socorristas e encaminhado para um hospital em Barueri.

Rodízio de veículos segue suspenso; chuva deve continuar

A gestão Bruno Covas (PSDB) afirmou que decidiu manter o rodízio de veículos suspenso nesta terça-feira (11). A medida foi anunciada após reunião do gabinete de crise com o prefeito.

Segundo secretários, a decisão foi tomada para amenizar o desconforto desta segunda, em que cidadãos acabaram ficando com carros ilhados em vários pontos da cidade, sem poder voltar para suas regiões de origem. Entre as medidas anunciadas para amenizar os problemas na cidade estão a limpeza dos locais onde as águas baixaram para liberação das ruas para os veículos. 

Após o forte temporal que atinge São Paulo desde a noite de domingo (9), a previsão para os próximos dias é de tempo instável e de mais pancadas de chuva.

A frente fria se afasta lentamente, mas a circulação de vento em vários níveis da atmosfera ainda favorece a formação de nuvens carregadas. Chove em vários momentos do dia, o sol pouco aparece e ainda há risco de chuva moderada a forte, principalmente no leste e no norte paulistas. Há risco de raios e vendavais, segundo o Clima Tempo.

Mas, até o fim da semana, não há expectativa de outro temporal como o da última madrugada; porém, não se pode descartar o risco de alagamentos e deslizamentos de terra, principalmente na região metropolitana.

A temperatura também segue baixa para os padrões de fevereiro. Nesta terça (11), os termômetros oscilam entre 17°C e 21ºC. Na quarta (12), entre 17ºC e 23ºC. A Climatempo estima que o nível das chuvas devem ficar em 30 mm na terça e 8 mm na quarta.

Esse nível é bem menor do que o que causou estragos no estado. O Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) registrou 114 mm de chuva na estação meteorológica do Mirante de Santana, na zona norte da capital paulista, em 24h.

A explicação para o temporal com tanta água está na junção de uma frente fria e uma área de baixa pressão atmosférica —ventos que giram no sentido horário no hemisfério sul e provocam a formação de nuvens carregadas.

(Alfredo Henrique, Angela Pinho, Artur Rodrigues, Cristina Camargo, Emilio Sant'Anna, Fabiana Schiavon, Guilherme Seto, Isabella Menon, Jairo Marques, Julia Zaremba, Livia Marra, Matheus Moreira, Patrícia Pasquini, Regiane Soares, Thaiza Pauluze, Thiago Amâncio)

 
 
 
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