Descrição de chapéu Coronavírus

Quarentena por coronavírus bagunça e tira qualidade do sono de profissionais

Falta de horários de trabalho e ansiedade criam dificuldades para adormecer; veja dicas de especialistas

Nádia Jung
São Paulo

May Balbino, 28, nunca foi de dormir cedo. Antes da pandemia de coronavírus, ela costumava dormir entre 0h e 1h e acordava às 7h. Não eram tantas horas de sono, mas o suficiente para que ela se sentisse bem para trabalhar.

Agora, Balbino só fecha os olhos por volta das 6h, quando os primeiros raios de sol surgem, e acorda por volta de 12h. “E só consigo depois de assistir a muita série e vídeos de meditação guiada”, conta ela, que trabalha com customização de moda.

Antes, ela trabalhava em um ateliê na casa de um amigo com quem dividia o espaço. A situação atual fez com que tivesse de improvisar um canto de sua casa para fazer os moldes, executados agora de tarde e no início da noite.

Depois da pandemia, May Balbino, 28, só consegue dormir por volta das 6h
Depois da pandemia, May Balbino, 28, só consegue dormir por volta das 6h - Nadia Jung

O sono de muitas pessoas se bagunçou radicalmente na quarentena, com perda de qualidade. Renan Gazoto, 31, que trabalha em um café em um shopping na zona sul de São Paulo, tinha horário regrado: ia para a cama às 22h e acordava às 7h. “Precisava estar bem para trabalhar, por isso era muito rígido. Hoje estou de férias coletivas, o salário vai ser reduzido, pode ser que não receba mais depois de algum tempo. Perdi toda a disciplina. Tento fazer meditação para poder dormir.”

Depois de a empresa em que trabalha como auxiliar administrativa permitir o trabalho de casa, a rotina de Nastalia Barbosa da Silva, 20, mudou. Antes da quarentena, ela dormia por volta das 22h nos dias de semana, acordava cedo e corria antes de ir trabalhar. Agora o sono perdeu a regularidade.

“Estou dormindo por volta das 2h. A baixa qualidade no sono e a mudança de horário acabam interferindo no resultado do trabalho”, diz. A única coisa que não mudou nessa quarentena foi a forma que faz para dormir. “Gosto de ler livros até pegar no sono e, como estou com bastante tempo livre, estou optando por ler e estudar mais.”

Antes da quarentena, Renan Gazoto, 31, tinha horário regrado de sono
Antes da quarentena, Renan Gazoto, 31, tinha horário regrado de sono - Nadia Jung

Quando a Universidade Federal do Paraná (UFPR) suspendeu as aulas, o enólogo Julião Martinez, 32, que cursa mestrado em biotecnologia, viu seus horários virarem de ponta-cabeça e as horas de sono ficarem mais curtas. A rotina de pesquisas no laboratório e aulas presenciais faziam com que dormisse por volta de 0h e acordasse às 8h.

Com a universidade fechada, tem dormido às 4h e acordado por volta de 10h. A mudança dos horários e a falta de andar de bicicleta alteraram também os horários das refeições. O almoço, antes perto das 12h, agora pode ser feito no meio da tarde; o jantar ficou quase para a meia-noite. “Ganhei alguns quilos”, diz. A ansiedade também cresceu.

O psiquiatra Marcelo Paoli, especialista em sono, diz que diversos pacientes se queixaram de dificuldade para iniciar o sono por conta de ansiedade, medo e pensamentos relacionados às consequências da pandemia. “O distúrbio mais frequente que notei foi a insônia”, afirma.

Para os pacientes com problemas de sono que têm alguma relação com a pandemia, ele tem recomendado procurar manter uma rotina mais próxima possível da anterior à pandemia. “Sugiro manter o contato com amigos e familiares por telefonemas, videochamadas, além de evitar conversar excessivamente sobre a pandemia, assim como receber informações em excesso sobre ela. Sugiro também focar em problemas presentes e reais e tentar descartar preocupações sobre questões hipotéticas, haja visto as frequentes mudanças dos acontecimentos.”

Para o psiquiatra Clovis Zanettin Pereira, uma variável que altera a equação do sono é o tempo que se fica conectado às mídias virtuais. “Isso acarreta um aumento de estímulo, causando uma excitação cerebral, o que dificulta o relaxamento mental para adormecer. Ficar preso às séries que abundam nas telas e telinhas pode ter o mesmo efeito”, afirma.

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