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Sharon Sanz Simon

Como estimular a mente em tempos de pandemia?

Para enfrentar o isolamento, temos de nos esforçar para exercitar a mente

Sharon Sanz Simon

O confinamento em meio a uma pandemia pode causar desgastes psicológicos, e estimular a mente se torna ainda mais importante. Uma boa forma de iniciar esse processo é se perguntando: se você tivesse mais tempo, o que faria?

Por linhas tortas, o isolamento é uma oportunidade para aprender, exercer a criatividade e desfrutar de pequenos prazeres. Três pontos de apoio podem nos ajudar a estimular a mente, aumentando nossa capacidade de enfrentar os desafios do confinamento.

Família de Hong Kong joga jogo de tabuleiro durante o confinamento; atividades para o cérebro são importantes
Família de Hong Kong joga jogo de tabuleiro durante o confinamento; atividades para o cérebro são importantes - Aleksander Solum - 24.fev.20/Reuters

O primeiro: organize seu tempo e espaço.

O isolamento físico altera nossa percepção de tempo-espaço, pois perdemos marcos da nossa rotina —o transporte diário, o trabalho, a academia. Assim, temos de reinventar um cotidiano restrito à nossa casa. Nesse processo, o cérebro vai se ajustando a um “novo normal”, e estratégias de organização podem ajudar.

Evidências na área da neuropsicologia indicam que, sob estresse, é mais fácil se organizar “de fora para dentro”: criando meios de visualizar a sua programação. Crie um calendário da semana com compromissos de trabalho, estudos e outras atividades. Faça listas, deixe lembretes a você mesmo.

Essa “estruturação concreta” do dia a dia ajuda nosso cérebro a criar uma nova organização mental, aumentando o senso de previsibilidade e, por consequência, nossa eficiência, motivação e capacidade de lidar com a ansiedade. Aproveite e repense também os espaços da sua casa. Dá para mudar móveis de lugar? Jogar coisas fora? Criar ambientes mais funcionais?

Segundo ponto de apoio: aprenda coisas novas.

Novos estímulos aumentam a capacidade de adaptação do cérebro —a chamada neuroplasticidade. O confinamento nos obrigada a sair da nossa zona de conforto. Então, aproveite essa ruptura. Retome desejos antigos, ouse o inusitado, desenvolva habilidades —aproveite os recursos online como tutoriais e apps. Aprender algo é uma excelente maneira de focar atenção e dirigir energia mental a algo objetivo, significativo e prazeroso. Também, pode servir como distração para pensamentos ansiosos.

Invista em habilidades para além da vida profissional. A neurociência tem identificado benefício cognitivo de atividades de lazer, como leitura, tocar instrumentos, assistir a palestras, fazer quebra-cabeças, malabarismo, aprender idiomas e —claro— exercício físico.

Leve também seu cérebro para a academia mental: há diversas plataformas online de treino cognitivo com embasamento cientifico (como BrainHQ e CogMed), que podem beneficiar a atenção, o raciocínio lógico e a memória. Aproveite o universo cultural online: “vá” a uma opera no Metropolitan Opera House de Nova York, “visite” o Museu Van Gogh de Amsterdam, ou “assista” a uma aula da USP ou de Harvard.

E há fortes evidências de que, quando aprendemos mais de uma coisa, potencializamos nossa capacidade de aprendizado. Ou seja: voltar ao piano e estudar espanhol vão muito bem juntos.

Terceiro ponto: cuide do seu “cérebro emocional”.

Meditação e mindfulness podem trazer maior equilíbrio emocional, foco, concentração, criatividade e melhoria do humor. Não conhece? Tente. Já faz? Continue, se possível diariamente. Apps, áudios e sessões online podem ajudar. Preste atenção nas suas emoções —se for difícil falar sobre elas, escreva.

Sobretudo, não tenha medo de pedir ajuda. Exercite sua empatia e inteligência emocional se colocando no lugar do outro. A Covid-19 nos mostra que “um por todos e todos por um” não é clichê —é sobrevivência.

Procure as pessoas, motive amigos que não estão bem, pergunte ao vizinho idoso se ele precisa de algo.

Flexibilize seus pontos de vista e mostre aos outros e a si mesmo: estamos isolados, mas não sozinhos.
Em tempos de pandemia, estimule-se a ser a melhor versão de você mesmo.

Sharon Sanz Simon é neuropsicóloga, doutora em Ciências pela USP e pesquisadora na Universidade Columbia (EUA)

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