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Noite em abrigo anti-Covid termina em casório em Piracicaba

Casal em situação de rua se aproximou em local criado para frear pandemia; cidade em SP tem 1.074 casos

Adriana Cristina Ventura, 46, e Alexson Cardoso Silva, 31 no abrigo Lar das Ruas em Piracicaba, onde se casaram recentemente; na foto, eles estão de perfil, um roçando o nariz no nariz do outro, de olhos fechados, com ar apaixonado; ao fundo vê-se a estrutura do ginásio onde funciona o abrigo, com o teto curvo, que tem faixas de material transparente para entrar a luz

Adriana Cristina Ventura, 46, e Alexson Cardoso Silva, 31 no abrigo Lar das Ruas em Piracicaba, onde se casaram recentemente Eduardo Knapp/Folhapress

Americana (SP)

Eles se conheciam de vista, na vida das ruas de Piracicaba, mas nunca tinham se aproximado. Não podiam imaginar que a chance de concretizar o interesse platônico viria na pandemia.

Quando a prefeitura da cidade no interior paulista montou um abrigo no Ginásio Municipal, no Jaraguá, para proteger a população de rua da cidade durante a pandemia de coronavírus, Adriana Cristina da Silva Ventura, 46, foi uma das primeiras a se alojarem.

Dois dias depois, notou a chegada de Alexon Cardoso da Silva, 31. Observavam-se a distância até que o rapaz, achando o abrigo lotado e bagunçado, decidiu ir embora depois de uma semana por lá.

Adriana Cristina Ventura, 46, e Alexson Cardoso Silva, 31, já se conheciam de vista, mas, no abrigo, começaram a namorar; na foto, eles estão abraçados, do lado de fora do abrigo, ela por trás dele, e ambos sorriem; ao fundo, vê-se o teto curvo do ginásio
Adriana Cristina Ventura, 46, e Alexson Cardoso Silva, 31, já se conheciam de vista, mas, no abrigo, começaram a namorar - Eduardo Knapp/Folhapress

Quando percebeu a movimentação, Adriana conta que se alarmou. “Pensei: é o amor da minha vida, não posso deixar que isso aconteça.”

Era hora do lanche da tarde. Para chamar a atenção, ela deu um tapa na mesa. Ele se deteve no portão e voltou.

Foi quando ela o abordou. “Por favor, não vai embora, fica comigo”, disse. “Tá bom, eu fico”, respondeu Alexon.

Em um mês, se conheceram melhor; ele a pediu em namoro e depois em casamento, e então se casaram.
“Foi um amor incondicional. A gente dormiu conversando e acordou se amando”, conta Adriana. “E eu tirei na mega-sena”, fala, rindo, da diferença de idade dos dois.

“Depois de um mês no abrigo, quando já estavam ‘limpos’ [sem usar drogas], eles me perguntaram se tinha como eles se casarem”, conta o pastor Manoel Martins, da Igreja do Nazareno, coordenador do ginásio ao lado da pastora Berenice Costa e do pastor Rodrigo Bueno.

Com eles atuam 15 voluntários, além de funcionários das secretarias municipais de Saúde e de Assistência e Desenvolvimento Social.

“Dissemos: sim, podemos fazer esse casamento. Mas vamos conversar. Casamento não é brincadeira, vocês têm certeza? Eles responderam: ‘Nós queremos mudar de vida, pastor’”, conta Manoel.

O casamento foi organizado pelos voluntários, ligados a diferentes igrejas e religiões, que emprestaram aos noivos as roupas para a cerimônia, decoraram o local e fizeram uma festa surpresa.

A pastora Berenice celebrou a união. “Antes, conversei muito com eles sobre a relação, sobre o cuidado um com o outro. Conversei que não devem dormir bravos um com o outro, mas que deviam fazer as pazes e perdoar.”

No dia em que conversaram com a Folha, por chamada de vídeo, completavam um mês de casados. “Está sendo muito bom, estamos muito felizes. Agora vamos oficializar no civil,” disse Adriana. “Tem pessoas a quem a gente agradece imensamente, que apostaram no nosso relacionamento, na nossa melhora, no nosso futuro.”

O pastor Manoel está preparando o que chama de Casa de Compaixão sem Fronteiras e quer que o casal assuma a coordenação do local. A ideia é acolher os moradores de rua que saiam do ginásio e que estejam em condições de morar de maneira independente e procurar emprego.

A prefeitura ficou responsável por disponibilizar cursos profissionalizantes. “Eu já trabalhei em casa de recuperação, já sei lidar com esses nossos irmãos. Vai ser bom para mim”, afirma Alexon.

“Queremos ser um exemplo de que tudo tem jeito, tudo muda”, diz Adriana.

O ginásio foi adaptado em caráter emergencial e aberto para receber a população de rua em 6 de abril. Piracicaba contava, até esta quinta (11), 1.074 casos e 43 mortes.

No ginásio, o casal tem que dormir em alojamentos separados (masculino e feminino), pois quarto para namorados do abrigo esta ocupado por morador em quarentena; vemos a estrutura do ginásio fotografada do alto, de modo que se veem as camas e a divisão entre os alojamentos
No ginásio, o casal tem que dormir em alojamentos separados (masculino e feminino), pois quarto para namorados do abrigo esta ocupado por morador em quarentena - Eduardo Knapp/Folhapress

“Em uma semana estava pronto”, afirmou Fabiane Fischer, secretária municipal de de Assistência e Desenvolvimento Social. “Foi escolhido porque não há nenhuma pressa da prefeitura de desocupá-lo quando a pandemia acabar, pode ser usado por tempo indefinido até se construir outro local.”

“Eles são as pessoas mais fragilizadas da sociedade, recebem coisas das outras pessoas sem higienizar, então a possibilidade de serem contaminados é muito grande, além de poderem ser um veículo transmissor do vírus por não terem como se higienizar adequadamente”, diz.

Com capacidade para até 100 pessoas, o ginásio abriga hoje 46. Os moradores ficam em dormitórios separados, recebem quatro refeições diárias, têm atendimento médico, odontológico e psicossocial e podem participar de atividades físicas e culturais. Ninguém até o momento teve diagnóstico confirmado de Covid-19.

Outros 28 estão na Casa de Passagem, que antes da pandemia era um albergue para jantar, pernoite e café da manhã. Desde 27 de março, quem entra não pode sair.

“Muitos criticaram eles não poderem sair do abrigo. Mas ninguém foi obrigado. Na conversa os convencemos a ir. Mas hoje eu vejo que ficar na rua é um risco muito grande, e ninguém merece passar pela Covid”, afirma Fischer.

A secretária fala por experiência própria: contraiu o vírus e passou 28 dias doente, dos quais 3 hospitalizada.

“A gente acha que está distante. Foi muito sofrido, mas vejo que uma pessoa com saúde fragilizada sofreria muito mais. Hoje eu vejo uma necessidade muito maior de proteção e de isolamento social.”

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