Vendedor de respiradores de Doria é investigado por fraude milionária no Paraná

Empresário nega ligação com empresa investigada e diz que acusações da Promotoria são falsas; governo paulista nega contato com vendedor

São Paulo

A polêmica compra de respiradores chineses pela gestão João Doria (PSDB), por mais de R$ 500 milhões, teve a participação de um empresário brasileiro investigado pelo Ministério Público do Paraná sob a suspeita de participação em uma fraude no Detran paranaense, estimada em mais de R$ 120 milhões.

Basile George Pantazis foi alvo em março deste ano de uma ordem judicial de busca e apreensão em sua casa em Brasília, na operação batizada de Taxa Alta, e teve os bens bloqueados pela Justiça em maio, segundo o Gaeco do Paraná, grupo especial de combate ao crime organizado.

Outras 15 pessoas foram alvo desse bloqueio, entre elas o irmão do empresário, Alexandre Pantazis. Os irmãos são sócios da Infosolo Informática –empresa responsável pelo registro eletrônico de alienação de veículos no Paraná.

Foi também em março deste ano que a gestão Doria iniciou a negociação para compra de 3.000 respiradores chineses. A entrega dos aparelhos devia, inicialmente, ter sido concluída em maio, o que não ocorreu. A compra também é investigada pelo Ministério Público de São Paulo.

Carga de respiradores comprados pelo governo de SP em avião fretado da Azul
Carga de respiradores comprados pelo governo de SP em avião fretado da Azul - Divulgação

O atraso da entrega levou à repactuação do acordo para R$ 242 milhões e 1.280 equipamentos, uma adequação do valor adiantado pelo governo paulista em abril à intermediária Hichens Harrison, empresa para qual Pantazis trabalhava. Os equipamentos eram esperados para criação e ampliação de UTIs para enfrentamento da pandemia do novo coronavírus.

Conforme a Folha revelou, a Hichens Harrison pediu nova repactuação, estendendo a data final de entrega, porque o novo prazo vence na próxima segunda, dia 15, e, segundo a própria empresa, não deve ser cumprido na totalidade. O governo paulista diz ter notificado a empresa sobre os prazos.

Foi por intermédio de uma mensagem de Basile que o governo paulista recebeu a fatura (invoice) com os dados para depósito dos 30% de adiantamento, para que a compra dos respiradores chineses pudesse continuar. “Que Deus nos ajude a todos”, escreveu ele nesse email.

O empresário também foi um dos cobrados pelo governo paulista quando ocorreu o primeiro atraso na entrega. Basile é contatado por meio de dois e-mails, um particular e outro corporativo da Hichens Harrison.

Embora representantes da Hichens Harrison e do governo paulista neguem ligação com Basile no acordo, em depoimento ao Ministério Público nesta semana, o empresário afirmou que foi ele, sim, o responsável pelo elo entre o governo paulista e a Harrison. Disse ainda que vem acompanhando o processo de entrega dos equipamentos.

Basile e Alexandre Pantazis são conhecidos em Brasília como "irmãos gregos" e por sua ligação com a empresa Dismaf, que vendia bolsas para os Correios e acabou investigada no escândalo do mensalão.

Essa mesma empresa também passou a comercializar trilhos de trens para o governo federal, para obras da ferrovia Norte-Sul, cuja qualidade foi questionada pelo Ministério dos Transportes.

Basile foi tesoureiro do PTB nos anos 2000 e era próximo de Gim Argello, então senador do partido pelo DF, preso em 2016, em uma das fases da Lava Jato.

Até a semana passada, dos 1.280 respiradores comprados, a empresa havia entregue, do modelo AX400, 50 equipamentos em 29 de maio e 100 nesta terça (2); 150 deveriam ser entregues “nos próximos dias”, segundo a Hichens Harrison.

Já do modelo SH300, mais caro, foram entregues apenas 133 unidades, em 25 de maio. Pelo acordo firmado, deveriam ter sido entregues 750 equipamentos até 30 de maio e outros 170 esta quarta (10), o que não vai acontecer.

OUTRO LADO

O empresário Basile Pantazis nega ligação com a direção da Infosolo e diz ser “mero cotista” dessa empresa que tem “vários sócios”. O vendedor dos respiradores também afirma que as acusações do Ministério Público do Paraná são falsas.

“O empresário é mero cotista, sem função diretiva ou administrativa em uma empresa de tecnologia acusada pelo governo e pelo Gaeco do Paraná. As falsas acusações têm sido desmontadas, da forma correta, pela via judicial”, diz nota.

Basile diz não ter mais ligação com o PTB e que as irregularidades apontadas contra a Dismaf foram superadas na Justiça.

“Durante um breve período, ele foi vice-tesoureiro local do PTB no Distrito Federal e desfiliou-se da sigla em 2011. Basile nunca foi réu em nenhuma ação penal ou de outra natureza. As restrições impostas a ele pelos Correios foram anuladas pelo STF em ação já transitada em julgado. No caso dos trilhos, decisão do ministro Celso de Mello anulou as restrições impostas pelo TCU [Tribunal de Contas da União]."

A gestão Doria diz que as tratativas com a Hichens Harrison ocorreram por intermédio de Fabiano Kempfer, vice-presidente de operações e responsável pelo escritório da empresa no Brasil. Diz, ainda, que Basile Pantazins é "um representante comercial da Hichens no Brasil".

Questionado pelo jornal, o governo paulista não explicou, porém, por que há trocas de mensagens com o empresário, inclusive no momento da cobrança sobre o atraso da entrega dos equipamentos.

Já a Hichens Harrison diz que o acordo foi celebrado diretamente com o governo do Estado "sem intermediação de empresa brasileira". "Não há por parte da Hichens Harrison qualquer conhecimento sobre a atuação do senhor Basile Pantazis além da sua colaboração como "commercial advisory" [consultor comercial] com a nossa empresa", diz nota da intermediária.

Questionado por que motivo Basile tem um e-mail corporativo da empresa, a Hichens Harrison disse ser "uma praxe da companhia em fornecer a todos os colaboradores, nunca foi utilizado."

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