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Reabertura de comércio de rua em SP tem de lojistas preocupados a consumidores nostálgicos nas vitrines

Lojas de rua e as imobiliárias foram autorizadas a reabrir na capital paulista a partir desta quarta (10)

São Paulo

O primeiro dia de reabertura do comércio de rua na capital paulista, nesta quarta-feira (10), tem lojas adaptadas com marcação de fila, álcool e obrigatoriedade da máscara, corrida de comerciantes para comprar termômetro e até espumante para receber os clientes, que, nostálgicos, aproveitam para "dar uma espiada” nas vitrines.

Movimento do comércio na rua de comércio de luxo Oscar Freire, na zona oeste da capital paulista - Eduardo Anizelli/Folhapress

O aposentado Humberto de Oliveira, 74, saiu cedo de onde mora, na Cidade Ademar, no extremo da zona sul da capital, e demorou 40 minutos no metrô e no ônibus para chegar à Saúde, outro bairro da zona sul.
Ele foi comprar remédios em uma farmácia, mas acabou indo também a uma papelaria em busca de papel de embrulho, que vai usar para embalar caixinhas.

Na loja, a regra é esperar do lado de fora para a entrada de apenas dois clientes por vez.

“Agora parece que está melhorando. Vai normalizar”, afirma Humberto. “Mas vou voltar correndo. E eu estou me protegendo. Só vou em farmácia, açougue, mercado. É muita teimosia. Se todo mundo usasse [máscara], não teria essa mortalidade.”

A loja de sapatos e roupas Besni, na avenida Jabaquara, reabriu após três meses seguindo o protocolo à risca: fechou a entrada para diminuir o número de clientes, marcou o distanciamento nos caixas, mede a temperatura de quem entra e oferece álcool em gel, luvas e até meias descartáveis para os sapatos.

A limpeza foi reforçada e ainda não é possível provar roupas, explica o gerente Rafael Gomes, 27. Nos primeiros minutos de portas levantadas, três clientes entraram na loja.

Olhando a vitrine, estava outra senhora que não quis conversa. Disse apenas que saiu para pagar um boleto e aproveitou para “dar uma xeretada” nos sapatos.

Av. Paulista

Outras lojas, no entanto, ainda não seguem as regras. Na Americanas da avenida Paulista, no centro, os clientes entram sem contagem ou álcool em gel. Há marcação do chão na fila, mas o espaço estreito entre as prateleiras tornou difícil manter uma distância de 1,5 m.

Na pequena Sonho D’Bolsa, na avenida Brigadeiro Luís Antônio, a gerente Amanda Vignati, 41, corria atrás de um termômetro para começar a medir a temperatura dos clientes.

“Algumas farmácias não têm mais, estou procurando para comprar”, diz ela, que estava na expectativa da reabertura. “Continuei pagando aluguel sem vender. Mas o movimento está fraco, abrimos há 1h30 e não entrou nenhum cliente, nem só pra dar uma olhada.” A ideia é fazer promoção para chamar a atenção de quem passa.

Já a esteticista Vanda Ribeiro, 62, viu os preços aumentarem com a volta do comércio. Ela foi até a avenida Paulista atrás de itens para reabrir sua clínica de design de sobrancelhas na próxima segunda-feira (15).

“Aumentaram o valor da tinta. Um pacote de luva, que era R$ 13, agora está a R$ 38. Não comprei”, diz ela, para quem as lojas já deveriam ter reaberto. “A gente vai morrer de fome. Sem auxílio [emergencial] e sem conseguir financiamento de banco, estou vivendo com minhas reservas. Na galeria onde trabalho, metade já entregou o ponto.”

Tem também estabelecimento que optou por não abrir ainda porque a liberação veio antes do previsto. Uma das lojas Hering, que vende roupas, se preparava para voltar a funcionar na segunda-feira e não conseguiu avisar os funcionários com antecedência ou providenciar os itens de higiene. A nova decisão foi de começar a atender o público nesta sexta.

Nas ruas, a maioria das pessoas usam máscaras. Mas há quem deixe o item no braço, no pescoço, e quem improvise: uma moça colocou um sutiã no rosto para simular a barreira de proteção.

OSCAR FREIRE

No principal endereço do comércio de luxo da capital, a rua Oscar Freire, apenas metade das lojas abriram as portas nesta quarta-feira.

Na Yondu, de decoração e roupas, uma mesa do lado de fora oferece aos clientes álcool em gel, máscaras e espumante —no copo descartável. "A gente gosta de fazer um mimo, servir champanhe ou chazinho", diz a responsável pela curadoria da loja, Alessandra Martins, 48.

Ela afirma que a clientela não caiu, está mais exclusiva. "Surpreendentemente, o movimento está ótimo. Muita gente quer repaginar a casa, agora que passa mais tempo nela. Nosso atendimento está mais personalizado", conta.

A empresária Tatiana Cipriano, 36, saiu para passear na rua com a filha de três anos. "Eu moro aqui perto, vim dar uma espiada, comprar roupinha para ela. Tenho medo de shopping, que é fechado", diz.

Há lojas oferecendo brindes para quem realizar uma compra, várias com placas anunciando que cumprem as recomendações de saúde. Algumas têm dispositivo para contar o número de pessoas que entram.

Já outras estão receosas de abrir. É o caso da Lupo, que vende meias. "Não me sinto segura para fazer os funcionários se deslocarem de transporte público", diz Denise Parse, 58, enquanto remonta a loja. Ela pretende voltar a atender presencialmente, além do WhatsApp, na segunda-feira.

Parse é uma das poucas lojistas ouvidas pela Folha a não comemorar a permissão. "A gente precisa primeiro cuidar da nossa saúde."

Também há quem ainda se prepare para voltar, como o luxuoso salão de beleza L'Officiel III. Pelas regras do governo, salões só podem ser reabertos na fase amarela —a capital está na anterior, laranja.

Na porta do estabelecimento de três andares, foi instalado um box neutralizador preventivo. Todos deverão passar pelo vapor de limpeza e dar uma girada antes de entrar. O item custou R$ 35 mil.

"Estávamos atendendo na casa das clientes. Pretendemos abrir na terça-feira, só com hora marcada. Embalamos as toalhas lavadas uma a uma, separamos as cadeiras, a equipe de limpeza está a todo vapor", afirma o sócio Nando Ardessore, 44.

REABERTURA GRADUAL

O comércio de rua e as imobiliárias foram autorizados a reabrir na capital paulista a partir desta quarta. Shoppings devem ser autorizados a abrir a partir de quinta (11).

O comércio pode funcionar de 11h às 15h. Já as imobiliárias podem funcionar por quatro horas, desde que abertura e fechamento não coincidam com o horário de pico. O objetivo das medidas é não sobrecarregar o transporte público.

A capital paulista se encontra na fase laranja de reabertura, que permite o funcionamento desse tipo de comércio. A reabertura, porém, depende de autorização por parte da prefeitura, após análise de protocolos setoriais.

Para conseguir reabrir, segundo a prefeitura, os locais comprometeram-se com "medidas de distanciamento social, higiene, sanitização de ambientes, orientação dos clientes e dos colaboradores, compromisso para testagem de colaboradores e medição de temperatura dos clientes, horários alternativos de funcionamento, redução do expediente, sistema de agendamento para atendimento, protocolo de fiscalização e monitoramento do próprio setor (autotutela)".

O prefeito Bruno Covas (PSDB) afirmou que a prefeitura continuará usando os 2.000 fiscais das subprefeituras para verificar o cumprimento dos protocolos, mas que conta com as entidades setoriais para fiscalizar seus associados.

A expectativa na gestão Covas é de que a cidade possa avançar na classificação do governo João Doria (PSDB), passando para a fase amarela, que permite outras atividades, como bares e salões de beleza.

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