Tensão na PM da Bahia passa por estresse na tropa e pressão de base bolsonarista

Após morte de soldado que atirou em colegas no Farol da Barra, radicais incitam início de motim

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Salvador

O cenário de tensão na Polícia Militar da Bahia, que ganhou corpo neste domingo (28) após a morte do soldado Wesley Soares, em Salvador, tem como pano de fundo o estresse da tropa, as mortes por Covid-19 na corporação, além de insurgências internas que partem de uma base bolsonarista.

Soares foi baleado após passar cerca de quatro horas dando tiros para o alto e gritando palavras de ordem no Farol da Barra, um dos principais pontos turísticos de Salvador.

Por volta das 18h30, ele atirou com um fuzil contra policiais que negociavam a sua rendição, que revidaram. Socorrido, o soldado não resistiu aos ferimentos e morreu. De acordo com a PM, ele enfrentava um surto.

Um dos pontos de convergência entre o comando e a base da tropa da Polícia Militar baiana é que os policiais enfrentam um cenário de estresse que foi potencializado pela pandemia da Covid-19.

“O problema da saúde mental se reflete na sociedade como um todo, e os policiais fazem parte disso”, disse o comandante geral da PM da Bahia, coronel Paulo Coutinho. Ele destaca que a PM baiana tem cerca de 50 psicólogos à disposição dos cerca de 32 mil policiais.

Este não seria o único caso recente de surto na tropa baiana. Há menos de uma semana, outro policial cortou os próprios pulsos durante uma ação de rotina em Salvador e foi socorrido pelos colegas.

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Policial dá tiros para o alto e grita palavras de ordem no Farol da Barra, em Salvador - Governo da Bahia/Divulgação

A pandemia também fez aumentar nível de estresse da tropa, segundo policiais ouvidos pela Folha. Levantamento da PM da Bahia, aponta que 67 policiais morreram de Covid-19 desde o início da pandemia, dentre policiais da ativa, reserva e reformados.

No caso específico de Soares, contudo, chamou atenção o fato de o policial ter saído da cidade de Itacaré e percorrido 250 km até a Salvador para iniciar seu protesto em um local que é um dos símbolos da cidade, na véspera do aniversário da capital baiana.

O soldado tinha o rosto pintado de verde e amarelo, jogou uma bicicleta e material de trabalho de ambulantes do mar e disparou tiros para o alto enquanto falava sobre honra e dignidade dos policiais.

Esses elementos levaram parte da base bolsonarista na polícia, além de políticos aliados ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido), a defender uma narrativa de que o policial protestava contra as medidas de restrição adotadas pelo governador Rui Costa (PT) para evitar a disseminação do coronavírus.

No comando da tropa, contudo, a avaliação é de que o caso não teve nenhuma relação com política. “São especulações que não têm fundamento. Foi um evento de natureza unicamente policial”, disse o comandante geral da PM-BA.

Ainda assim, uma parte mais radical da tropa, formada principalmente por policiais da reserva e reformados, defendeu o início de um motim dos policiais.

Um deles foi o deputado estadual Soldado Prisco (PSC), presidente da Aspra, entidade que representa os soldados e praças da Bahia. Momentos após Soares ter sido baleado, ele defendeu que era hora de a tropa parar.

Prisco liderou os motins da Polícia Militar da Bahia de 2012 e 2014, foi expulso da PM e chegou a ser preso após a insurreição. Em 2019, chegou a convocar e aprovar em assembleia um novo motim, que acabou tendo baixa adesão da tropa.

Na política, ele disputa a base eleitoral ligada à Polícia Militar com o deputado estadual Capitão Alden (PSL), eleito na esteira da onda bolsonarista em 2018.

Ambos estavam juntos nesta segunda-feira (29) em um protesto que aconteceu em frente à governadoria, que teve adesão de entregadores de aplicativo que cobravam justiça por um colega que morreu atropelado no fim de semana.

Na noite de domingo, policiais protestaram em frente ao Hospital Geral do Estado, para onde o soldado Soares foi levado ainda vivo, com gritos de “a PM parou”. O início de um novo motim, contudo, foi descartado por Prisco.

O comandante da PM também descartou uma possível paralisação dos policiais: “Não há possibilidade de greve. Prestamos um serviço extremamente essencial para a comunidade”, afirmou.

Prisco defendeu Soares e classificou a morte do soldado como um “brutal assassinato”. Para o deputado, o soldado – que estava armado com uma pistola e um fuzil – fez uma manifestação pacífica, era exemplar e vinha sofrendo perseguições em seu batalhão.

“Em nenhum momento, ele ameaçou alguém, atirou contra alguém” disse Prisco. Vídeos gravados por emissoras de TV da Bahia, contudo, mostraram o momento em que o soldado atira contra os colegas.

O comando da PM afirmou que Wesley era um policial exemplar e que não respondia a nenhuma infração disciplinar.

Na cúpula do governo baiano, houve preocupação de que o caso desencadeasse uma onda de hostilidade contra os governadores em âmbito nacional, amparada por uma narrativa baseada em informações falsas.

A avaliação é que houve uma tentativa de uma base mais radical, ligada a Bolsonaro, de politizar o caso e nacionalizar o seu impacto, com estímulo de ações mais radicais típicas de regimes totalitários.

“O final de semana foi de ataque a mim e a governadores e prefeitos do Brasil inteiro, mas não iremos nos intimidar com mentiras e ameaças”, afirmou o governador Rui Costa, em vídeo divulgado nesta segunda.

Um dos casos mais graves aconteceu no Ceará, onde o governador Camilo Santana (PT) foi ameaçado de morte em um grupo de aplicativo de mensagens que reunia críticos a medidas de isolamento social.

Na tarde desta segunda, governadores de 16 estados divulgaram uma carta na qual manifestaram indignação frente à “onda de agressões e difusão de fake news que visam a criar instabilidade institucional nos estados”.

Os governadores criticaram agentes políticos espalham mentiras, fomentam tentativas de cassação de mandatos e tentam manipular policiais contra a ordem democrática, violando os princípios da lealdade federativa.

Em relação ao cenário de estresse e problemas de saúde mental na tropa, a avaliação do governo baiano é de que o tema precisa de maior atenção. Sobre a pandemia, o governo sinalizou para uma possível antecipação da vacinação para policiais militares e civis, guardas municipais e trabalhadores da educação.

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