Assassinato de 5 jovens segue sem solução há 20 anos no interior de São Paulo

Corpos foram achados de bruços, com cortes profundos na cabeça e na nuca, em Teodoro Sampaio

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Laís Seguin
Piracicaba (SP)

Todo ano, no mês de julho, Fátima Pires de França, 60, tinha o compromisso de sair em passeata com mais quatro mulheres que compartilhavam da mesma dor. Em 2013, porém, decidiram encerrar o protesto anual. Elas se cansaram de esperar por uma solução na Justiça para a morte dos cinco filhos delas há 20 anos, em Teodoro Sampaio, no extremo oeste de São Paulo. ​

Até hoje, na cidade do interior de São Paulo, não se sabe quem foi o autor das mortes e o motivo. O caso foi arquivado pela Justiça em 2013, sem nenhum autor indiciado. A arma utilizada nunca foi encontrada.

O crime ocorreu em 2001. Achados de bruços, em uma fazenda ao lado do cemitério local, os corpos tinham cortes profundos na cabeça e na nuca —não se sabe se de facão, machado ou foice.

Três policiais perto de corpos em uma área rural
Policiais no local onde cinco jovens foram achados mortos de foma violenta em Teodoro Sampaio (SP) - Reprodução/TV Fronteira

Carlos Henrique de França, 20, Luciene Medeiros, 23, Lucicleide Lima de Souza, 17, Wilson Alves da Silva, 19 e Jaqueline Santos Zacarias, 20, estudaram juntos na escola e moravam próximos uns dos outros na cidade, que tem hoje 23 mil habitantes.

Em julho deste ano, o crime prescreveu, ou seja, ocorreu a perda do direito do Estado de punir o autor pelo seu ato, pois não houve o exercício da ação judicial dentro do prazo legal estipulado por lei.

rosto 3x4 de cinco jovens mortos
As vítimas Carlos Henrique de França, Jaqueline dos Santos Zacarias, Lucylene Medeiros de Souza, Lucicleide de Lima Souza e Wilson Alves da Silva - Arquivo Pessoal

Para as famílias das vítimas, a prescrição do caso dá um "misto de tristeza e revolta". “É um lugar muito pequeno. Não é possível que esse crime não tenha condições de ser desvendado”, diz Fátima, mãe de Carlos. Para ela, soa como uma desistência. "Foi o resultado de uma sequência de erros, como a demora nas buscas pelos responsáveis."

Mãe de Wilson, Francineide Lacerda diz que seria um alívio saber quem matou o filho dela. “A minha esperança é em Deus, porque esperança nos homens eu não tenho. Eu tenho comigo que Deus vai mostrar.”

Os corpos foram encontrados a 4 km da cidade, por um trabalhador rural. Estavam espalhados dentro de um raio de 1 km.

Os cinco jovens estavam desaparecidos havia uma semana, segundo queixa registrada pelos familiares na delegacia local.

O delegado Luciano Paiva instaurou o inquérito e o promotor de Justiça Marcelo Creste foi o primeiro membro do Ministério Público Estadual a atuar no caso.

A suspeita inicial da polícia era de que o grupo tinha saído, no final de semana, para acampar atrás do cemitério da cidade. O local era conhecido como ponto para o uso de drogas. À época, a polícia afirmou que todas as vítimas eram usuárias de drogas.

As duas mães ouvidas pela reportagem negam que os filhos consumissem entorpecentes. Fátima e Francineide relatam que seus filhos eram calmos e obedientes e que não se envolviam em conflitos.

Entre as possíveis causas para o crime investigadas pela polícia estavam rituais de magia negra, envolvimento com o tráfico e até mesmo o conflito agrário que mantinha o município em estado de tensão constante —a região do Pontal do Paranapanema, no oeste paulista, foi, principalmente a partir dos anos 1990, palco de embates entre sem-terra e fazendeiros.

Nenhuma dessas hipóteses foi confirmada. As vítimas não possuíam antecedentes criminais, então segundo o promotor Creste, “não apresentava razão para uma eventual vingança, ou represália''. "Os corpos, encontrados em um local ermo, distante, fez com que não houvesse testemunhas que permitissem seguir algumas pistas, o que dificultou os trabalhos.”

detalhe de pessoas em passeata com cartazes
Passeata em 2003 em protesto pela morte de cinco jovens com golpes na cabeça e pescoço - Reprodução/TV Fronteira

Dois homens da cidade chegaram a ser presos em 2009 por suspeita de participação na chacina, mas foram liberados no ano seguinte. Um laudo, que foi entregue pelo perito que confrontou a cena do crime com o depoimento que embasou a prisão, foi fundamental para que o delegado que cuidava do caso, Marcos Vanderlei Zamae, voltasse atrás.

Em depoimento à polícia, um dos suspeitos negou ter matado os jovens, mas afirmou ter presenciado o crime. Durante a reconstituição do crime, porém, ele mudou a versão e disse ao delegado que nunca havia presenciado as mortes.

Mesmo assim, as informações passadas foram confrontadas com a perícia realizada na época da chacina. Segundo o novo laudo, a descrição feita por ele não condizia com a cena encontrada. Com esse resultado em mãos, o delegado ouviu novamente o suspeito, que voltou a negar qualquer participação nos assassinatos. Por isso, ele e o outro homem que estavam presos foram soltos.

A polícia pediu o arquivamento do caso no ano de 2013. Segundo o delegado de assistência policial, Sthéfano Rabecini, essa atitude pesa como uma derrota para a polícia.

“O sentimento do policial é sempre o de resolver. O policial quer esclarecer o caso, quer prestar contas à sociedade. Mas, infelizmente, neste caso entendemos que não há mais como prosseguir, em razão do esgotamento do que tudo que foi realizado. Entrevistamos familiares, amigos, possíveis testemunhas do caso. Acreditamos que realizamos todas as diligências possíveis.”

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