Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Ministro da Educação é do bem, mas é limitado, diz ex-presidente do Inep

Vélez havia dito que Rodrigues saiu porque 'puxou tapete' dele; diretor do Inep pede demissão

Paulo Saldaña
Brasília

No meio de uma disputa interna que já rendeu 16 demissões no MEC (Ministério da Educação), a saída de Marcus Vinicius Rodrigues da presidência do Inep (Instituto Nacional de Estudos Educacionais) é a primeira com o caráter de punição. 

Rodrigues, porém, diz que a decisão de suspender a avaliação de alfabetização, fato que valeu seu desligamento na terça-feira (26), não veio dele, mas do próprio ministério.

Ele critica a falta de projeto da pasta e o próprio ministro. Segundo ele, Vélez é limitado em gestão e educação. Na Câmara, Vélez disse nesta quarta (27) que Rodrigues foi demitido porque "puxou o tapete" dele. Segundo ele, a suspensão da prova teria sido feita sem seu consentimento.

Também nesta quarta, o diretor de Avaliação da Educação Básica do instituto, Paulo Cesar Teixeira, responsável pelo Saeb e Enem, pediu demissão em apoio a Rodrigues.

O cancelamento da prova de alfabetização consta em portaria publicada na segunda-feira (25) com as regras para o Saeb, avaliação federal usada para o cálculo do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação). Toda a portaria foi tornada sem efeito na terça. Ligado aos militares, Rodrigues é professor da FGV. O general Francisco Mamede de Brito Filho deve assumir o cargo.

O ex-presidente do Inep, Marcus Vinícius Rodrigues
O ex-presidente do Inep, Marcus Vinícius Rodrigues - Marcelo Camargo - 14.jan.19/Agência Brasil

O ministro insistiu que o senhor não o avisou, eximiu o secretário de Alfabetização, e declarou que o senhor "puxou tapete" dele. Como o senhor encara essa situação?

O ministro tem o secretário de alfabetização [Carlos Nadalim], que além de ter participado de todas as reuniões, mandou um ofício. O ministro chegou a citar o ofício? Há três semanas a gente vem discutindo a portaria com várias reuniões no MEC. Essa decisão foi feita no MEC, não no Inep. O Inep avalia, mas quem decide o que eu vou mediar e avaliar é o MEC. Terça-feira passada [dia 19] a minuta da portaria ficou pronta e foi apresentada a mim. Eu senti falta da alfabetização e questionei porque o [o ex-secretário-executivo Luiz Antonio] Tozi falava muito sobre isso. A equipe questionou e ele [Nadalim] disse que era aquilo mesmo. Como sempre faço, pedi por escrito e o Nadalim fez o documento. Ele diz no documento que vai fazer a medição na alfabetização em outro momento. Dentro das obrigações do presidente do Inep, não preciso apresentar minhas portarias para o ministro. Eu não puxei o tapete de ninguém. Não tenho o perfil de puxar o tapete de ninguém. Quem está puxando o tapete é o próprio ministro diante da sua limitação em gestão.

O senhor entende que foi demitido injustamente?

Minha demissão ocorreu e penso que foi até oportuna. Oportuna porque a minha demissão pode fazer com que os governantes abram os olhos para o que está sendo feito na educação do Brasil e para os perigos que estamos cometendo com a gestão do ministro Ricardo. O que eu estou fazendo é a busca da melhoria do país. Com minha saída, posso explicitar os problemas que toda mídia e a sociedade brasileira estão sentindo desde janeiro.

Como o senhor vê o ministro?

O ministro Ricardo é uma pessoa do bem, com muita boa vontade, mas apresenta muitos limites no que diz respeito à gestão e também à sua formação em educação. Não é educador nem gestor. Penso que, com o presidente Bolsonaro e com este governo pelo qual trabalho desde julho [de 2018], poderíamos ter buscado um nome técnico ou um gestor para que pudéssemos de fato melhorar a educação do Brasil.

O MEC tem um projeto ou o senhor vê uma paralisia de ações?

Se tem ações, eu não conheço. Sei que há ações dentro do FNDE [Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica], na EBSRH [Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares], muitas dentro do Inep. De ações do ministério que conheço só tem o plano de alfabetização [minuta do plano indica preferência a um método de alfabetização, o que foi criticado].

O professor Ricardo é muito honesto. A Lava Jato da Educação [um protocolo interministerial de intenções lançado pelo governo] é muito importante, temos que combater a corrupção. Sou a favor. Mas o maior desafio é criar métodos de gestão para evitar que novas ações de corrupção venham a acontecer. Se você é um gestor, não dirige olhando para o retrovisor. Temos que olhar para frente. Porque se continuar dirigindo pelo retrovisor não vamos atingir lugar nenhum.

Há vários grupos dentro do MEC, de militares, ao qual o senhor se associa, técnicos e de seguidores de Olavo de Carvalho. Isso tem atrapalhado?

Não estamos falando em conhecimento. Sejam os alunos de Olavo, do Ricardo, ou de quem quer seja, poderíamos ter trabalhado juntos se tivéssemos uma direção. A partir do momento que não temos planejamento, plano diretor, ações definidas e focadas, qualquer grupo que esteja inserido não vai apresentar resultados.

O problema não são os grupos.

Se você verificar em algumas escolas do país com sucesso, verá que muitas delas sãos comandadas por gestores. Porque o gestor tem que ter uma visão macro. Isso falta ao professor Ricardo, apesar de sua bondade, de ser uma pessoa de bem.

Qual perfil das pessoas que o ministro apresentou para sua equipe?

Toda a direção do Inep que o ministro apresentou eu barrei. Não quero falar em nomes. Mas todos tinham bom currículo, mas postura ideológica acentuada. E postura ideológica acentuada não é compatível com gestão. Foi o professor Marcus Vinicius que impôs a diretoria [o governo chegou a nomear Murilo Resende, seguidor de Olavo de Carvalho, para uma diretoria do Inep mas voltou atrás após má repercussão]. 

Com a portaria do Saeb suspensa neste momento, o senhor acredita que há risco para a realização da avaliação das escolas neste ano?

Ate sexta-feira passada [22] tudo estava sob controle. Mas penso que ações não planejadas e a falta de comunicação que causou esse problema tendem a atrapalhar. Não posso dizer [se haverá impacto] porque estou fora. No entanto, existe um ponto mais grave. O que aconteceu foi muito ruim para o clima do Inep. Fiz reuniões com todos os funcionários, criei um clima bom e as notícias que tenho é que muitos funcionários estão chateados e preocupados. Isso pode trazer no momento seguinte resultados ruins.

Na comissão de Educação, parlamentares defenderam a saída do ministro. Há clima para ele continuar?

Quem pode responder é o presidente Bolsonaro.

O senhor pretende continuar no governo?

Eu trabalhei por esse governo desde julho passado, participando das reuniões com vários profissionais inclusive militares. Não descarto a participação no governo em um momento futuro, mas agora não. Eu acredito no governo. Vou até contribuir mais do que se estivesse dentro do Inep.
 

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