Descrição de chapéu Governo Bolsonaro Enem

Governo planeja Enem totalmente digital até 2026

Ministro da Educação diz que Bolsonaro não leu a prova deste ano, como havia prometido

Paulo Saldaña
Brasília

O governo Jair Bolsonaro (PSL) vai iniciar no próximo ano um projeto-piloto para aplicação do Enem em computadores. O plano é migrar totalmente para o modelo digital até 2026.

O objetivo é alcançar uma redução de custos de logística e permitir mais de uma aplicação do Enem ao longo do ano, a exemplo do que ocorre com avaliações internacionais.

Em 2020, o projeto-piloto ocorrerá em 15 capitais para um público de 50 mil candidatos. A aplicação do Enem totalmente digital ocorrerá em dois domingos, nos dias 11 e 18 de outubro, antes da aplicação regular, em papel, já marcada para os dias 1 e 8 de novembro de 2020.

 

No ano seguinte, haverá duas aplicações digitais no ano e, entre 2022 e 2025, quatro oportunidades em computador. Nesse período, de 2020 a 2025, haverá sempre a aplicação em papel concomitantemente ao modelo digital.

Os candidatos poderão escolher inscrever-se para prestar a prova no computador, caso haja oportunidade próximo à sua residência. Somente em 2026 o Enem ocorre digitalmente de forma definitiva, de acordo com o plano do governo.

"Até 2026, a prova vai ser muito parecida com o que é hoje, mas toda ela vai ser no computador, assim como ocorreu com as transformações lá de fora", disse o ministro da Educação, Abraham Weintraub, em entrevista coletiva nesta quarta-feira (3) na sede do MEC, em Brasília.

"Há cem anos a gente faz exame do mesmo jeito, em papel. Queremos fazer como é feito lá fora".

O plano é que, consolidada a transição, haja locais credenciados para a realização do exame, como ocorre em avaliações como o SAT, exame de seleção para universidades nos EUA. Assim, o exame poderia ocorrer em vários momentos do ano.

Por enquanto, entretanto, o candidato não terá a oportunidade de fazer duas provas no mesmo ano. Haverá a possibilidade de reaplicação da prova caso haja problemas no digital.

Quando o formato atual do Enem foi lançado, em 2009, e a prova passou a ser usada como vestibular para as universidades federais, já havia o plano de digitalizar o exame. A dificuldade para ter questões em número suficiente emperrou a operação.

No Enem, os itens são pré-testados para garantir níveis de dificuldade controlados. Dessa forma é possível a aplicação de várias provas no mesmo processo seletivo com o mesmo grau de complexidade.

Esse processo garante a comparabilidade das provas e a garantia de que os candidatos concorram em condições de igualdade, com provas com a mesma dificuldade, mesmo que aplicadas com questões e em momentos diferentes.

O desafio de produção de itens já existe hoje, com apenas um Enem ao ano. Para que seja viável a realização de mais uma prova no ano, é necessário que o MEC tenha um volume muito maior de itens.

A pré-testagem dos itens envolve um complexo processo de produção. A produção de uma única questão prevê dez etapas, que envolvem desde o treinamento de professores à revisão dos itens por parte de especialistas das áreas de conhecimento. 

Esse processo faz parte do modelo matemático adotado pelo Enem, chamado TRI (Teoria da Resposta ao Item). Além de garantir a comparabilidade, ele permite que a nota dos participantes seja calculada a partir de quais questões estão corretas, não apenas a quantidade.

O pré-teste é a aplicação de um conjunto de itens a uma amostra populacional com características semelhantes à do público-alvo do Enem. Essa é uma forma empírica de avaliar parâmetros, tais como a dificuldade, o grau de discriminação e a probabilidade de acerto ao acaso da questão. 

Outro desafio é garantir locais com computadores suficientes para o volume de inscritos no Enem, inclusive em locais mais isolados. Neste ano, a prova ocorre em 1.725 municípios.

Segundo professor Luiz Cláudio Costa, ex-secretário executivo do MEC no governo Dilma Rousseff (PT), a migração é necessária e viável, embora haja desafios de adaptação. 

"A quantidade de itens é sempre um problema, seja no papel ou na computação, mas tem vantagens porque o exame pode ser aplicado mais de uma edição ao longo do ano", diz. "É necessário ter cuidado sempre para não prejudicar aquele aluno de escola pública que não tem acesso à informatização e pode ter dificuldade [de fazer uma prova em computador]".

A comparabilidade das provas também não é trivial, embora possível. No governo Dilma, uma das ideias era iniciar o processo no Enade (exame federal para concluintes do ensino superior). "É um desafio porque se há um rendimento diferente [entre os grupos que fazem no computador e no papel] não pode comparar", diz Costa, que foi presidente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), órgão do MEC responsável pelo Enem.

No novo formato, a redação também será feita nos computadores. Segundo técnicos do Inep ouvidos pela Folha, em condição de anonimato, ainda há questões técnicas em aberto, como a comparabilidade de resultados e garantia de infraestrutura para aplicação do exame. Neste ano, os inscritos somam 5,5 milhões.

Segundo Alexandre Lopes, presidente do Inep, a mudança deve reduzir os custos do exame, hoje em torno de R$ 500 milhões. A aplicação do projeto-piloto em 2020 vai custar R$ 20 milhões.

O modelo digital deve, segundo Lopes, permitir provas adaptadas à reforma do ensino médio, que prevê que os alunos escolham seus itinerários formativos ao longo da etapa. Na inscrição, o aluno já vai poder escolher a prova de acordo com o itinerário que cursou.

A reforma está em implementação nos estados e prevê cinco itinerários, caso haja oferta na escola: matemática, linguagens, ciências da natureza, ciências humanas e ensino técnico. Hoje, a prova do Enem tem quatro partes de 45 questões cada. Com a mudança para o digital, há a possibilidade de cada parte da prova ser reduzida para 23 questões. 

Os integrantes do MEC afirmam que é possível garantir a segurança do exame no formato digital. "Os ataques à segurança já existem, hoje. E a PF vem desbaratando quadrilhas que tentam fraudar o Enem. A segurança que temos em papel será garantida no digital", disse Lopes.

O Enem é a porta de entrada para praticamente todas as universidades federais. Estaduais, como a USP, selecionam parte dos alunos a partir do resultado da prova.

Durante a eleição passada, o presidente Bolsonaro colocou em dúvida a segurança do sistema de urnas eletrônicas.

Questionado se havia no governo o mesmo temor com relação ao Enem digital, Weintraub disse que o Brasil tem tecnologia para garantir a segurança e que a situação é diferente. "A pessoa pode receber a prova inteira, já corrigida, assim que der o enter final", disse.

"O Brasil tem tecnologia para isso [para garantir a segurança], o sistema bancário é todo eletrônico e não existe fraude no sistema eletrônico. É importante ter em mente que hoje só parte da aplicação é analógica, depois tudo volta para o computador."

O Enem deste ano, marcado para novembro, continuará todo em papel. O ministro Weintraub disse que o presidente Jair Bolsonaro não leu a prova antes, como havia prometido, e nem deve ler antes da aplicação.

"Eu não li, o presidente não leu, ninguém aqui leu", diz. "Todo mundo tem meta e responsabilidade e cada um é responsável. Foi passado orientação para acabar com qualquer viés ideológico na elaboração de provas. As pessoas que não perfomarem vão ser desligadas".

Neste ano, o Inep criou uma comissão que fez um pente fino ideológico no banco de itens do Enem.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.