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Celular, rede social e sala de aula não precisam ser inimigos

Apesar de polêmicas e dúvidas, professores conseguem inserir esses recursos no processo de aprendizagem dos alunos

Curtir, comentar e compartilhar são três verbos que fazem parte do cotidiano de todos nós. Apesar de muitas plataformas e aplicativos exigirem mínimo de idade para a criação de uma conta - para entrar no Instagram, por exemplo, é preciso ter pelo menos 13 anos -, crianças e jovens têm contato sistemático com o conteúdo publicado nas mais diversas redes sociais, participando ativamente delas por meio de seus smartphones - ou dos aparelhos dos seus pais e mães -, dentro e fora da escola.

Crianças brincam com smartphones - JackF/Fotolia

Alguns dados da Pesquisa TIC EDUCAÇÃO 2018, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) com base em entrevistas com a comunidade escolar das redes pública e privada, mostram como o celular vem sendo manuseado como recurso pedagógico. Considerando apenas as escolas urbanas, o estudo aponta que 58% dos professores de escolas públicas urbanas usam o telefone para desenvolver atividades com seus estudantes, mesmo que a unidade de ensino não tenha uma boa conexão - 51% deles afirmam utilizar suas próprias rede 3G e 4G para isso. 

O uso do celular e das redes sociais dentro das escolas é alvo de debates há anos, tanto no Brasil como em outros países. Em 2018, a França aprovou a proibição de aparelhos com conexão à internet em todos os espaços escolares, com o objetivo de coibir qualquer tipo de distração em sala de aula. Por aqui, alguns Estados também se engajaram nessa discussão - caso de São Paulo, que em 2017 alterou a lei que proibia os telefones nos colégios estaduais, sancionando uma nova regra que, enfim, liberou o uso para fins pedagógicos. 

Já no Distrito Federal (DF), o veto permanece: a Lei N.º 4.131, de maio de 2008, proíbe o uso de aparelhos celulares e demais dispositivos eletrônicos por alunos das escolas públicas e privadas da educação básica. Consequentemente, o mesmo ocorre com as redes sociais - em colégios Brasil afora onde há laboratórios de informática ou rede de Wi-Fi, é comum que o acesso a plataformas como Facebook e Twitter sejam bloqueados.

Todas essas discussões ainda provocam polêmica, pois os resultados da eficácia do uso desses aparelhos e sites na aprendizagem ainda são difusos. Porém, a grande questão aqui é que, por mais que o ambiente escolar seja restritivo, sabemos que as tecnologias e os novos formatos de informação deram poder aos indivíduos, e esse poder pode - e deve - ser usado a favor da construção do conhecimento. Se celulares, tablets e demais dispositivos funcionam como espécie de extensões das nossas vidas e estão incorporados a praticamente todas as esferas da nossa sociedade, a escola deve ficar fora disso?

Não à toa, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) inseriu a cultura digital entre as competências gerais que os alunos devem desenvolver ao longo da trajetória escolar. Outras competências, tais quais comunicação, responsabilidade e cidadania, também estão entrelaçadas à vivência das crianças e jovens nos ambientes informacionais e midiáticos, em todos os seus formatos - dos impressos aos digitais. 

Considerando esse contexto, a BNCC entende a educação midiática, que é o conjunto de habilidades para acessar, analisar, criar e participar do mundo digital com ética e responsabilidade, como algo transversal, mas concentra o conteúdo sobre ela na parte de língua portuguesa, mais precisamente no campo jornalístico midiático. Desse modo, a análise crítica das mídias e a produção de textos de mídia em formatos diversos ganham destaque, e o uso das redes sociais faz parte disso - desde que, claro, estas sejam usadas em consonância com o projeto pedagógico da escola, com planejamento, intencionalidade e objetivos claros. 

Não se trata, de forma alguma, de abdicar do ensino da norma culta em prol de emojis, figurinhas e abreviações típicas do WhatsApp, por exemplo. Ao contrário: alguns professores utilizam a presença de seus estudantes nas redes justamente para abordar, em sala de aula, a leitura e a escrita dentro dos padrões ortográficos vigentes. 

É o caso de Marcio Gonçalves, que leciona tecnologias digitais de comunicação e informação, do 1º ao 5º ano do ensino fundamental, e mídias digitais, no 6º e 7º anos, em articulação com as aulas de língua portuguesa e com projetos interdisciplinares, em uma escola particular no Rio de Janeiro (RJ). “Como observo o que muitos dos alunos postam, chamo a atenção para o uso correto da linguagem, além de apontar questões estéticas nas imagens compartilhadas por eles”, explica. ​

Marcio mantém uma conta fechada no Instagram onde documenta o trabalho escolar das suas turmas, sempre tomando os devidos cuidados com as regras de exposição de crianças e jovens nas redes. Assim, pais, mães e responsáveis têm acesso às atividades desenvolvidas por seus filhos e filhas, o que também aproxima, de modo dinâmico e quase em tempo real, família e escola. 

No entanto, mesmo com benefícios como esses, professores afirmam que é preciso colocar limites na comunicação via redes sociais e aplicativos entre os membros da comunidade escolar. “A comunicação fica muito mais fácil por esses meios, pois participamos do mundo do aluno. Mas é preciso deixar claro o foco da conta ou grupo criado, com regras bem estabelecidas, para que não haja nenhum tipo de constrangimento”, explica o professor de biologia Estêvão Zilioli, que leciona do 9º ano do ensino fundamental ao 3º do ensino médio. 

Ele desenvolve um projeto interdisciplinar de checagem de informações com os alunos, que começou em 2017 como análise de boatos e reportagens científicas coletados justamente em redes sociais. Os alunos trazem para a sala de aula notícias de teor questionável para serem debatidas entre a turma, analisando se as fontes e os dados usados nos textos são ou não confiáveis. Hoje, a iniciativa tem uma página no Facebook e uma conta no Instagram, gerenciadas pelos estudantes e por Estêvão. “As redes são fontes de informação e desinformação, e é preciso que os jovens compreendam isso”, pontua ele.

Como se vê, mesmo os docentes que não refutam o uso das tecnologias da informação e comunicação em sala de aula apontam inúmeras questões que ainda precisam ser extensamente debatidas - afinal, tudo ainda é muito novo para todos, professores e alunos. Os desafios são diversos, mas as possibilidades também são muitas. Vilanizar as redes sociais e o uso do celular, a essa altura do campeonato, pode não ser tão eficaz. Se educar é sempre melhor do que proibir, é fundamental que a escola embarque nessa discussão de maneira segura, ética e responsável, explorando possibilidades e discutindo-as com a comunidade escolar.

Mariana Mandelli

Coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta

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