Redação do Enem está completamente em sintonia com a realidade, diz diretor de 'Bacurau'

Kleber Mendonça Filho diz ter se espantado com tema 'democratização do cinema'

Eduardo Moura Ricardo Hiar
São Paulo

O cinema e sua democratização foram os protagonistas da redação do Exame Nacional do Ensino Médio, e “espanto” é a palavra escolhida por Kleber Mendonça Filho para descrever sua reação.

“Coloca o cinema onde ele pertence”, diz o diretor de “Bacurau”. "O que me espanta é a redação do Enem estar completamente em sintonia com a realidade", afirma, sobre a importância e o prestígio do cinema brasileiro, sobretudo neste ano.

“Ao mesmo tempo está vindo um movimento inverso do governo de tentar desmontar a indústria do audiovisual —pelo menos é essa a sensação que todos que somos trabalhadores do audiovisual estamos tendo neste primeiro ano desse novo governo.”

Silvia Cruz, fundadora da distribuidora Vitrine, prefere a palavra “surpresa”. Segundo ela, é “simplesmente maravilhoso colocar esse assunto na pauta”.

“Em sentidos amplos é uma contradição. Todas as atitudes do governo tem sido em sentido contrário à democratização da cultura e o tema da redação do Enem é justamente a democratização do cinema”, diz Cruz.

Para profissionais da área ouvidos pela Folha, com a escassez de investimentos e a falta de ações governamentais de incentivo, assistir a um filme numa sala de cinema é algo possível apenas para uma pequena parcela da população.

O pesquisador Paulo Sérgio Almeida chamou de “escolha curiosa” o tema da redação do exame.

Segundo ele, o cinema do Brasil teve uma mudança radical nos últimos anos, desde que as salas saíram das ruas e foram para os shoppings. “A melhoria de qualidade foi incrível, mas ficou muito mais caro ir ao cinema. Pode ter ajudado para que ele conseguisse competir com outras mídias, mas ao mesmo tempo tirou 'a geral' do cinema”, disse.

Para André Gatti, outro pesquisador da área, o acesso do brasileiro à cultura é inexpressivo.

“Eu não saberia tematizar esse assunto, porque a parcela de pessoas que tem acesso ao cinema é muito pequena, apesar de já ter sido uma forma de entretenimento extremamente popular no país. Há relatos de pessoas que há algumas décadas iam todos os dias ao cinema. Hoje isso é impossível porque falta dinheiro e filmes suficientes", afirmou.

Gatti diz que a democratização do cinema deveria começar na escola e incluir outros instrumentos maiores de que o Estado dispõe. Ele comenta que, apesar de alguns projetos já terem incentivado que escolas fizessem a exibição de filmes, nada avançou por demandar investimento, equipamentos e mão de obra qualificada.

“Apenas cerca de 10% das cidades brasileiras têm salas de cinema. Isso é um problema conjuntural, estrutural”, explicou. Dados de 2016 divulgados pelo Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais, o Sniic, apontavam o funcionamento de 3.189 salas de cinema do país, concentrada em grandes centros urbanos, principalmente no Sul e no Sudeste.

As regiões Norte e Nordeste apresentam menor número dos espaços destinados à exibição de filmes. Muitas das cidades não possuem o equipamento.

Segundo o pesquisador, o tamanho das salas de cinema atuais —abaixo das existentes na década de 1970— é outro fator que dificulta o acesso.

A produtora de cinema Mariza Leão conta que muitas iniciativas para fomentar o consumo de bens culturais “não pegaram” no Brasil. “O parque exibidor é muito pequeno, muito concentrado em grandes cidades, e com ingresso muito caro. Isso é uma questão econômica. O dono do cinema pode fazer o preço que quiser, mas é o preço que afasta boa parte do público”, afirmou.

Leão afirma que deveriam existir políticas de estado para que bibliotecas, escolas e pequenos centros culturais fossem transformados em ambientes de exibição cinematográfica. “Hoje falta política que promova a inserção da população aos bens culturais, um problema que diz mais respeito à falta de política de estado para o estímulo do consumo do que qualquer outra coisa.”

De acordo com a produtora, a ausência dessas políticas não se limita ao governo federal, mas também aos estados e municípios.

Para Paulo Sérgio Almeida, há cerca de cinco anos houve um movimento no país em que um número maior de produções nacionais passaram a ser destinadas mais às classes C e D, o que teria atraído esse público para as salas. Porém, a crise e a falta de novos incentivos voltaram a limitar o acesso, principalmente dessa fatia da população.

“Recentemente isso deu uma paralisada. Não vou dizer que seja só no atual governo. Isso vem acontecendo há uns quatro anos. Do início do governo Temer para cá teve uma freada no consumo."

O pesquisador afirma que a chegada do streaming foi outro ponto que afetou diretamente o consumo dos filmes no cinema. “Uma ida ao cinema hoje é mais ou menos o preço de um mês de assinatura de qualquer plano de streaming. Então há um conjunto de fatores que fizeram com que o acesso ao cinema tenha ficado mais difícil.”

Questionado se o tema posto em pauta seria um bom sinal para a indústria do audiovisual, Kleber Mendonça Filho diz que “é muito curioso que o cinema ganhe um protagonismo tão grande num termômetro tão importante como a prova do Enem”.

Mas, afirma, “é muito cedo” para dizer se sinaliza para uma mudança. “A gente está em território desconhecido neste momento.”

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