Tema da redação do Enem 2019 é a democratização do acesso ao cinema no Brasil

Primeira etapa da prova acontece neste domingo; ferir direitos humanos no texto dissertativo leva a perda de pontos

Dhiego Maia
São Paulo

O tema da redação do Enem 2019 é a "Democratização do acesso ao cinema no Brasil ", divulgou o ministro da Educação, Abraham Weintraub, neste domingo (3). Os candidatos devem elaborar um texto dissertativo de até 30 linhas sobre o assunto.

Weintraub anunciou o tema da redação 2019 em vídeo publicado nas suas redes sociais em frente a um colégio da Polícia Militar de Palmas, a capital do Tocantins.

"Vou dar um furo para vocês que pediram nesses últimos dias qual [seria] o tema da redação. É 'Democratização do Acesso ao Cinema no Brasil'. Tô aqui em Palmas, capital do estado de Tocantins, no colégio da Polícia Militar, conferindo se o Enem está indo tudo bem. Tudo 100%, zero de atraso, zero de problemas e tudo caminhando para ser o melhor Enem de todos os tempos", disse o ministro.

Acompanhe ao vivo a correção do Enem na Folha a partir das 19h30 deste domingo (3) 

Professores ouvidos pela Folha classificaram o tema da redação 2019 do Enem de “espinhoso” para a gestão de Jair Bolsonaro.

O presidente destituiu o ministério da Cultura —hoje, subpasta do ministério da Cidadania —, assim que assumiu o Palácio do Planalto e vem desidratando os recursos para o audiovisual, em especial as produções independentes.

Reportagem da Folha mostrou que projeto apresentado por Bolsonaro ao Poder Legislativo prevê cortar 43% de recursos da Ancine (agência de fomento das produções audiovisuais do país) captados do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), para R$ 415,3 milhões em 2020. 

É a menor dotação nominal para o fundo desde 2012, quando ele recebeu R$ 112,36 milhões. Para o ano que vem, a maior redução foi registrada nos chamados investimentos retornáveis ao setor audiovisual por meio de participação em empresas e projetos.

É por esta ação que a agência aporta dinheiro em produções em busca de retornos financeiros. Em 2020, esse orçamento passará de R$ 650 milhões para R$ 300 milhões.

Também haverá diminuição no apoio a projetos audiovisuais específicos. No próximo ano, haverá R$ 2,5 milhões destinados à ação, ante R$ 3,5 milhões no orçamento de 2019. 

A questão política é apenas um dos ingredientes a ser tratada no texto, diz Maria Catarina Bozio, professora de redação do colégio Poliedro, em São Paulo.

“O setor do audiovisual passa por um momento difícil de enxugamento de recursos. E sabemos que isso é uma decisão política. Mas o estudante precisa costurar outras questões como: o elitismo do equipamento cultural e a má distribuição de salas de cinema pelo país”, diz Bozio.

Também é fundamental, segundo Bozio, deixar claro que o acesso à cultura é um direito garantido na Constituição Federal de 1988.

Juliana Fernandes, do sistema COC de ensino de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, lembra que o tema segue uma linha já consagrada no Enem. “O exame prioriza temas sociais".

"É preciso lembrar da palavra 'democratização' presente no tema. O candidato terá que propor, de forma coerente, como fazer do cinema um equipamento cultural mais acessível", completa Fernandes.

Temas como o interesse estrangeiro por recursos naturais do Brasil, o discurso de ódio propagado nas redes sociais e os efeitos da imigração estavam nas apostas de professores ouvidos pela Folha antes da realização do exame. 

Este é o primeiro Enem sob o governo de Jair Bolsonaro (PSL).  Dias após ganhar a eleição de 2018, o presidente criticou uma das questões do exame, que mencionava um dialeto usado por gays e travestis, e afirmou que sua gestão iria “tomar conhecimento da prova” antes da aplicação.

Para a edição 2019 do exame, o Inep (Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais) criou uma comissão para fazer uma análise ideológica da prova.

Em entrevista à Folha, Alexandre Lopes, presidente do Inep, disse que a medida não vai impactar o que se espera dos candidatos: “Vamos avaliar o conhecimento do aluno, buscar uma prova mais neutra possível.”

 

TEXTOS QUE FIRAM OS DIREITOS HUMANOS PODEM PERDER PONTOS

Quem escrever redações que firam os direitos humanos podem perder até 200 dos 1.000 pontos possíveis.

Segundo o manual de redação do Inep (responsável pelo Enem), um dos cinco itens que serão avaliados no texto é a capacidade de “elaborar proposta de intervenção para o problema abordado que respeite os direitos humanos”.

Neste domingo, os candidatos farão provas de linguagens, ciências humanas e redação. O exame dura 5h30. No próximo domingo (10), as provas serão de matemática, química, física e biologia. Pouco mais de 5 milhões de pessoas concorrem a vagas em universidades de todo o país. 

Até o exame de 2016, quem ferisse os direitos humanos teria a nota zerada. Em 2017, decisão do Supremo Tribunal Federal excluiu esse item entre os critérios que anulavam a prova. Em uma redação sobre a inclusão de surdos na redação, um candidato escreveu: "a melhor decisão a ser tomada é o sacrifício logo após a descoberta da maldição.” 

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