Com fama de acolhedora, escola no centro de SP vira referência para pessoas trans

Caetano de Campos tem 40 das 755 pessoas matriculadas na rede pública estadual com nome social

A travesti Cláudia Menezes, 66, na biblioteca da Escola Caetano de Campos, em SP

A travesti Cláudia Menezes, 66, na biblioteca da Escola Caetano de Campos, em SP Adriano Vizoni/Folhapress

São Paulo

“Você vai encontrá-los em maior número só a partir da segunda aula”, avisa o diretor Tiago Augusto Pereira.

É noite de uma segunda-feira do mês de novembro. O cansaço é visível no rosto de quem trabalhou o dia inteiro e agora sobe as escadas e adentra o prédio de 116 anos tombado pelo órgão do patrimônio histórico paulista.

Quando a noite chega, uma segunda jornada se impõe para parte dos 1.581 alunos que terão de lidar com as provas finais do ano. Sejam bem-vindos à Escola Estadual Caetano de Campos, na região central de São Paulo.

O sinal sonoro apita às 19h45: vai começar a segunda aula do dia. O diretor tem razão: é a partir desse horário que os corredores de piso colorido por figuras geométricas são tomados por alunos de muitos sotaques.

São haitianos, congoleses, bolivianos, venezuelanos e até franceses. “Parece um mapa-múndi”, brinca a vice-diretora Ana Lúcia Nicolau.

Mas não é só a presença de estrangeiros que chama a atenção. Pelos corredores do Caetano de Campos também circulam o maior número de alunas travestis, mulheres e homens trans da rede pública estadual de ensino da cidade de São Paulo.

Neste ano, 40 pessoas trans se matricularam no colégio. Em 2018, eram 43. Em toda a rede pública paulista de educação são 755 alunos transgênero nas 5.400 escolas do estado, número 48% maior em relação ao ano letivo anterior.

O levantamento da secretaria de Educação administrada por Rossieli Soares só leva em consideração os estudantes com o nome social na matrícula, direito dado à pessoa trans de usar o nome adequado ao gênero com o qual se identifica.

Apesar do aumento expressivo, o uso do nome social por alunos das escolas públicas da rede paulista só passou a valer em 2014.

A travesti Cláudia Menezes, 66, conclui neste ano o ensino médio no Caetano de Campos. “Glamour hoje é ter um diploma”, afirma. Perguntada sobre a maior dificuldade que sentiu no retorno às aulas, Menezes é rápida na resposta. “Matemática foi muito difícil de entender.”

Além do convívio com colegas e professores, Menezes diz que vai sentir falta de andar pelas escadas, seu lugar predileto do colégio. “Toda vedete adora descer uma escada”, diz, e ri. Nos anos 1970, ela fez o mesmo percurso da atriz Rogéria (1943-2017) e foi parar nos palcos de Paris.

Lá, se fez travesti, ganhou dinheiro e muitos contatos. “Mas hoje estou quase perdendo meu apartamento, único bem que consegui comprar com os shows”, afirma.

A travesti vive com uma bolsa de R$ 1.047,90 do Transcidadania, programa social criado em 2015 pelo ex-prefeito Fernando Haddad (PT) e mantido nas gestões tucanas de Doria e Bruno Covas, que busca elevar o nível escolar da população trans em situação de vulnerabilidade social.

Menezes se espelha na trajetória de Raquel de Souza, 35, ex-integrante do Transcidadania e do Caetano de Campos, que hoje está na faculdade. “Concluir o primeiro ano de serviço social é muito para uma mulher trans que ficou 11 anos afastada da escola e na prostituição”, diz Souza. “A Cláudia deve fazer o Enem e tentar uma bolsa assim como eu. Não importa a idade”.

Cláudia e Raquel são crias da EJA (Educação de Jovens e Adultos), modalidade de ensino oferecida no período noturno para 334 alunos do Caetano de Campos que não terminaram a etapa de formação na época ideal. Na EJA, o ensino médio é concluído em um ano e meio —metade do tempo obrigatório no formato regular.

Mas o que faz o Caetano de Campos tão procurado pela população T? Primeiro, a localização. O prédio está entre as ruas da Consolação e Augusta, no centro. O portão de entrada dá de frente para a praça Roosevelt, local frequentado por jovens e com ampla oferta de transporte. Uma segunda unidade do colégio, fundado em 1846, funciona na Aclimação.

Em segundo lugar: a propaganda boca a boca. O Caetano foi um dos primeiros a fazer parte da rede escolar parceira do Transcidadania, que hoje tem ao menos 69 escolas. “Só consegue uma bolsa quem já tem matrícula. As escolas mais demandadas passam por capacitação para recepcionar melhor o aluno trans”, diz a coordenadora Abigaill Santos.

Laurence Tempesta, 52, leciona física e diz que o Caetano de Campos só virou referência na área da diversidade porque soube tratar com seriedade os casos de preconceito.

“Certa vez um grupo de alunos refugiados muçulmanos procurou a direção para mudar de sala. Eles não queriam estudar com as alunas trans. A gente disse: mudem vocês de escola. Aqui a gente está acolhendo.”

Também deixaram a escola uma professora que queria expulsar os demônios das travestis e outro docente que prometia curar os alunos trans na base da porrada.

Luana Molina, especialista em educação sexual com doutorado na área pela Unesp, vê por trás da tensão sentida pelos professores falhas na formação, um problema nacional, diz.

“Falta no currículo docente conhecimento sobre diversidade para desconstrução de tabus.” Mas comecemos pelo básico: o professor sabe o que é um aluno trans?, pergunta a especialista.

Diversidade é o que a professora de português e inglês Maria Fátima Ferreira busca ensinar entre uma regra gramatical e uma expressão da língua inglesa. Ela criou uma prova que busca medir os impactos da convivência entre os alunos cis e trans.

No questionário, os alunos avaliam o trabalho dela, o da escola e o próprio desempenho deles ao longo do ano. As respostas honestas somam pontos na nota final. “Só com diálogo que as pontes de solidariedade são construídas. O aluno precisa se sentir realmente integrado”, afirma.

Daniel Queiroz, 18, aprendeu a “ver a outra margem do rio” lidando com as colegas trans. “A gente adquire uma experiência que não está nos livros”, diz ele.

Nesse ambiente, Ariel Rocha, 20, e Gabriel Sampaio, 21, não demoraram muito para revelar à turma que estavam apaixonados um pelo outro.

O casal trans disse que não teria coragem de demonstrar carinho em outro lugar. “Essa escola parece uma ilha, mas que bom seria se as ilhas desaparecessem e as pessoas pudessem ser quem são sem medo”, reflete Sampaio.

Agora, Cláudia, Gabriel e Ariel terão mais um compromisso pela frente. Nesta terça (17) pegarão o mesmo papel que um dia receberam no Caetano de Campos a escritora Cecília Meireles (1901-1964), o poeta Mário de Andrade (1893-1945) e a futura assistente social Raquel: o diploma.

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