Descrição de chapéu
Dodô Azevedo

O ministro que descobriu que era negro

Assimilados se esquecem de que a tolerância com seus erros é outra

Dodô Azevedo

Dentre os modelos de recepção a imigrantes, a academia é encantada com a dicotomia assimilacionismo versus multiculturalismo. O primeiro baseia-se na ideia de que equidade e igualdade podem ser alcançadas através da adoção de valores coletivos, que evitem diferenciações de caráter cultural. O segundo, também conhecido com modelo pluralista, baseia-se no investimento estatal na diversidade cultural.

Um negro que migra para um país assimilacionista em poucas décadas esquece a que matriz pertence. Esquece a cultura, os valores e as crenças de seus antepassados.

Acontece que nós somos nossos antepassados. O avô de George Floyd, morto por um policial nos EUA, se resolvesse, 70 anos atrás, resistir à prisão, mesmo que sendo inocente, teria tido o mesmo tratamento que teve o seu neto.

Carlos Alberto Decotelli assina posso como ministro com o presidente Jair Bolsonaro, na quinta (25)
Carlos Alberto Decotelli assina posso como ministro com o presidente Jair Bolsonaro, na quinta (25) - Marcos Corrêa - 25.jun.20/Presidência da República

Já um imigrante sueco, nos EUA, teria, sob as mesmas condições, tido outro tratamento. E também seu avô, seu ancestral. Se o assimilacionismo é um atalho para imigrantes brancos, é um alçapão para negros. Por um motivo muito simples: negros não chegaram às Américas como imigrantes, e sim como escravos.

Há modos e modos de escapar da condição de escravo. Uma é o confronto. A outra é deixando-se assimilar. Tornando-se um negro conveniente. Aquele que não só não cobra quem o oprime mas torna-se seu avalista. No Brasil e nos EUA, os negros convenientes encontram um bocado de portas abertas. Tantas que, com o passar do tempo, até esquecem que são negros. Até esquecem que, por mais que eles próprios já não se vejam mais como negros, a sociedade nunca deixou de vê-los assim.

Então, esses negros começam a agir como se desfrutassem dos mesmos privilégios que os brancos, ou qualquer raça ou etnia que não tenha entrado naquela sociedade como escrava: roubam, matam, mentem. Certos de que serão julgados com a mesma régua com a qual se julga todos os ancestrais de imigrantes. Quando descobrem que a tolerância com seus erros é outra, vem a descoberta. Ele havia esquecido que era negro.

Carlos Decotelli tem, no Rio de Janeiro, um histórico de intolerância com religiões de matriz africana. Cristão batista, é um negacionista do sistema de crenças de suas avós e bisavós e tetravós. Nas religiões que combate —e terreiros são profanados e destruídos maioritariamente nas regiões da cidade controlada por milícia, curral eleitoral do atual presidente Jair Bolsonaro e de seu filho, o atual senador Flávio Bolsonaro—, mentira e injustiça não são toleradas. No sistema de crenças pelo qual se deixou assimilar, basta confessar arrependimento que um deus único e misericordioso perdoa. Ou seja, vale tudo.

No Brasil, tem vida curta um ancestral de escravos que ofende os seus. Que ousa mentir como um ancestral de imigrantes, presumindo que desfrutará do mesmo tratamento que eles. Mas igualmente ofensivo é não considerar os motivos que fazem um negro negar a si e aos que o geraram. Não entender o que faz um negro a esquecer a cor que tem. E não chamar a atenção para o fato de que dinâmicas assim sustentam a estrutura econômica que nos envolve, nos corrompe e determina até nossas traições.

Da infantaria persa do comandante Mardónio às invencíveis colunas mongóis de vanguarda do general Subotai, a carreira militar é, há quase dezena de milhares de anos, um atalho pelo qual podem ascender as populações marginalizadas. Os donos das riquezas nunca se expõem: designam a tarefa a qualquer um que se disponha. Para tentar não ser negro no Brasil, brasileiros negros recorrem, muitas vezes, à carreira militar, como o ex-ministro Decotelli. É, muitas vezes, o único caminho permitido por quem detém privilégios.

Uma das torturas preferidas do herói dos Bolsonaros, o coronel Brilhante Ustra, era obrigar mulheres a beberem sua própria urina. Obviamente, o Ustra só possuía coragem de fazer isso com mulheres amarradas, imobilizadas e dopadas. Vencia pelo cansaço. Em algum momento, a pessoa sob tortura não aguentava e dizia o que fosse necessário para satisfazer a valentia de araque do torturador.

A condição do descendente de escravos no Brasil é, diariamente, essa: beber a própria urina e apanhar imobilizado, dopado. Uma hora o indivíduo cansa. E para sair dessa situação, se branquifica.

Ser negro, no Brasil, é lindo, porque além de tudo é um atestado de bravura maior do que se pode conseguir em qualquer exército. Porque se trata de uma guerra minuto a minuto. A única guerra verdadeira que há no Brasil. Por isso, é perverso não tentar se colocar no lugar de desertores. De Decotellis.

Ser negro dá trabalho.

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