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Dilson Rassier

Sem educação, nada adianta nada

Problemas afetam não só vidas dos estudantes e de suas famílias mas toda a sociedade

Dilson Rassier

Em 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) publicou o documento “Transforming the World” (Transformando o Mundo), resultado de reuniões com líderes mundiais e organizações interessadas no futuro da humanidade.

O documento apresenta um comprometimento global com 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) a serem atingidos até 2030. Esses ODS incluem diferentes desafios globais: eliminar a pobreza, assegurar consumo sustentável, promover crescimento econômico com trabalho para todos, entre outros.

A educação não ficou de fora —o ODS4 da ONU tem como objetivo “assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas e todos”. O ODS4 tem dez metas, incluindo a garantia de que todas as crianças completem sua educação primária e secundária, e uma educação terciária de qualidade.

A última avaliação do progresso do ODS4, realizada ao final de 2019, não gera otimismo. Aproximadamente 262 milhões de crianças e adolescentes (6 a 17 anos) estavam fora da escola. Cerca de 617 milhões de crianças e adolescentes em idade escolar —mais da metade das crianças nessa faixa etária— não atingiam a proficiência mínima em leitura e matemática.

Muitos desses estudantes já desistiram da escola. No Brasil, os dados, ainda que incompletos, sugerem uma situação crítica: entre 29% e 50% dos estudantes não atingem as metas mínimas de leitura e matemática, segundo o Instituto de Estatística da Unesco. A educação superior não foge à regra; a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) avalia que somente 18% dos adultos (25 a 64 anos) no Brasil concluem a educação superior, muito abaixo da média de outros países (aproximadamente 39%).

A Covid-19 traz ainda novos desafios para a educação. A Unesco anuncia neste momento 1,19 bilhão de estudantes sem educação formal (68% de estudantes registrados). No Brasil, o número é alarmante: 52,9 milhões de estudantes são afetados com a falta de educação formal durante a pandemia.

A crise, como todas as outras, afeta predominantemente as camadas sociais mais baixas da população global, de formas que vão além da educação formal. Estima-se que mais de 350 milhões de crianças ao redor do mundo deixaram de receber alimentação escolar, e os problemas associados à saúde mental vêm crescendo significativamente.

Os problemas da educação afetam não somente as vidas dos estudantes e de suas famílias, mas toda a sociedade. Uma educação de qualidade traz efeitos positivos em vários setores —auxilia a diminuir a disparidade econômica entre classes sociais, promove igualdade de gênero e promove trabalho. O Banco Mundial tem publicado vários dados demonstrando que o nível de educação da população e o capital humano são diretamente relacionados com o progresso econômico e prosperidade de um país.

Um relatório da entidade estima que, no Brasil, a produtividade de uma criança nascida hoje atingirá somente 56% de seu potencial quando atingir 18 anos, quando comparado ao que poderia atingir caso o país investisse em educação e saúde básica. Os dados mostram ainda que o fator que leva à maior disparidade entre a atual situação e o potencial destas crianças é a educação. O Brasil necessita de um plano educacional concreto para mudar essa realidade.

A educação deve ser encarada como absoluta prioridade. A única forma do Brasil crescer de forma eficiente, responsável e com justiça social será com uma educação de qualidade para todos. A longo prazo, não existe alternativa —nenhuma alternativa. Qualquer política economia —liberal ou intervencionista com suporte estatal— não levará a nada sem uma população educada.

Óbvio? Talvez para os leitores da Folha e para grande parte da população, mas vale a pena repetir a mensagem para que seja ouvida em alto e bom tom. Nunca é demais lembrar que ainda há aqueles, no século 21, que apoiam ideias absurdas (“terraplanismo”, uso de medicamentos sem comprovação cientifica) e perigosas para as futuras gerações (ruptura democrática, armamento de cidadãos). Falta de educação.

Dilson Rassier

É professor do Departamento de Cinesiologia e Educação Física e reitor da Faculdade de Educação da Universidade McGill (Canadá).

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