Descrição de chapéu MBA e Pós-graduação

Legado da pandemia, cursos híbridos e mediados por tecnologia são tendência na pós-graduação

É necessário fazer o melhor uso de cada meio para que a aprendizagem aconteça

Lisandra Matias
São Paulo

As experiências e os aprendizados com a educação remota ao longo de 2020 vão impactar os cursos de pós-graduação daqui para frente, sejam eles lato sensu (especialização) ou stricto sensu (mestrado e doutorado).

Os recursos tecnológicos utilizados durante a pandemia, como as plataformas de videoconferência, que permitem a realização de atividades ao vivo e a interação entre estudantes e professores, devem ser incorporados pelas instituições de ensino.

Com a diversidade de formatos —presencial, a distância, híbrido—, o que se discute também é como cada modalidade pode contribuir para a qualidade do ensino e alavancar a aprendizagem dos estudantes.

Prédio da FAU-SP, na Cidade Universitária, em 2019 - Gabriel Cabral/Folhapress

Na FGV (Fundação Getulio Vargas), as aulas a distância ao vivo, via webconferência, foram tão bem recebidas pelos alunos que serão mantidas mesmo após a crise sanitária.

“Fizemos uma pesquisa e vimos que cerca de 30% dos alunos não queriam voltar ao presencial”, diz Paulo Lemos, diretor de educação executiva da FGV em São Paulo. “Mesmo quando terminar a pandemia, vamos continuar com esses cursos, além dos totalmente presenciais e dos a distância [assíncronos], que chamamos de online. E estamos pensando também no formato híbrido. Apostamos que vão haver essas diferentes modalidades, que atendem aos diversos perfis de alunos.”

Para ele, a figura do professor, a qualidade do conhecimento, a maneira como é transmitido e a capacidade de levar o aluno a participar ativamente da aula, presencialmente ou a distância, são os fatores que importam para um bom curso de pós. “Antigamente, o ensino era totalmente passivo e o aluno era espectador. Hoje, ele passa a ser também protagonista do próprio aprendizado.”

Lemos observa que, em um curso de pós, também ganha relevância o networking. No caso dos cursos não presenciais, isso pode ser um problema, que deve ser contornado de forma a proporcionar essas trocas entre os alunos de alguma maneira.

“Costumamos dividir os alunos em pequenos grupos, usando ferramentas de webconferência, para a realização de atividades, mas também para conversarem. E fazemos mudanças nos agrupamentos para que eles tenham a oportunidade de circular e falar com todos os participantes", afirma Lemos.

A partir de 2021, a Saint Paul Escola de Negócios, que já adota o modelo híbrido de ensino há alguns anos —com atividades realizadas remotamente combinadas com aulas presenciais—, oferecerá uma escolha inédita aos alunos: as aulas presenciais, que acontecem uma vez por semana, poderão ser assistidas fisicamente na instituição ou de modo online, ao vivo, em casa ou onde o aluno estiver.

E, a cada aula, o aluno poderá optar por uma forma ou outra, de acordo com suas possibilidades naquele dia.

De acordo com Bruna Losada, vice-diretora geral da Saint Paul Escola de Negócios, hoje, com as experiências vividas durante a pandemia, que envolvem compreender como esse tipo de ensino funciona e se livrar de preconceitos em relação à modalidade, alunos e professores estão mais prontos e maduros para conseguir alcançar os benefícios que o ensino híbrido oferece.

“O estudante vem para uma aula presencial sabendo que tem que usar muito bem essa oportunidade para discussão, networking, aplicação de cases”, diz. “E, quando está no meio remoto, assíncrono [aulas gravadas] ou síncrono [ao vivo], ele entende —e o professor também– que é a hora de solidificar as bases, nivelar conhecimentos, introspectar a aprendizagem", diz Losada.

Desta forma, segundo ela, o presencial alcança um nível que não seria possível se a pessoa chegasse crua numa sala de aula.

“Pois a base já está sólida, profunda e absorvida individualmente por cada um e até pré-discutida. Isso faz com que o aluno desenvolva o senso crítico, além da capacidade de estabelecer relações entre os conhecimentos e analisar problemas complexos", afirma Losada.

Na opinião de Marcelo Saraceni, presidente da ABIPG (Associação Brasileira das Instituições de Pós-Graduação), mesmo para aquelas instituições que só ofereciam ensino presencial, a tendência é que passem a incorporar essas tecnologias, e os cursos se tornem cada vez mais híbridos.

“A própria legislação permite isso. Hoje, a exigência de carga horária para a pós-graduação lato sensu é de 360 horas, em disciplinas ou atividades de aprendizagem. Essas atividades não precisam, necessariamente, ser presenciais”, afirma Saraceni.

Segundo ele, nessa nova realidade daqui para a frente, as instituições vão ter que dominar a tecnologia, que passa a ser pré-requisito, mesmo em cursos presenciais.

Visão semelhante tem Simone Bérgamo, diretora acadêmica do Ser Educacional. Ela acredita que os cursos que vão se manter presenciais também vão buscar atividades utilizando o ambiente virtual de aprendizagem.

“Isso não tem mais volta. É uma forma de fazer com que o aluno consiga aprender em espaços diferentes e, com isso, competências diversas são desenvolvidas", diz Bérgamo.

Mesmo nos cursos stricto sensu (mestrado e doutorado), a ideia também é incorporar os aprendizados relativos aos estudos remotos adquiridos durante a pandemia. Para Carlos Gilberto Carlotti Júnior, pró-reitor de pós-graduação da USP, há três pilares fundamentais em uma pós stricto sensu: o contato do aluno com o seu orientador, o desenvolvimento do projeto de pesquisa e as disciplinas.

“Eu acho importante que os dois primeiros, e essa é a nossa política aqui na universidade, sejam realizados e se mantenham de forma presencial. Já as disciplinas, acredito que nós podemos incorporar algumas metodologias que utilizamos e fazer parte desse conhecimento se transformar em disciplinas híbridas ou online.”

Ele cita um exemplo do que considera ter sido bem-sucedido nesse período. “Trazer professores de outras universidades ou do exterior para fazer discussões dentro de uma disciplina foi algo muito interessante. Se convidássemos alguém para dar uma aula em 2019, a resposta possivelmente seria negativa. Mas durante a pandemia foi possível, porque as pessoas aprenderam e se acostumaram a fazer isso. Tivemos uma participação muito grande de outros professores nas nossas disciplinas.”

Outro ponto positivo, segundo ele, se refere aos alunos que não teriam acesso àquela disciplina, os chamados alunos especiais, que querem fazer uma pós e se interessam pelo assunto, mas não são regularmente matriculados na USP.

“O número desses alunos especiais cresceu muito. Isso repercutiu diretamente nos processos seletivos de 2021, no qual tivemos um aumento de três a quatro vezes no número de alunos interessados em cursar pós-graduação”, conta.

Além disso, outro aspecto interessante, de acordo com ele, foi que as plataformas permitiram que os alunos pudessem trocar informações entre si, fazer discussões e ter mais acesso ao professor. “Com as novas ferramentas, nós podemos fazer chats e grupos de discussão durante todo o período. Embora pareça paradoxal que o contato a distância tenha aumentado a comunicação entre as pessoas, foi o que aconteceu.”

Segundo o pró-reitor, é importante que esses ganhos permaneçam, pois trazem mais riqueza para a pós-graduação.

“Espero que 2021seja melhor que 2019. Passamos pela pandemia, aprendemos muitas coisas e podemos fazer de uma forma melhor. Vejo bastante receptividade para essa ideia de melhorarmos nossas disciplinas, mas não vamos confundir isso com ensino a distância. Não é isso que queremos na universidade. Nós desejamos o aluno aqui, nos laboratórios, nas bibliotecas... Mas, para cursar as disciplinas, podemos aprimorar o que fazíamos antes", afirma Júnior.

Claudia Liz
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