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Famílias de estudantes com deficiência acumulam preocupações com reabertura das escolas

Pais não se sentem confiantes para enviar os filhos, e pouco acesso à informação agrava as dúvidas

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São Paulo

Só quando forem vacinados. É com esse prazo, ainda sem data definida, que muitos pais e mães de estudantes com deficiência respondem quando questionados se os filhos vão ou não retornar para as escolas.

A retomada das aulas presenciais em São Paulo e o início de um ensino híbrido, que prevê o revezamento entre dias em casa e outros nas instituições de ensino, gera dúvidas em muitas dessas famílias.

Entre os especialistas em educação inclusiva, uma mensagem tenta ser repassada: o laudo médico de deficiência, sozinho, não é sentença para que o estudante não retorne para a escola —apenas se estiver relacionado a comorbidades que o incluam no grupo de risco para a Covid-19.

Em relação aos protocolos de biossegurança a serem adotados, “a regra universal é a mesma, mas com cuidados específicos”, explica Rodrigo Mendes, superintendente do instituto que leva seu nome e trabalha com o fomento à educação inclusiva.

Estudantes com deficiência que apresentem dificuldade ou impossibilidade de higienizar as mãos sozinhos, por exemplo, devem receber apoio, assim como para colocar e tirar a máscara de proteção facial, acessório que deve ser transparente nas salas em que ao menos um aluno tenha deficiência auditiva. Esses são alguns dos cuidados a serem redobrados.

Mas na distância que separa o cenário ideal e a realidade mora a preocupação das famílias. A principal questão é se esses estudantes vão receber, de fato, o apoio necessário para seguir os protocolos.

Thais de Souza Silva, 18, aluna do segundo ano do ensino médio na Escola Estadual Professor Cid Boucault, em Mogi das Cruzes (SP), tem contado com o apoio da mãe, a autônoma Márcia, 46, e da irmã, Bruna, 15, para interpretar as atividades escolares durante o ensino remoto.

Thais, à esquerda, com a irmã, Bruna; estudante tem síndrome de Williams e a família optou por não enviá-la à escola por não sentir segurança e por falta de atenção específica - Adriano Vizoni/Folhapress

Como a jovem tem síndrome de Williams, uma desordem genética rara, a família optou por não enviá-la para a escola agora, na reabertura, ainda que a irmã mais nova tenha retornado. “Thais fica direto com as mãos nos olhos, e é preciso ficar repetindo as recomendações para ela. Tenho medo da contaminação”, explica a mãe.

Isso não significa que para a família a instituição de ensino não faça falta. Além da saudade dos colegas, que Thais manifesta com frequência, a jovem é recém-alfabetizada, o que faz da sala de aula um espaço ainda mais caro no momento. Com a rotatividade de professores entre as disciplinas, porém, Márcia não acredita que alguém vá acompanhar e repetir os cuidados com a filha.

Se tivesse um profissional de apoio —aquele que auxilia o estudante com cuidados pessoais, locomoção e inclusão pedagógica, a depender da deficiência—, diz a mãe, a jovem retornaria para a escola, já que estaria segura de que alguém a acompanharia. Mas a família ainda não conseguiu acessar esse direito, e pensa em judicializar a questão.

A nova insegurança se soma a um histórico de dificuldades que os pais já enfrentaram para assegurar o direito à educação dos filhos com deficiência.

Desde o anúncio da reabertura, Denise Crispim, 42, mãe da Sofia, 15, que tem paralisia cerebral, passou por um périplo em busca de uma escola que assegurasse atividades online até que a jovem seja vacinada. Chegou inclusive a pensar no homeschooling [ensino doméstico], em que ela mesma estabeleceria um cronograma e lecionaria para a filha.

“Distanciamento social no caso dela não existe. Alguém vai sempre ter que tocá-la”, explica a mãe. Como Sofia tem tetraparesia, com acometimento dos membros superiores e inferiores, é preciso que alguém a apoie não só com a máscara ou a higiene das mãos, mas também nas idas ao banheiro e com a alimentação.

Sofia inicia o ano letivo de 2021, quando ingressa no ensino médio, de casa e matriculada em uma escola da rede particular de ensino em Osasco (SP). Denise segue no apoio da filha, em uma carga de cuidados que triplicou desde o início da pandemia, já que ela assumiu, também, os exercícios de fisioterapia da jovem.

As poucas informações, diz, são o que fazem o terreno tão incerto para os pais. “Ninguém sabe se entre os adolescentes com deficiência a mortalidade [pelo novo coronavírus] foi maior ou menor. O sentimento é de que esse público foi deixado muito mais à margem do que já é normalmente.”

Os últimos meses, no ensino remoto conectado às telas de celulares e computadores, foram frustrantes para alguns desses estudantes, que não receberam suporte, além do auxílio de familiares, para seguir os estudos, ou então atividades adaptadas, quando necessário.

É o caso de Eric da Silva Cassiano, 11, estudante da rede municipal de ensino na capital paulista que tem baixa visão e déficit de atenção. O último ano seria o primeiro em que ele teria uma profissional de apoio para acompanhá-lo, o que, para a mãe, a diarista Marli, teria sido chave, já que o filho ainda não é alfabetizado.

Mas o período foi muito diferente do esperado. De casa, Eric pouco conseguiu acompanhar as atividades, mesmo com a ajuda da mãe. A apostila que recebeu, conta Marli, não veio adaptada (o material deveria ter as letras ampliadas, em razão da baixa visão).

O jovem ganhou um tablet, por meio da ajuda de um professor e uma ONG, mas seguir com os estudos ainda assim foi difícil, ora pela baixa conexão com a internet, ora pela dificuldade dos familiares de o ajudarem com os exercícios.

Diante do cenário, a família decidiu enviá-lo para a escola a partir de 22 de fevereiro, quando a unidade reabriu. A expectativa é correr atrás do “ano perdido”, afirma a mãe.

Na capital, a Secretaria Municipal de Educação dispõe, no protocolo de volta às aulas, de uma lista de orientações específicas de cuidados para os estudantes com deficiência produzidas com apoio da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina.

No caso de alunos com deficiência visual, por exemplo, o documento frisa a importância da higienização da bengala, o aumento da frequência de limpeza dos óculos e que quando outra pessoa for ajudá-lo, pegue no ombro, em vez do cotovelo, já que a recomendação é tossir e espirrar no antebraço.

Já a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo afirma que os protocolos sanitários são os mesmos para todos os alunos, com ou sem deficiência, e que orientou as instituições de ensino a entrar em contato com as famílias para entender como podem apoiar os alunos da melhor forma possível.

Professores

Professores com deficiência que procuraram a Folha, porém, relataram que a informação sobre os protocolos não está chegando na ponta. A sensação que paira é de invisibilidade.

Lara, professora com deficiência visual da rede municipal que prefere não dizer o sobrenome, conta que as informações só chegam se a administração pública é questionada, o que gera desgaste na relação.

“Servidores com deficiência são esquecidos com frequência. Mesmo na pandemia, que virou a preocupação do momento, não tivemos um olhar atento. Isso nos deixou em desvantagem no recebimento de informação.”

No dia da reabertura, 15 de feveireiro, mesmo sem ter recebido sequer um informativo sobre cuidados que seriam tomados para adaptar os protocolos de biossegurança às pessoas com deficiência, ela retornou para o colégio no qual leciona, na zona sul da capital.

As práticas pedagógicas precisam ser revistas, diz. Acostumada a passar cópias das atividades em papel para os alunos, já que não consegue fazer uso da lousa, ela foi informada sobre o protocolo de evitar o repasse de papéis nas salas. Terá que migrar para o digital, projetando as atividades. A unidade, porém, ainda não tem projetores.

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