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Mariana Mandelli

Pressa é inimiga da empatia nas redes sociais

Informações falsas sobre a morte de famosos nas redes desrespeitam famílias

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Mariana Mandelli

Coordenadora de comunicação do Instituto Palavra Aberta

Boatos sobre a morte de personalidades e autoridades são uma prática infeliz mas bastante comum nas redes sociais. A especulação sobre o falecimento de famosos tem até nome em inglês: death hoax, termo que serve inclusive para classificar aqueles casos em que uma pessoa deliberadamente finge o próprio óbito, em uma espécie de pegadinha ou “trollagem”, transformando-se em meme.

Mas, no auge da pandemia de Covid-19 no Brasil, um país imerso em luto, com centenas de milhares de mortos e milhões de infectados, fazer suposições sobre o estado de saúde alheio ganhou contornos ainda mais cruéis.

O caso mais recente envolveu o humorista Paulo Gustavo, internado desde o dia 13 de março com coronavírus em um hospital no Rio de Janeiro. Nos primeiros dias de abril, informações falsas sobre sua morte circularam em diversos grupos de WhatsApp. O mesmo ocorreu em meados de dezembro com a atriz Nicette Bruno. Seu filho, o também ator Paulo Goulart Filho, teve de desmentir publicamente o boato de que sua mãe teria morrido em decorrência da Covid-19. Ela faleceu dias depois.

Se antes os jornalistas detinham o poder de noticiar essas e outras fatalidades, hoje a disseminação de hipóteses é livre nos balcões das redes sociais. A principal diferença entre esses dois processos é o profissionalismo da imprensa, que investiga, apura, confirma e, enfim, comunica. Tal método, porém, não a isenta de erros. Mas é preciso lembrar que, quando um veículo de comunicação divulga erroneamente o falecimento de alguém ilustre, como já ocorreu com a própria Folha, a retratação da empresa é imediata, o que não acontece quando não se sabe a origem e a autoria de uma informação falsa.

É difícil compreender o que motiva a propagação desse tipo de mentira impiedosa, que só aumenta a angústia de familiares e admiradores, mas as razões podem ser diversas, intencionais ou não. Há quem invente para ganhar engajamento e audiência nas plataformas e mídias e há quem, ansioso por participar do assunto do momento, embarque na boataria por curiosidade, sem se dar conta de que está afligindo pessoas e contribuindo para gerar mais desinformação.

Isso porque mensagens que tratam de tragédias mexem diretamente com as nossas emoções e, antes mesmo de terminarmos de lê-las, já nos encontramos envolvidos com o seu conteúdo. Sob impacto, é mais fácil curtirmos, comentarmos e compartilharmos aquele post do que buscarmos uma fonte segura e oficial sobre o ocorrido.

Casos como o do jornalista Ricardo Boechat, morto em um acidente de helicóptero em fevereiro de 2019, e do apresentador Gugu Liberato, que sofreu uma queda em casa em novembro do mesmo ano, são exemplos disso. Por serem duas personalidades admiradas por décadas por grandes públicos e com quem milhares de pessoas se identificavam, a ânsia em confirmar o falecimento e ser o primeiro a “dar a notícia” acaba sendo uma armadilha de desrespeito e propagação de conteúdo falso.

Ao colocarmos nossa curiosidade e imediatismo na frente da dor alheia, ultrapassamos o limite do bom senso de uma forma aparentemente sutil. A disseminação desse tipo de boato borra a fronteira entre o público e o privado da maneira mais cruel possível.

Não somos todos jornalistas. Compreender como se obtém uma informação sensível como a doença ou a morte de alguém é importante para não nos deixarmos levar pelo excesso de emoções e muito menos pela velocidade das mídias sociais. Se elas próprias têm se mostrado um celeiro fértil de ideias e projetos que exigem, com justiça, mais diversidade, respeito e empatia, é preciso que coloquemos isso realmente em prática, ainda mais em um momento sensível como a maior crise de saúde pública que já enfrentamos. É nossa responsabilidade construir redes melhores.

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