Catadora de recicláveis reforma casa com microcrédito social

Valdeci Rodrigues recorreu a iniciativa de impacto para obter empréstimo

Giovanna Reis
São Paulo

Conhecida como a "Baixinha do Reciclável", Valdeci Rodrigues Vieira, 56, é catadora de materiais há oito anos. Moradora de São Joaquim (SC), a cidade mais fria do Brasil, percebeu que precisaria reformar sua casa —feita de madeira a partir de um galpão demolido— para suportar o inverno rigoroso da serra catarinense, que neste ano chegou a registrar temperaturas negativas de até -9,2°C.

Valdeci Rodrigues, 56, reformou sua casa com empréstimo de microcrédito do Banco da Família
Valdeci Rodrigues, 56, reformou sua casa com empréstimo de microcrédito do Banco da Família - Divulgação

A catadora, que vive com a filha e dois netos, precisava de um empréstimo para fazer a reforma. Recorreu a instituições financeiras tradicionais, mas o descaso que sofreu por ser de origem mais humilde a fez recorrer ao Banco da Família. 

Presidida pela empresária Isabel Baggio, a instituição é uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) que concede microcrédito àqueles excluídos do sistema financeiro tradicional. "Ninguém dá muita trela, não", diz Valdeci sobre a experiência vivida em outros bancos.

Mesmo com as dificuldades que enfrenta no trabalho, a catarinense sente orgulho de ser catadora. Embora hoje colete materiais apenas durante a noite, pois mantém seu próprio brechó durante o dia, Valdeci é extremamente conhecida na cidade por seu trabalho com os materiais. Por sua facilidade em se comunicar, a Baixinha do Reciclável já representou São Joaquim em convenções nacionais de catadores. 

Os projetos futuros de Valdeci são muitos, e para a maioria ela espera contar com a ajuda do Banco da Família. "Fui muito bem recebida no BF, e quero continuar com os empréstimos para construir a casa da minha filha, que vai se casar. E tenho certeza de que não vão me negar, são muito boa gente."

Eu já fiz de tudo um pouco na vida digna. Já trabalhei como garçonete em São Joaquim, Florianópolis, Laguna [SC]. Também trabalhei em Porto Belo [SC], cuidando de uma pousada para turistas. Quanto ao meu trabalho com material reciclável, tudo começou por um problema de saúde que eu tinha.

Levava uma vida precária, comecei a engordar muito, a sentir falta de ar constante e agonizava. Eu precisava caminhar, me exercitar, e já tinha uma tendência a catar recicláveis, embora não fosse algo que eu fizesse para viver. 

Assim, indo caminhar de manhã e à tarde, comecei a trazer [garrafas] PET e outras coisas, e minha história foi crescendo, até que apareceu a oportunidade de expandir o negócio de recicláveis com meu filho.

Criamos uma sociedade e em três anos já acumulamos um bom patrimônio —além do dinheiro, tínhamos uma [camionete] 608, um Chevette, duas Kombi, um depósito e oito funcionários de carteira assinada. Trabalhávamos praticamente dia e noite, sem fins de semana.

Porém, por causa da minha ex-nora, ele decidiu romper a sociedade. Eu chorei muito no dia em que ele chegou até mim dizendo que não queria mais ser meu sócio.

Continuei trabalhando com os recicláveis, saía 18h e voltava quase meia-noite. Às vezes com minha filha, às vezes sozinha, às vezes com meus cachorros, que são como filhos para mim. Sempre levando uma vida simples, mas com dignidade. Tenho orgulho de ser catadora de material reciclável e quero seguir trabalhando com isso.

Valdeci em frente a sua casa em São Joaquim (SC), reformada com o dinheiro de microcrédito humanizado
Valdeci em frente a sua casa em São Joaquim (SC), reformada com o dinheiro de microcrédito humanizado - Divulgação

Graças a Deus estou crescendo, construindo minha casa e comprando coisas melhores, sem deixar faltar nada para os meus netos. Não sou rica e nem quero ser, quero apenas continuar com a minha vida simples, amando e respeitando todos como merecem. 

Tenho outros projetos além do material reciclável, hoje saio apenas à noite para isso. Durante o dia, vendo roupas usadas, tenho um pequeno brechó. E agora está surgindo a oportunidade de fazer salgados, que é algo que eu gosto muito. Acho até que vou bater na porta do Banco da Família de novo, para ver se tiro um empréstimo para comprar os materiais e começar a fazer os salgados.

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