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Michael Kapps

A crise da saúde mental no Brasil

Michael Kapps

Nasci na Rússia, mas cresci no Canadá e fiz faculdade nos EUA. Para um estrangeiro, como eu, o Brasil sempre pareceu o lugar mais feliz do mundo: praias, sol, samba e carnaval.

Mas quando vim morar no Brasil, descobri que por trás do que aparece nas propagandas da televisão, esconde-se um grande problema: a crise da saúde mental da população brasileira.

Conforme aponta a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o primeiro no ranking internacional de países com o maior número de pessoas com transtorno de ansiedade —são 18,6 milhões de brasileiros. O país é também o quarto com maior número de pessoas com depressão.

E qual é o motivo desse alto número de pessoas com transtornos mentais? Os altos índices de violência são um motivo —de acordo com o Altas da Violência 2018, o Brasil tem taxa de homicídio 30 vezes maior que a da Europa.

Além disso, uma grande causa de sofrimento psíquico é a instabilidade financeira. Segundo o IBGE, a taxa de desemprego no Brasil ficou em 12,5% no trimestre de fevereiro a abril, o que corresponde a mais de 13 milhões de pessoas desempregadas.

Até mesmo o estilo de vida nas cidades, que é muito urbanizado —barulho demais, poluição demais, horas infindáveis no trânsito— tudo isso somado aumenta o risco de problemas de saúde mental.

Transtornos de saúde mental não são um problema apenas por conta do sofrimento que geram ou até mesmo por conta de situações mais extremas, como suicídios.

O sofrimento psíquico também tem relação direta com a saúde física: dois terços dos doentes crônicos (diabéticos, hipertensos) estão com algum tipo de transtorno mental. Isso afeta diretamente a melhora do quadro dessas pessoas —por exemplo, diabéticos com depressão custam até oito vezes mais.

Ainda sob a perspectiva de custos e produtividade, a segunda maior causa de afastamento do trabalho é por motivos de questões de saúde mental. Projeções apontam que em 2020 será a primeira causa.

Um dos problemas que agrava essa crise é que o número de profissionais para lidar com todas essas ocorrências é limitado. No Brasil temos cinco vezes menos profissionais de saúde mental em relação aos EUA e dez vezes menos do que na Europa.

A rede pública é superlotada e muitas vezes precarizada. A cobertura do plano de saúde para consultas com profissionais de psicologia e psiquiatria é muitas vezes limitada, cobre apenas entre cinco e dez sessões, por exemplo.

O atendimento privado, por sua vez, é caro: a média é de R$ 100 por sessão, o que pode acarretar em gastos de mais de R$ 400 por mês por pessoa.

Isso torna o acesso a saúde mental muitas vezes inviável para pessoas de baixa renda —como alguém que ganha um salário mínimo poderia resolver uma questão dessa ordem? Ironicamente, a população de baixa renda é a que mais sofre com transtornos de ordem psíquica.

Mesmo que a pessoa tenha acesso a algum tipo de cuidado relativo à saúde mental, ainda existe um grande estigma envolvido com o processo.

É difícil se colocar numa posição de vulnerabilidade e pedir ajuda para lidar com problemas pessoais. Existe ainda um grande preconceito com terapia. Muitas pessoas veem a busca pela ajuda de um profissional como uma fraqueza.

Tendo em vista esse cenário problemático, quais opções existem para lidar com essas dificuldades no campo da saúde mental?

Hoje é possível ver que a tecnologia tem um papel cada vez mais importante no cuidado de saúde mental. A teleterapia, por exemplo, ajuda na questão da conveniência, mas ainda é cara demais para ser acessível. Já existem várias alternativas no campo de teleterapia, como FalaFreud, Vittude, Zenklub, Televita, Teladoc, Orienteme.

Além da teleterapia, existe o campo de terapia computadorizada. São soluções como a que a Pear Therapeutics traz para auxiliar em casos de abusos de substâncias.

A tecnologia que eles desenvolveram foi validada pelo FDA (o equivalente americano à Anvisa) como um tratamento que de fato pode ser prescrito. Ou seja, o profissional de saúde, ao invés de recomendar um remédio para o paciente, recomenda o uso da ferramenta.

A Vitalk, robô de conversa criado pela TNH Health, é outro exemplo de uso de tecnologia para lidar com a crise da saúde mental.

A Vitalk usa um robô inteligente para ajudar no pré-diagnóstico e autoconhecimento, tratando de temas como ansiedade, stress e depressão. Os usuários conversam com a Viki, um avatar, através das mensagens do Facebook ou de um aplicativo específico.

Em testes, mais de 700 usuários com ansiedade tiveram seu problema, originalmente alto e muito alto, diminuído em 40% após 6 semanas. A conversa com a Viki é gratuita para o público, basta acessar o site. A solução também pode ser adquirida por empresas, que compram um check-up mental para seus colaboradores, seguido de acompanhamento premium.

Apesar de conversas com robôs ainda parecerem coisas de Hollywood —como no filme "Ela"—, para muitas pessoas é uma solução até mais atraente do que ir conversar diretamente com algum profissional.

O interesse em conversar com uma inteligência artificial existe por ela ser anônima e conveniente. Além disso, o usuário não tem medo de ser julgado de alguma forma.

Com eficácia comprovada, a inteligência artificial consegue identificar riscos e encaminhar os casos mais sérios para tratamento presencial com profissionais humanos.

Se a sociedade brasileira não começar a lidar seriamente com os problemas de saúde mental, vamos enxergar cada vez mais uma piora nos índices de transtornos e em tudo que a saúde mental acarreta: pioras na saúde física, aumento dos índices de suicídio, menor produtividade da força de trabalho.

Precisamos enfrentar o estigma que ronda a saúde mental e, junto com a aplicação de tecnologia e inovações, tratar de vez esses transtornos no Brasil.

Michael Kapps

Economista russo-canadense formado na Universidade Harvard (EUA), é cofundador da Tá.Na.Hora Saúde Digital e finalista do Prêmio Empreendedor Social de Futuro 2016

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