Inovação na balbúrdia: presença de empresas juniores cresce nas universidades brasileiras

Movimento de empreendedorismo jovem reúne mais de 5 mil estudantes em Gramado na 26ª edição do encontro nacional

Giovanna Reis
Gramado (RS)

Com a participação de 5.121 universitários de todo o Brasil, o 26º Encontro Nacional de Empresas Juniores (ENEJ) transformou a cidade de Gramado (RS) na capital do empreendedorismo jovem no país entre 4 e 7 de setembro.

O evento é o mais esperado do ano por estudantes que fazem parte de empresas juniores, organizações criadas por alunos do ensino superior para que possam praticar o que aprendem em aula por meio da vivência empresarial.

Coordenado pela Brasil Júnior —confederação que representa as empresas juniores e parceira do Prêmio Empreendedor Social—, o ENEJ inspira e conecta os empresários juniores de norte a sul do país durante quatro dias de capacitação e compartilhamento de experiências, estimulando a criação de projetos transformadores.

"O evento foi o momento de desenvolver, disseminar, elucidar e debater uma estratégia alinhada em conjunto com foco nos números e metas do movimento, mas também para fortalecer o discurso e a certeza de que juntos vamos mais longe", conta Fernanda Guedes, líder de Educação Empreendedora da Brasil Júnior.

Com mais de 5.000 participantes de todos os estados do país, 26ª edição do ENEJ discutiu maneiras de usar o empreendedorismo para impactar o Brasil
Com mais de 5.000 participantes de todos os estados do país, 26ª edição do ENEJ discutiu maneiras de usar o empreendedorismo para impactar o Brasil - Galileu Oldenburg/Divulgação

O propósito do Movimento Empresa Júnior (MEJ) é formar empreendedores comprometidos e capazes de transformar o Brasil.

Presente em 171 instituições de ensino, sendo a maioria delas universidades federais, o movimento demonstra um crescimento exponencial a cada edição do encontro nacional.

Em três anos, o número de empresas juniores confederadas mais que dobrou, enquanto o número de projetos realizados cresceu 375%.

Tudo isso graças a universitários com sede de mudança que veem no ambiente acadêmico grandes oportunidades de converter a teoria em práticas de impacto.

Renan Nishimoto, atual presidente da Brasil Júnior, acredita que o trabalho de inovação das empresas juniores combate o discurso da balbúrdia predominante no ensino público superior

"A gente entende que o papel da universidade não pode ser reduzido às questões de balbúrdia. Além do conhecimento essencial e de qualidade das salas de aula, existem inúmeras ações no cenário acadêmico que defendem propósitos fundamentais para o Brasil", conta o estudante de engenharia da Unesp.

Reflexo do trabalho missionário da Brasil Júnior em formar estudantes empreendedores, o ENEJ deste ano também demonstrou crescimento considerável em comparação às edições anteriores.

O encontro foi o maior da história e surpreendeu principalmente com a contribuição financeira à cidade em que foi sediado. 

Com expectativa de movimentar R$ 5 milhões em Gramado, os estudantes mais que dobraram o valor especulado, movimentando ao todo R$ 12 milhões durante os quatro dias de evento.

 
Para a líder Fernanda Guedes, o número de participantes no ENEJ e o impacto milionário superaram as expectativas de toda a equipe da Brasil Júnior, tornando os empresários mais confiantes sobre os resultados que serão revelados no levantamento do fim do ano.
 
"Acreditamos que agora o Movimento Empresa Júnior conseguiu o gás necessário para superar a nossa previsão de desenvolver 23 mil projetos e faturar R$ 45 milhões em 2019."
 

conquistas de quem sonha alto

Em 2016, o MEJ conquistou algo que almejava desde sua chegada ao Brasil, em 1988. A tão sonhada legislação da empresa júnior (Lei Federal 13.267), impulso para a expansão do movimento em todo o território nacional.

A lei determina que as universidades ofereçam espaço físico para as organizações e que professores orientem as atividades dos alunos nas chamadas empresas juniores.

"A aprovação da lei possibilitou que o MEJ fosse visto com mais seriedade pela sociedade", afirma Laura Giovelli, ex-empresária júnior e atual diretora de imprensa da Brasil Júnior.

O ENEJ 2019 foi um marco histórico também pelo fato de reunir na serra gaúcha representantes das federações de todos os estados brasileiros.

Em 2018, o MEJ conseguiu converter em federações os conjuntos de empresas juniores de Roraima e do Amapá, os dois únicos estados que faltavam para formar uma única e diversificada rede nacional do empreendedorismo universitário.

Hoje são 935 empresas criadas dentro de instituições majoritariamente estaduais e federais, um dos motivos para que o Movimento Empresa Júnior defenda as universidades por meio do estímulo e de debates que incentivem a adesão de mais estudantes à causa empreendedora.

"Além de servir como uma base para a implementação de projetos, [o empreendedorismo júnior] estimula a inovação em ambientes acadêmicos. A educação é a base para o futuro do país e é um investimento que nunca pode deixar de ser priorizado", aponta o presidente Renan Nishimoto.

gigantes juniores

Os empresários juniores atendem de microempreendedores a grandes marcas, com resultados que superam o esperado e se assemelham a serviços de empresas sênior.

Um exemplo é a Fluxo Consultoria, mantida por estudantes de engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Com faturamento de R$ 1 milhão em 2018, a empresa júnior foi homenageada no 25º ENEJ, em Ouro Preto (MG).

Como os estudantes não podem receber remuneração pelo trabalho na empresa júnior, todo o lucro é reinvestido na infraestrutura do negócio e na capacitação dos funcionários, por meio de cursos e intercâmbios.

Além do potencial econômico, o empreendedorismo universitário apresenta cada vez mais projetos de inovação e impacto social.

Em 2019, os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU tornaram-se base para o planejamento estratégico do MEJ. Segundo a Brasil Júnior, para que um projeto seja de alto impacto ele deve estar ligado a pelo menos um dos ODS.

O case da EPR Consultoria, ligado ao ODS 3 (saúde e bem-estar), foi apresentado como um exemplo de sucesso aos congressistas do ENEJ 2019.

A EPR Consultoria é uma das 95 empresas juniores federadas pela FEJERS (Federação das Empresas Juniores do Estado do Rio Grande do Sul)
A EPR Consultoria é uma das 95 empresas juniores federadas pela FEJERS (Federação das Empresas Juniores do Estado do Rio Grande do Sul) - Galileu Oldenburg/Divulgação

Dirigida por estudantes de engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a EPR atendeu o pedido de otimização do atendimento de um hospital de Porto Alegre.

A consultoria dos estudantes fez com que o tempo médio de internação no hospital baixasse de 3h51 para 2h30, o que possibilitou que mais de 6.000 novos pacientes fossem atendidos desde a entrega do projeto.

Já em São Paulo, a Poli Júnior se destaca quando o assunto é impacto social. No ano passado, estudantes de engenharia da Escola Politécnica da USP criaram o "pessário", dispositivo que ajuda a reduzir os índices de partos prematuros em decorrência do colo do útero curto.

Inserido na gestante, o produto funciona como um suporte estrutural e também como método de administração de medicamentos. A intenção do projeto é fazer com que deixe de ser real o dado de que, a cada hora, dois bebês morrem por terem nascido prematuramente no Brasil.

Com impacto em saúde e economia, o resultado final foi um produto fabricável em larga escala, capaz de reduzir em mais de 45% as ocorrências de parto prematuro.

Previsto para ser comercializado em dois anos, espera-se que sejam economizados mais de R$ 75 milhões e que, a cada hora, um bebê seja salvo pela inovação projetada dentro da universidade pública.

a busca por um brasil empreendedor

Embora superem as expectativas sobre o que é feito em instituições de ensino superior, os ativistas do Movimento Empresa Júnior continuam sendo universitários e agindo como tal.

Repleto de música, luzes, hinos e gritos de guerra entoados por diferentes sotaques, nem mesmo o frio de 5ºC foi suficiente para conter a animação dos participantes do ENEJ em Gramado.

Itinerante, o encontro acontece uma vez por ano e leva a diferentes estados uma programação recheada de workshops, apresentações, rodas de discussão e oficinas práticas, todos voltados ao aprimoramento dos empresários juniores em conjunto.

Economia colaborativa, tipos de organograma mais eficientes e definições de impacto social e como causá-lo foram alguns dos conteúdos abordados.

Com tema "Reflexos do Movimento", a 26ª edição contou com mais de 60 palestrantes, entre eles os deputados federais Felipe Rigoni (PSB-ES) e Tiago Mitraud (Novo-MG), que fizeram parte do Movimento Empresa Júnior (MEJ) anteriormente.

​Rigoni, aos 28 anos de idade, é o primeiro cego a ocupar uma cadeira na Câmara. Conforme apontou em um de seus discursos durante o evento, muito dessa conquista se deve à participação do movimento.

Para ele e também para Mitraud, os empresários juniores que lutam pela causa do MEJ são agentes extremamente capazes de impactar e transformar a realidade do Brasil.

Felipe Rigoni (PSB) participou do Movimento Empresa Júnior em anos anteriores e hoje é deputado federal do Espírito Santo
Felipe Rigoni (PSB) participou do Movimento Empresa Júnior em anos anteriores e hoje é deputado federal do Espírito Santo - Galileu Oldenburg/Divulgação

Em seu discurso final, no último dia de evento, Rigoni trouxe dados atuais sobre os índices de desemprego e o crescimento da desigualdade no país.

"Quem vai responder o chamado do gigante?", ele questiona, referindo-se à população insatisfeita com o cenário econômico e político, influenciado pela corrupção em escala.

O deputado conta com o poder de inovação do empreendedorismo universitário e sua capacidade de gerar grandes mudanças para alterar as realidades econômica, política e social do país.

No entanto, ainda há muito em que insistir e investir, principalmente em educação empreendedora. Segundo a Brasil Júnior, apenas 0,12% dos jovens brasileiros que estudam fazem parte do Movimento Empresa Júnior.

uma esperança para os brasileiros

Para Renan Nishimoto, o MEJ é um movimento de amor, fé e esperança por um Brasil melhor.

Ele defende que aqueles estudantes, que viajaram por horas —alguns durante dias— para enfrentar o frio de Gramado e compartilhar experiências e conhecimentos, são o futuro da nação e têm a responsabilidade de se juntar para gerar mudanças ainda mais transformadoras.

"Não é só por nós que estamos aqui. A gente [time da Brasil Júnior] acredita muito em vocês, e o Brasil acredita na gente."

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