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Elie Ghanem e Helena Singer

O ensino médio deve ser democrático, inclusivo, integral e transformador

Helena Singer Elie Ghanem

A chamada reforma do ensino médio, promulgada em 2017 como resultado de um processo não participativo, estabeleceu que fossem realizadas mudanças na estrutura deste nível de ensino até 2021, mudanças que vão impactar a educação de milhões jovens das escolas públicas e privadas do país. 

Com o objetivo de promover a formulação de propostas para que estas mudanças atendam os interesses e desejos dos estudantes, professores e comunidades, algumas organizações da sociedade civil realizaram encontros em São Paulo, Brasília e Rondônia, entre outubro de 2018 e agosto de 2019.

Estes encontros reuniram centenas de estudantes, educadores, gestores e pesquisadores. O resultado foram 27 propostas de políticas.

Encontro das organizações do Sudeste, no ano passado, na FEUSP
Encontro das organizações do Sudeste, no ano passado, na FEUSP - Divulgação

​O ponto de partida é o reconhecimento das diversas juventudes e a necessidade de todas participarem da construção das políticas baseadas na sua capacidade de transformar a realidade. Essa participação precisa estar garantida em todos níveis, como, por exemplo, nas comissões que definem os processos de seleção para o ensino superior. Espera-se que estas passem a valorizar a experiência dos estudantes com trabalhos comunitários e colaboração com o bem comum.

Para fortalecer a cultura democrática, é preciso efetivar a autonomia das escolas (afirmada em lei e nunca praticada) e garantir na jornada letiva a participação dos diversos agentes da comunidade escolar nas decisões. 

As escolas devem ainda sediar debates públicos para avaliar e deliberar diretrizes de gestão pedagógica, administrativa e financeira das redes, tanto quanto para debater as propostas de reformas econômicas e sociais. 

Para formar profissionais nessa cultura, serão necessários programas municipais, estaduais e nacionais com escolas e universidades.

As mudanças curriculares não podem ser isoladas de todos os demais aspectos de que dependem para se efetivar: as condições na carreira e formação dos profissionais, na avaliação da qualidade, na produção e distribuição das tecnologias educacionais. 

Para isso, secretarias devem implementar programas de apoio, formação e disponibilização de recursos, buscando a permanência dos profissionais na mesma escola, a identificação com o projeto desta e a integração com a comunidade local. 

A escola Projeto Âncora, em Cotia (SP), integra a comunidade de Escolas Transformadoras, uma iniciativa da Ashoka correalizada no Brasil pelo Instituto Alana
A escola Projeto Âncora, em Cotia (SP), integra a comunidade de Escolas Transformadoras, uma iniciativa da Ashoka correalizada no Brasil pelo Instituto Alana - Divulgação

A jornada escolar e a de trabalho dos professores precisam contemplar planejamento coletivo, acompanhamento individual de estudantes e articulações nas comunidades.

A formação inicial e a continuada dos profissionais terá que valorizar suas experiências de trabalho por projetos e as abordagens inter ou transdisciplinares, reconhecendo as escolas como centros de formação e promovendo parcerias destas com universidades e organizações da sociedade civil.

A qualificação para o trabalho, não sendo exclusividade do ensino técnico, precisará de um sistema de informação para as escolas sobre as políticas, vagas e outras oportunidades de emprego e renda. 

Professores e estudantes criarão as próprias tecnologias educacionais, em parcerias com universidades, centros de pesquisa e empresas, transformando as escolas em centros técnico-científicos com foco no desenvolvimento local.

Serão necessários recursos financeiros para projetos que integrem escolas, famílias e comunidades, com estratégias que considerem os múltiplos arranjos familiares e o protagonismo dos estudantes. 

Medidas compatíveis, inclusive com alterações necessárias na CLT para que os responsáveis possam participar da vida escolar de seus filhos.

Como se vê, sendo propostas de superação da insistente fragmentação de nossas políticas, afirmam finalmente a capacidade das escolas, dos seus profissionais e dos estudantes para criar a educação que o país necessita, valorizando a diversidade social e cultural brasileira.

Helena Singer

Vice-Presidente da Ashoka na América Latina e Líder da Estratégia de Juventude, além de membro do Conselho Municipal de Educação de São Paulo e do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo

Elie Ghanem

Professor doutor da USP, atua principalmente nos temas de mudança educacional, qualidade da educação, gestão escolar e democracia

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