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Empreendedora se antecipa a poder público no socorro a vulneráveis e se torna 'a mulher mais rica do Rio'

Stella Moraes garante segurança alimentar e ajuda humanitária no Morro dos Macacos e impulsiona projeto 'Heróis Usam Máscaras', premiado na categoria Mitigação do Prêmio Empreendedor Social

São Paulo

Nesta pandemia, teve dia em que a assistente social e empreendedora social Stella Maris Monteiro Moraes, 35, não tinha forças nem para andar.

Nada da Covid-19, que já matou mais de 200 mil brasileiros, mas sim a intensa luta pela prevenção e para mitigar os efeitos econômicos e sociais da crise sanitária numa das áreas mais vulneráveis do Rio de Janeiro, o Morro dos Macacos, na zona norte. A dura rotina, que envolvia ainda os cuidados com os cinco filhos e a vida acadêmica, a deixavam, ao mesmo tempo, esgotada e renovada.

“Chegava à noite acabada, suada e muito, muito feliz, por conseguir mais um dia ajudar as pessoas”, afirmou Stella.

Stella Maris Monteiro Moraes, 35, da ONG Anjos da Tia Stellinha, que distribuiu máscaras, alimentos e vale alimentação a populações vulneráveis no Rio de Janeiro
Stella Maris Monteiro Moraes, 35, da ONG Anjos da Tia Stellinha, que distribuiu máscaras, alimentos e vale alimentação a populações vulneráveis no Rio de Janeiro - Divulgação

Ela integrou uma rede de organizações do projeto Heróis Usam Máscaras, do Instituto Rede Mulher Empreendedora, liderado pelas empreendedoras sociais Ana Fontes e Célia Kano, premiadas na categoria Mitigação do Prêmio Empreendedor Social do Ano 2019 em Resposta à Covid-19. O projeto uniu três bancos, levantou R$ 35,2 milhões para a produção de 12 milhões de máscaras, mobilizou 65 organizações e garantiu renda de R$ 2.700 a 6.300 costureiras de 20 estados.

A empreendedora social Ana Fontes, que, ao lado de Célia Kano, moveu o Instituto Rede Mulher Empreendedora no projeto Heróis Usam Máscaras, premiado na categoria Mitigação do Prêmio Empreendedor Social do Ano em Resposta à Covid-19
A empreendedora social Ana Fontes, que, ao lado de Célia Kano, moveu o Instituto Rede Mulher Empreendedora no projeto Heróis Usam Máscaras, premiado na categoria Mitigação do Prêmio Empreendedor Social do Ano em Resposta à Covid-19 - Renato Stockler

Uma dessas organizações, no Rio, foi a Guardiões do Mar, liderada pelo biólogo Pedro Paulo Belga, 57, que há 22 anos trabalha com reciclagem, reflorestamento e despoluição de bacias hidrográficas do Rio. Foi a Guardiões do Mar que coordenou, com a Coopa-Roca —de Maria Tereza Leal, finalista do Prêmio Empreendedor Social em 2006—, a mobilização, a produção e a distribuição das máscaras no Rio. E nesse processo contataram Stella.

E Stella correspondeu à altura. Além de distribuir 507 mil máscaras, ela conseguiu se antecipar a entes governamentais para garantir o básico a populações de alta vulnerabilidade. “Foi um trabalho lindo, mas, infelizmente, nosso país ainda está engatinhando na segurança alimentar e ajuda humanitária como política pública.”

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Sempre me incomodou ver as mazelas das pessoas. Eu era uma garota da zona sul do Rio de Janeiro, com privilégios, diante da realidade de pessoas catando papelão na rua. Nunca me conformei! A minha ONG (Grupo Anjos da Tia Stellinha) começou por eu ter conhecido o Sandro, há 12 anos. Ele, que tinha 8 anos, catava papelão com o pai de manhã e estudava à tarde. Comecei levando pão para ele na rua. Depois, passei a mandar almoço todos os dias para ele e para a família. Isso foi crescendo, e, além da alimentação, comecei a dar cesta básica a eles.

Quando vi, já doava 10 cestas básicas para famílias miseráveis do Rio de Janeiro todo. Eu trabalhava na empresa do meu pai, na parte administrativa, e realizava trabalhos sociais em abrigos, hospitais e comunidades.

Eu focava muito em ajudar crianças. Comecei a fazer festas nos abrigos e entregava cestas básicas para famílias.

Em uma dessas festas, um fotógrafo perguntou porque eu não fazia faculdade de serviço social. Eu, então com 4 filhos e vivendo de um salário de R$ 1.500, não podia pagar. E ele disse que pagaria para mim. Por cinco anos eu me dediquei à faculdade, e meu trabalho foi ganhando corpo. Tanto que eu deixei a empresa do meu pai, e usei o auxílio-desemprego para criar a ONG. Passei, então, a trabalhar como camelô, para ter uma renda, e na ONG.

Fiz meu TCC grávida do meu quinto filho. Da minha casa, a Anjos passou a funcionar numa salinha alugada, paga com ajuda de padrinhos. Crescemos, trocamos de sede, mobiliamos, estruturamos e há 6 anos fazemos mais de 600 atendimentos por mês.

Na pandemia, criamos o Projeto Mãe e Muito+ [que chegou à semifinal do Prêmio Empreendedor Social do Ano em Resposta à Covid-19]. Ele foi fruto de um amadurecimento meu nestes anos todos de trabalho social. Isso porque, antes, eu trabalha a criança. Mas vi que a transformação acontece quando trabalhamos e damos oportunidades a mulheres, mães e chefes de famílias.

Eu tive contato com o Instituto Rede Mulher Empreendedora em 2018, como voluntária no projeto Ela Pode. Foram dois anos de uma amizade forte, uma rede mesmo. Então quando soubemos da produção das máscaras, já sabiam que poderiam contar conosco para distribuir.

E conseguimos façanhas com as máscaras e com as doações. Digo isso porque chegamos primeiro que o poder público para garantir a segurança alimentar e ajuda humanitária. Você imagina numa casa de seis pessoas, que vivem de rendas informais, gastar R$ 10 numa máscara para cada um. Esses R$ 60 representam de 10% a 40% da renda de algumas famílias.

Então por aí você já vê que o impacto de uma máscara.

Mas fomos além. Nós distribuímos mais de 500 mil máscaras para populações que estavam esquecidas, como moradores de rua, população carcerária e hospitais que estavam sem EPIs. E podemos dizer, sim, que contribuímos para prevenção da Covid-19, sempre conversando com o poder públicos sobre isso.

No Morro dos Macacos, distribuímos 20 mil máscaras numa população de 25 mil pessoas.
Para não aglomerar, eu ajudei a descarregar caminhões e a distribuir. Tinha dia que eu mal conseguia andar, mas terminava o dia renovada e feliz.

Eu digo que a gente chegou antes do governo, porque com o Mãe e Muito+, em parceria com o Gerando Falcões, entregamos cartões de vale alimentação, no valor de R$ 250, a mães. A gente fez isso antes de os governos falarem de kit merenda e auxílio emergencial.

Eu acredito que as organizações sociais ganharam uma estrelinha nesta pandemia. As pessoas já sabiam delas, mas os órgãos governamentais passaram a olhar essas iniciativas com outros olhos.

Eu estou cursando especialização em políticas públicas para a família, infância e juventude. Meu sonho é dar oportunidades para que mulheres possam criar seus filhos em condições de equânimes, de terem oportunidade de sair de situações cotidianas de violações de direitos. Quando a gente dá oportunidade, a gente dá tudo.

E, da mesma forma que percebo que a transformação passa pelas mulheres, percebo que a transformação social no Brasil vai acontecer realmente quando órgãos do governo, federal, estadual e municipal, se aliarem às organizações sociais e comunidades para ajudar e chegar à população mais vulnerável.

A gente fez todo o trabalho em contato com as secretarias, da Segurança, penitenciária, da mulher, da assistência social, Cras (Centro de Referência de Assistência Social) e Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social).

Para fazer que eu fiz bastou colocar em prática o que aprendi no projeto Ela Pode, do Instituto Rede Mulher Empreendedora, que é a escuta ativa e a passiva.

Eu dava aula para mulheres que sofriam violência doméstica, que tinham privações de direitos. Então eu tenho que estar muito preparada para dar a ela a informação correta, a acolhida e mostrar como ela pode sair disso. Uma vida de uma mulher que a gente salva tem mais dez pessoas no raio dela que se beneficiam.

Eu tenho cinco filhos e um marido que me dão forças para não desistir do sonho de mudar a vida das pessoas. E não quero capa ou ser heroína. Tenho as minhas mães, que são fontes de total inspiração, minhas musas, e minhas crianças, luzes que me iluminam. Tem dia que estou moída de tanto trabalhar, mas eu posso dizer com certeza que sou a mulher mais rica do Rio de Janeiro.

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