Em aulas de robótica, crianças brasileiras preparam jipe para expedição à Lua

Onze mil estudantes de escolas públicas participam de projeto-piloto que tem como pano de fundo Programa Artemis da Nasa

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São Paulo

Com orientação de uma robô, crianças brasileiras preparam um rover, espécie de jipe que a Nasa usa para explorar a Lua. Em tempos de bilionários a turismo no espaço, 11 mil estudantes de escolas públicas estão tendo aulas de robótica pelo celular durante a pandemia.

O curso usa um simulador criado pela Bebyte, startup de educação que usa tecnologia espacial como ferramenta de aprendizado. O projeto-piloto conta com parceria da Universidade de Brasília (UnB) e da Agência Espacial Brasileira, com financiamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento para a Educação (FNDE).

“O alvo é preparar um milhão de crianças para o futuro”, afirma Alexandre Rodrigues de Carvalho, conhecido como Alex Roger Wytt, 39, fundador da Bebyte.

São 15 aulas, com 90 minutos cada, que rodam em qualquer plataforma, inclusive em aparelhos antigos. “Pelo celular ou tablet o estudante aprende a desenhar, modelar e fazer protótipos de robôs, independentemente de um laboratório.”

Desde março deste ano, 250 escolas de todos os estados do país vêm testando o curso, de unidades em áreas quilombolas a escolas de elite do Piauí. As licenças têm custo aproximado de R$ 200 por estudante.

As aulas combinam teoria e prática simulando o uso de ferramentas e sistemas. Os estudantes aprendem configurações, componentes eletrônicos e programação e passam por reforços didáticos e avaliação progressiva.

Para Zé Luiz Nogueira, 61, sócio da Bebyte, a robótica ajuda a despertar futuros cientistas. "O curso é lúdico, um grande jogo para experimentar, errar e ser tocado pelo espírito da inovação", afirma.

A solução aproxima o processo pedagógico de modelos reais de produção de engenharia, mesmo em ambiente virtual. "O celular na mão é o melhor caderno do mundo", diz Zé Luiz.

Algumas escolas recebem a visita de um laboratório itinerante, instalado em um caminhão, que ajuda a testar o conhecimento adquirido no jogo. Dentro dele, impressoras 3D, cortadeiras digitais, sistemas de robótica e todo o aparato necessário para aulas de inovação.

Primeira estudante a concluir o curso de robótica em sua escola, Amanda Mendes, 14, tem interesse em ciências humanas e biológicas. “Vejo programas de ciências com meu pai e bateu a curiosidade no jogo”, diz a aluna da Escola Municipal Prefeito José Chies, em Carlos Barbosa (RS).

Ela começou as aulas pelo computador e depois preferiu o celular. "Eu fazia durante meu tempo livre, em casa". Aprendeu sobre sensores, conexões elétricas e pilhas para montar seu robô. “Como não temos laboratório na escola, aprendemos com livros ou experimentos em casa.”

Na Escola Municipal da Mata Atlântica, em Maricá (RJ), alunos de 6 a 11 anos estão fazendo o curso. Como a escola tem computadores e internet, parte deles assiste às aulas acompanhado de uma tutora.

"A plataforma é bem intuitiva e eu fico como mediadora", diz a professora Marceli Marquez, 32. Ela conta que o vocabulário dos pequenos ganhou palavras como “gravidade” e que eles descobriram que os eletrodomésticos de casa têm funcionamento parecido com o rover espacial.

professora posa em frente a escola
Marceli Marquez Ribeiro, professora da Escola Municipal da Mata Atlântica, em Maricá (RJ) - Arquivo pessoal

"A robótica ajuda no dia a dia na sala de aula, desenvolve raciocínio lógico, criatividade, amplia nossos horizontes", diz a professora.

O projeto encapado pela Universidade de Brasília deve ter seu diagnóstico final em 2023, um ano antes da missão espacial que vai explorar o solo lunar.

O Programa Artemis, da Nasa, teve acordo de cooperação firmado em dezembro de 2020 com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e a Agência Espacial Brasileira. A expedição que deve levar a primeira mulher e a primeira pessoa negra à Lua serviu de inspiração para o projeto.

“O céu reúne grandes desafios da humanidade e também as estrelas, que são a primeira coisa que as crianças apontam”, diz José Carneiro, coordenador da pesquisa na UnB. “Temos que dar acesso ao conhecimento e mantê-las estimuladas.”

Ele explica que a iniciativa da universidade pode ser encarada como prototipação de política pública. “É uma grande pesquisa sobre como tecnologias aceleradas pela Covid-19 podem ser permanentemente incorporadas à administração pública”, afirma.

O projeto estuda os efeitos de longo prazo da pandemia em áreas como saúde, educação, mobilidade urbana e segurança pública --a robótica corresponde a menos de 5% do estudo, mas tem alto impacto social.

A expectativa é que, ao final da pesquisa, o FNDE introduza tecnologias bem-sucedidas na educação. “O curso de robótica teve bons resultados na iniciativa privada, mas como funcionaria na educação pública, que é heterogênea?”, questiona Carneiro.

Outra dúvida é se as crianças conseguiriam aprender sozinhas, de suas casas, tendo professores como motivadores. “Fizemos teste em uma comunidade quilombola e 87% das crianças conseguiram desenvolver um robô sem fazer perguntas”, afirma Alex Roger, da Bebyte.

Filho de pai analfabeto e diagnosticado com transtorno do espectro autista, o empresário conta que o autodidatismo o ajudou a superar a falta da educação formal.

“O que me permitiu subir a pirâmide social foi aprender a programar, pois me fez pensar por camadas e em variáveis”, afirma.

Alex Roger Wytt, fundador da Bebyte, foi autodidata e aprendeu a programar
Alex Roger Wytt, fundador da Bebyte, foi autodidata e aprendeu a programar - Arquivo pessoal

Alex Roger morou nos Estados Unidos, onde trabalhou com tecnologia e desenvolveu com êxito aplicativos e jogos para celular. Em 2014, de volta ao Brasil, lançou “Korruptus”, game que chegou ao topo da Apple Store (loja virtual dos celulares iPhone) em quatro países ao combinar políticos e personalidades do país como personagens de uma trama pirata.

No jogo, Jair Bolsonaro (à época deputado federal), o ex-presidente do Superior Tribunal Federal Joaquim Barbosa e os “black blocs” eram heróis contra vilões como a ex-presidente Dilma Rousseff, Lula, Fernando Collor, José Sarney e outros políticos que desviariam recursos do país para Cuba.

Prestes a ter uma segunda versão via financiamento coletivo, o jogo foi vendido a um partido político —que ele não revela qual é.

Em 2016, Alex Roger abriu uma franquia de escolas de tecnologia com parte dos cursos destinada à formação de crianças em situação de vulnerabilidade social. “Toda criança nasce gênio, mas perde superpoder pela falta de estímulo”, diz o empreendedor.

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