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Como recuperar a conexão com seu filho adolescente

Especialistas recomendam ser curioso a respeito dos interesses deles e não julgar seus erros

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Catherine Pearson
The New York Times

Quando a pandemia de coronavírus começou, o filho de Antoinette Taft, Noah, que tinha 12 anos na época, desapareceu em um mundo de telas. Ele passava horas sozinho no quarto, jogando Fortnite e outros videogames. Quando Taft, 50, tentava convencê-lo a sair, ele ficava indignado e implorava por um dispositivo eletrônico. No auge, ele ficava online 16 ou 17 horas por dia.

"Tenho vergonha de dizer que descobri que ele estava colocando um despertador para jogar com seus amigos da Costa Leste às 4 ou 5 da manhã", disse Taft, que mora em Albuquerque, no Novo México (centro-oeste dos Estados Unidos), e tem mais quatro filhos.

Ela e Noah já tiveram uma relação calorosa e tranquila, mas quando a pandemia começou ela "não conseguia mais falar com ele", disse Taft. Noah, que agora tem 14 anos, evitava suas tarefas e trabalhos escolares. Quando sua mãe tentava dialogar, ele batia as portas e gritava.

Especialistas dão dicas para pais recuperarem a conexão com seus filhos adolescentes - Martinan/Adobe Stock

Para Taft e outros pais ou mães como ela, manter uma conexão emocional significativa com um adolescente durante a pandemia foi uma tarefa heroica. E as raízes dessa desconexão podem estar nas dificuldades emocionais das crianças: em uma pesquisa do CDC (centros de controle e prevenção de doenças do governo americano), mais de um terço dos estudantes do ensino médio disseram ter problemas de saúde mental durante a pandemia no país, e 44% disseram ter sentimentos frequentes de tristeza ou desesperança, um aumento de quase 37% em relação a 2019.

Ao mesmo tempo, as estimativas sugerem que a quantidade média de tempo que os adolescentes passam usando telas pode ter dobrado durante a pandemia – tendência que os pesquisadores acreditam que pode contribuir para a saúde mental mais precária dos adolescentes.

Tentar se comunicar com um adolescente nessas circunstâncias pode parecer impossível, mas fortalecer o vínculo emocional com seu filho ajuda em longo prazo. As relações parentais fortes estão ligadas a maiores níveis de autocontrole em adolescentes, bem como maior autoestima. A pesquisa também sugere que adolescentes geralmente gostam de seus pais, os admiram e querem passar tempo com eles, mesmo enquanto estão descobrindo como ser mais independentes.

O New York Times conversou com vários especialistas em desenvolvimento de adolescentes que explicaram suas estratégias para criar uma conexão com seus filhos adolescentes.

Reduza as expectativas sobre o que "conexão" realmente significa

Quando um pré-adolescente ou adolescente está mal-humorado ou retraído, talvez não seja só por causa da mudança de seus hormônios. É normal que os jovens se afastem dos pais à medida que se desenvolvem.

Pesquisas mostram, por exemplo, que os cérebros dos adolescentes são programados para sintonizar a voz de suas mães em favor de outras menos familiares.

"Cada adolescente está testando os limites da independência", disse Jessi Gold, psiquiatra da Universidade de Washington em St. Louis (EUA).

Com isso em mente, Julie Ross, diretora executiva da organização de educação parental Parenting Horizons e autora de "How to Hug a Porcupine: Negotiating the Prickly Points of the Tween Years" (Como abraçar um porco-espinho: negociando os pontos espinhosos dos anos de adolescência, em português), disse que os pais devem moderar suas expectativas sobre o que é uma forte conexão durante a pré-adolescência e a adolescência.

Sim, alguns jovens permanecem muito próximos dos pais, mas não é necessário ter conversas profundas e significativas para ter um relacionamento saudável e de confiança.

"Os adolescentes não estão especialmente 'sincronizados' com ninguém, sequer com eles mesmos na maior parte do tempo", disse Ross. Em vez disso, ela incentiva os pais a se esforçarem para se sintonizar com seus filhos adolescentes, o que muitas vezes pode ser feito observando sua linguagem corporal ou a maneira como eles se conectam com seus colegas.

Preste atenção às alterações de humor ou comportamento, como mudanças no desempenho escolar ou diferenças nos padrões de alimentação ou sono que duram semanas ou meses. Isso indicar um problema maior, como depressão ou ansiedade.

"Se eles estão se isolando completamente ou parecem muito zangados com todos, em geral é um sinal de alerta", disse Gold.

Fique curioso sobre os interesses deles

Ross acredita que a melhor maneira de construir uma conexão com os adolescentes é se envolver com seus interesses. Isso não significa que você tenha que compartilhar os interesses deles, mas a Gold sugere que os pais mantenham uma "atitude de curiosidade".

Quando um de seus filhos era adolescente e se interessava profundamente por jogos online que ela achava incompreensíveis, Ross conseguiu se relacionar com ele fazendo perguntas sobre estratégias de jogo. Mas muitos interesses banais podem oferecer oportunidades de conexão.

Uma cliente de Ross se aproximou de sua filha adolescente ao descobrir qual era a bebida favorita da menina no Starbucks e a oferecer depois do treino de futebol.

Katherine Ort, chefe do serviço de psiquiatria infantil e adolescente do Hospital Infantil Hassenfeld da Universidade de Nova York Langone, disse que pode ser suficiente apenas assistir aos vídeos favoritos dos adolescentes no YouTube ou TikTok junto com eles.

Manter o foco de suas conversas nos interesses de um adolescente pode ser particularmente útil se seu filho não for muito falante.

"Deixá-los animados para falar sobre algo que é importante para eles pode fornecer muitas informações e conexões sem anunciar como 'Eu gostaria de falar sobre X, Y e Z agora'", disse Ort.

Desligue suas telas

As estratégias que podem ser úteis para adultos que passam muito tempo em seus telefones também podem beneficiar os adolescentes, como experimentar um jejum de tela ou reservar um tempo para ficar longe dos dispositivos. Modelar esses sacrifícios é importante, acrescentou Ort. Os jejuns de tela podem se tornar um assunto de família.

Se o objetivo não é simplesmente fazer com que seus adolescentes diminuam o tempo de tela, mas seduzi-los a passar esse tempo se comunicando com você, é preciso tornar a alternativa tão atraente quanto o dispositivo, disse ela.

Para descobrir o que pode funcionar para o seu adolescente, façam um "brainstorming" juntos. Ross trabalhou com pais que criaram laços com seus filhos adolescentes em jogos como Cartas Contra a Humanidade, que apelam para seu senso de humor e aliviam o ambiente.

Talvez seu filho queira passear com o cachorro ou experimentar um novo restaurante. O que importa é apresentar uma opção sem tela pela qual eles manifestem verdadeiro interesse.

Tente não julgar e dê tempo ao tempo

Como escreveu a psicóloga Lisa Damour no The New York Times, uma razão pela qual os adolescentes não falam com seus pais é que eles se preocupam que a mãe ou o pai tenham a "reação errada", especialmente se eles estiverem se abrindo sobre coisas como ir mal na escola ou experimentar bebidas ou drogas.

Claro, regras e estrutura são essenciais. E todos os pais às vezes julgarão seus filhos. Mas os especialistas entrevistados enfatizaram a importância de dar aos adolescentes uma chance de se abrir sem que eles se sintam que irão ter problemas.

"Os adolescentes irão te procurar mais se não sentirem que toda vez que fazem algo escutam uma palestra", disse Gold. "Então dê o seu melhor, quando eles falarem com você, para validar suas emoções e não julgá-los pelo que estão dizendo."

Para Taft, reservar 15 minutos por dia com Noah para que eles tivessem uma conversa aberta sobre o mundo dele – seja sobre algo como um problema com amigos na escola, ou um mero detalhe de seu videogame – ajudou a aproximá-los aos poucos. Eles também frequentam sessões de terapia familiar online, durante as quais a mãe aprendeu estratégias para manter limites mais firmes em torno do tempo de tela.

Noah ainda passa cerca de quatro horas por dia online, mais do que Taft gostaria. Mas ele também passou o verão indo a uma academia de liderança e um acampamento de pesca, onde pôde ficar ao ar livre e se reconectar com colegas. Isso ajudou seu humor em geral, e ela está confiante de que o novo ano letivo será bom – para Noah e para o relacionamento deles.

"Lentamente", ela disse, "a comunicação entre nós se abriu novamente."

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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