Melhor uso do verba na pesquisa não será conseguido a facão, diz Paulo Hoff

Chefe do Icesp e da oncologia da Rede D'Or, que inaugura hospital premium em SP, diz que ciência pode ser asfixiada

Mariana Versolato
São Paulo

Seja à frente do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo Octavio Frias de Oliveira), na rede pública, ou no recém-inaugurado Vila Nova Star, da Rede D’Or, voltado à classe A, o médico Paulo Hoff, 50, quer fazer ciência de qualidade que seja traduzida em melhor tratamento para os pacientes. 

No Icesp, projetos de pesquisas levaram ao uso de tecnologias avançadas, como radiocirurgias e cirurgias robótica, permitindo que os pacientes do SUS tivessem acesso a tratamentos de ponta antes só vistos no sistema privado. Lá também Hoff liderou a pesquisa que apontou que a chamada pílula do câncer fosfoetanolamina), distribuída por anos às margens dos sistemas de regulação e de vigilância sanitária, não tinha eficácia. 

Depois de uma carreira de 11 anos no Hospital Sírio-Libanês, Hoff se mudou há um ano e meio para a Rede D’Or, onde preside o setor de oncologia.

Paulo Hoff, 50, nascido em setembro de 1968, em Paranavaí (PR), Hoff formou-se em medicina pela Universidade de Brasília e fez doutorado em oncologia pela USP. Foi professor do M.D. Anderson Cancer Center, na Universidade do Texas, e é professor titular da USP - Zé Carlos Barretta/Folhapress

Na maior prestadora de serviços hospitalares privados do país, alguns de seus desafios serão melhorar a integração do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor) com a rede hospitalar e aumentar a participação do grupo e, consequentemente, do país em ensaios clínicos (estudos que testam terapias em humanos). 

Por tudo isso, Hoff vê com preocupação os cortes em educação e ciência. Mais de 40% do orçamento do Ministério da Ciência foi contingenciado, e quase 5.000 bolsas de mestrado e doutorado consideradas “ociosas” foram congeladas sem aviso prévio.

“Acho que esse é um momento delicado. Me preocupa demais a ideia de deixarmos que ocorra uma atrofia do complexo de ciência do Brasil”, disse à Folha no Vila Nova Star. “Todos nós queremos o melhor uso do recurso público, mas isso dificilmente se resolve a facão.”

O que o motivou a fazer a mudança de casa, a sair do Sírio-Libanês e ir para a Rede D’Or? 

Gosto de desafios. O Vila Nova Star chama atenção pela qualidade e pela proposta, mas ele é só parte de um projeto muito maior. Estamos tentando fazer algo que atinja várias camadas da população. 

Desde a minha vinda, só na cidade de São Paulo abrimos oito unidades de tratamento de câncer, atendendo uma gama enorme de convênios. A nossa intenção é criar uma harmonização de condutas para que o indivíduo que nos procure em um hospital mais simples, independentemente da classe social e do convênio, tenha a mesma eficácia no resultado final. Hoje temos oncologia D’Or em nove estados e estamos crescendo. 

Quero usar o que acumulei nesses anos todos para melhorar o atendimento oncológico para uma parcela larga da população. 

E como é chegar como um novo player e convencer o paciente de que ele pode apostar no Vila Nova Star para se recuperar de uma doença que causa tanto temor?

Na verdade, este é um hospital que chega com uma proposta diferente, posiciona-se entre os grandes players do ramo, mas não nasce isolado. Ele nasce de um grupo muito forte; hoje a Rede D’Or já é a maior prestadora de serviços hospitalares privados na cidade. Não é necessariamente um “newcomer”, ele está erguido sob uma experiência acumulada. Não o consideraria um novato. O hospital expande a atuação da rede num segmento em que não estava tão presente. 

E há demanda para um serviço tão requintado, com as últimas tecnologias disponíveis, considerando o momento econômico do país?

Nós imaginamos que sim, e temos visto na própria clínica ambulatorial da Rede D’Or que a procura vai além da fronteira. Já atendíamos pacientes de outros países e acreditamos que essa busca vai continuar acontecendo com este hospital. 

A chegada do Vila Nova certamente é uma adição às opções que os médicos têm para tratar seus pacientes e, para os pacientes, é mais uma opção de assistência. Vamos fazer o nosso melhor para que ele seja visto como opção relevante e adequada e atenda as expectativas.

Como o hospital vai incorporar o que é produzido no Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino e quais as expectativas quanto à participação do Vila Nova Star em ensaios clínicos?

Um dos aspectos que discutimos com a minha vinda à Rede D’Or era a possibilidade de fazer pesquisa, não só na área oncológica mas também nela. E logo após a minha chegada tivemos a felicidade de passar a contar com o doutor Fernando Soares, nosso chefe de patologia que tem uma história muito longa de ciência e assistência. Hoje nós temos um laboratório dedicado à patologia molecular que vai nos ajudar bastante nesses projetos. 

Além disso, a Rede D’Or tem um braço no instituto de pesquisa sem fins lucrativos que é subsidiado por ela. Esse instituto tinha sua atuação muito focada no Rio de Janeiro, mas, com a minha entrada na rede em São Paulo, já abrimos uma filial aqui, e a ideia é que passemos a buscar ativamente a participação em estudos clínicos para trazermos novas opções de tratamento aos nossos pacientes. Recentemente a rede também adquiriu participação no Hospital São Rafael, em Salvador, que tinha um grande centro de pesquisa e que está sendo incorporado.

Vai ser mais fácil fazer estudos multicêntricos, com pacientes de diferentes localidades, então? 

Exatamente, esse é um ponto crucial. Com mais de 40 hospitais, temos total capacidade de pensar na nossa atuação como uma rede de pesquisa que vai nos permitir aumentar a presença do grupo e, consequentemente, do país em estudos internacionais e em várias áreas. 

Queremos também investir em ensino. Estamos revisando um processo para reestruturarmos o programa de residência e colaborarmos para a formação de profissionais. 

O Brasil teve uma explosão no número de faculdades de medicina; saímos de cento e poucas nos anos 90 para 320 agora, mas não há vagas de residência para atender todos os formandos. E a verdade é que a residência hoje é quase obrigatória para que o profissional tenha formação profunda mesmo em áreas gerais, como pediatria e clínica médica. Nós achamos que com o nosso tamanho e a nossa abrangência podemos dar uma grande contribuição para essa área.

A própria rede tem trabalhado a ideia de ter uma faculdade no Rio de Janeiro. Comprou a área que era da Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro, na Glória, e a ideia é transformá-la num centro de ensino que incluirá uma faculdade de enfermagem e de outras da área da saúde, chegando um dia, quem sabe, a ter uma faculdade de medicina, com hospital-escola. 

Claro que o processo é longo, mas mostra o comprometimento da rede com outro aspecto que é a formação de quadros.

O senhor sempre foi defensor e incentivador da produção de pesquisa no Brasil, algo muito marcado em seus discursos nas cerimônias de entrega do Prêmio Octavio Frias de Oliveira. Como vê esse momento de cortes na educação e na ciência? 

Com muita preocupação. Entendo que o Brasil passa por um momento difícil do ponto de vista econômico, mas quando soubemos dos cortes da magnitude de 30% no MEC ficamos muito preocupados porque a pesquisa não é algo que possa usar um “dimmer” para aumentar e diminuir. 

Ou você tem quadro de profissionais capacitados constantemente atuando na área ou você terá uma dificuldade enorme de retomar a pesquisa uma vez que a condição melhore. Não é simples como dizer “agora eu reduzo, quando as coisas melhorarem eu passo a financiar de novo”. 

Se esses cientistas abandonam a pesquisa e passam para outras áreas de atuação ou mesmo saem do país, podemos não ter mão de obra qualificada para criar tecnologia mais tarde. 

Somos um país muito grande. Não temos vocação para apenas comprar tecnologia de fora o tempo inteiro. Podemos ser um player que troca, que compra mas também vende.

Esse é um momento muito delicado e me preocupa demais a ideia de deixarmos que ocorra uma atrofia do complexo de ciência do Brasil. E não estou nem falando da pesquisa clínica, porque essa é mais fácil de acelerar e desacelerar. Mas se a pesquisa básica desaparece, leva muito tempo para ser reconstruída. Seria muito importante se repensassem essa questão em Brasília. 

Outro ponto é que todos nós queremos o melhor uso do recurso público, e se há algum caso de mau uso isso precisa ser aprimorado e discutido. Mas dificilmente isso se resolverá com um corte a facão. Cortar igualmente de todo mundo sem olhar as características próprias dificilmente vai fazer com que o redesenho do sistema seja feito de forma produtiva. 

Temos que lembrar também que a universidade é onde fervilham a intelectualidade e a inteligência de um país. Nem sempre a gente concorda com o que está sendo dito e discutido na universidade, mas essa pluralidade leva a um crescimento de todos, mesmo que se discorde. 

A maior parte da pesquisa no Brasil é pública e o governo atual defende a maior participação da iniciativa privada na ciência. Como o senhor vê como isso poderia se dar?

Existem algumas interpretações do que está se dizendo, então vamos às verdades. 

A maior parte da pesquisa no Brasil hoje é conduzida em instituições públicas, a menor parte em instituições privadas. Isso é verdade. Consequentemente, hoje somos altamente dependentes na produção das instituições públicas para manter nosso ritmo de pesquisa. 

Problemas que nós temos: 1) seria interessante termos mais investimento privado na pesquisa, sim, e 2) seria importante que mesmo a pesquisa pública gerasse mais patentes, que nós estivéssemos gerando mais recursos para ser reaplicado na pesquisa. 

Um dado muito interessante é que o Brasil tem uma produção científica na área da medicina muito parecida com a da Coreia do Sul, mas a Coreia nos deixa longe em volume de patentes. 

Há às vezes uma sensação no Brasil de que não é bom gerar uma patente ou ter intuito de ganho financeiro em cima de pesquisa, o que não é correto. O mundo inteiro faz isso. E desde que seja feito de maneira transparente e ética, não há nenhum problema.

Então acho que o governo tem razão em esperar que as entidades privadas apliquem mais na pesquisa brasileira, mas hoje nós somos dependentes do que sai do sistema público. E esse processo é longo, não se muda isso de um ano pro outro. É preciso um norte, um planejamento para se levar a um equilíbrio.

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